Raúl Ruiz estava a preparar a pré-produção de “Linhas de Wellington”, após o sucesso mundial da sua última obra-prima, “Mistérios de Lisboa” (2010), tendo sido interrompida pela sua infeliz morte a 19 de agosto de 2011, aos 70 anos. O produtor Paulo Branco, que produziu “Mistérios de Lisboa”, não desistiu deste novo projeto e pediu à mulher de Raúl, Valeria Sarmiento, que realizasse “Linhas de Wellington”. Assim foi e temos hoje uma obra única no cinema português, tal como tinha acontecido com “Mistérios de Lisboa”. “Linhas de Wellington” assume-se como um dos filmes portugueses mais aguardados do ano e como a produção mais cara num filme português, até hoje, contando com um orçamento de quatro milhões e meio de euros, quase o dobro de “Mistérios de Lisboa”.

Num país como o nosso, Portugal, rico em história e cultura, donos do mundo em tempos, o cinema português tem muita história para contar, muitas fontes de inspiração. No entanto, filmes de época são extremamente caros e difíceis de se fazer, daí “Linhas de Wellington” ser um filme raro e corajoso. Só por isso merece toda atenção do público português. O filme centra-se num dos períodos mais marcantes da nossa história, as invasões francesas, neste caso a terceira, liderada pelo marechal Massena, em 1810. Após a derrota das tropas francesas na Serra do Buçaco, pelo exército anglo-português do general Wellington, estes são obrigados a recuar para o Sul, com o objetivo de atrair o inimigo para as Linhas de Torre Vedras, umas fortificações imponentes mandadas construir por Wellington. Este é o pano de fundo para o argumento escrito por Carlos Saboga (também argumentista de “Mistérios de Lisboa”), que acompanha várias personagens de vários estratos sociais, idades e géneros.

O filme acompanha este êxodo em massa da população portuguesa para o abrigo das linhas de Torres Vedras. Foi um momento de destruição, miséria, pobreza e morte. Momento esse que o filme recria na perfeição, em cenários de guerra, onde só há lama e pó. No entanto, o filme prometia ser épico, coisa que não é de todo. É um filme com muitos diálogos e com meia dúzia de tiros de canhão e espingardas. Seria também interessante vermos no cinema uma dessas batalhas recriada em tom épico. Mas claro que isso só é possível em Hollywood. Neste filme chegaram mesmo a ser usados cerca de cinco mil figurantes, o que para uma produção portuguesa é caso único. Este deve ser o único filme que recria o sofrimento dos portugueses durante as invasões francesas. É interessante vermos como Portugal foi “violado” pelos franceses, assim como hoje somos “violados” pela Troika e os portugueses saem do país, à procura de emprego lá fora. Os ingleses, que nos vieram ajudar contra os franceses, são comparáveis ao FMI, mas no final percebemos que essa ajuda vai sair-nos cara, como a própria história nos mostra. Há coisas que não mudam.

“Linhas de Wellington” é também um filme multi-cultural, pois reúne um elenco de luxo nacional e internacional, com nomes como Nuno Lopes, Soraia Chaves, Carloto Cotta, Albano Jerónimo, Afonso Pimentel, Gonçalo Waddington, Joana de Verona, John Malkovich, Marisa Paredes, Mathieu Amalric, Catherine Deneuve e Michel Piccoli. São mesmo muitos nomes, de atores e atrizes de países como França, Espanha, Portugal e EUA. O elenco é o grande trunfo desta obra, pois contem interpretações notáveis, mesmo que por vezes sejam muito breves.

O principal problema deste filme reside no avultado número de personagens que acompanhamos, sendo que não conseguimos de todo criar empatia por elas. O argumento não aprofunda bem a personalidade das personagens. Valeria Sarmiento realiza bem este filme, de forma segura, um pouco no estilo de “Mistérios de Lisboa”. A ligação a este filme é tão grande que estaremos sempre a tentar comparar os dois filmes e a pensar no que Raúl Ruiz teria feito se fosse vivo. Com uma boa banda-sonora, composta por Jorge Arriagada e a fotografia ficou mais uma vez ao cargo de Anfré Szankowski, que “pintou” um fresco em “Mistérios de Lisboa”, mantém também aqui um nível de excelência, mas agora usando tons um pouco mais escuros e castanhos.

Por muito cuidadoso e minucioso que este filme seja, não tem a perfeição e o encanto de “Mistérios de Lisboa”. No entanto, “Linhas de Wellington” é um filme muito bom, uma produção ambiciosa, que mais uma vez reúne os melhores técnicos e atores, graças a Paulo Branco. O filme terá direito a uma mini série televisiva de três episódios a ser emitida na RTP, entidade essa que torna a mostrar a importância da existência do serviço público. “Linhas de Wellington” são duas horas e meia de bom cinema e uma lição de história de Portugal, pelo que deve ser visto por todos.

Realização: Valeria Sarmiento

Argumento: Carlos Saboga

Elenco: Nuno Lopes, Soraia Chaves, Marisa Paredes, John Malkovich, Carloto Cotta, Victória Guerra, Marcello Urgeghe, Jemima West, José Afonso Pimentel, Miguel Borges, Mathieu Amalric, Catherine Deneuve, Michel Piccoli

Portugal/2012 – Drama/Guerra

Sinopse: Em 27 de Setembro de 1810, as tropas francesas comandadas pelo marechal Massena, são derrotadas na Serra do Buçaco pelo exército anglo-português do general Wellington. Apesar da vitória, portugueses e ingleses retiram-se a marchas forçadas diante do inimigo, numericamente superior, com o objectivo de o atrair a Torres Vedras, onde Wellington fez construir linhas fortificadas dificilmente transponíveis. Simultaneamente, o comando anglo-português organiza a evacuação de todo o território compreendido entre o campo de batalha e as linhas de Torres Vedras, numa gigantesca operação de terra queimada, que tolhe aos franceses toda a possibilidade de aprovisionamento local. É este o pano de fundo das aventuras de uma plêiade de personagens de todas as condições sociais – soldados e civis; homens, mulheres e crianças; jovens e velhos -, arrancados à rotina quotidiana pela guerra e lançados por montes e vales, entre povoações em ruína, florestas calcinadas, culturas devastadas. Perseguida encarniçadamente pelos franceses, atormentada por um clima inclemente, a massa dos foragidos continua a avançar cerrando os dentes, simplesmente para salvar a pele, ou com a vontade tenaz de resistir aos invasores e rechaçá-los do país, ou ainda na esperança de tirar partido da desordem reinante para satisfazer os mais baixos instintos. Todos, quaisquer que sejam o seu carácter e as suas motivações – do jovem tenente idealista Pedro de Alencar, passando pela maliciosa inglesinha Clarissa Warren, ou pelo sombrio traficante Penabranca, até ao vindicativo sargento Francisco Xavier e à exuberante vivandeira Martírio -, convergem por diferentes caminhos para as linhas de Torres, onde o combate final deve decidir do destino de cada um.

«Linhas de Wellington» - Um Portugal “violado”, tal como hoje
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