«Listen» – Ana Rocha fala de adoção forçada em estreia como realizadora de longa

Com seis prémios e distinções no Festival de Cinema de Veneza deste ano, “Listen” chega aos cinemas portugueses nesta quinta-feira (22) para enfrentar alta expectativa do público. Esta é a primeira longa-metragem da atriz portuguesa Ana Rocha de Sousa como realizadora e como co-roteirista a dividir créditos com os também produtores Rodrigo Areias (da Bando à Parte) e Paula Vaccaro e Aaron Brookner.

Sete anos depois do lançamento da sua curta “Minha alma and you”, Ana Rocha faz “Listen”, um filme cuja ideia já estava em sua cabeça também há alguns anos. A estudar cinema em Londres, a realizadora ficou inquieta desde que viu uma notícia sobre famílias portuguesas que perderam os filhos para os serviços sociais do Reino Unido. A chamada adoção forçada. Realmente se fizermos uma busca rápida no Google, encontraremos alguns casos como o que foi capa da revista “Visão” em maio de 2016, com o título “Os ingleses levaram os nossos filhos – 47 crianças em 16 meses”.

Em “Listen”, o casal de imigrantes portugueses Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia) vive nos subúrbios de Londres e tem três filhos: o adolescente Diego (James Felner), a menina do meio, Lu (Maisie Sly), que sofre de surdez, e um bebé. Logo no início da trama é destacado o problema financeiro da família. Jota trabalha como carpinteiro, mas seu chefe não lhe paga corretamente, e Bela é empregada doméstica. Eles têm apoio social, mas não o suficiente. Bela se vê obrigada a furtar alimentos de um mercado para tomar o pequeno almoço.

Certo dia, Bela vai buscar Lu na escola e a professora a aborda agressivamente, dizendo que a menina foi parar no hospital e que tentaram entrar em contacto, sem sucesso, pois acharam hematomas nas costas. Já momentos depois deste mal-entendido, o serviço social bate na porta da casa da família e retira à força as três crianças dos pais. Não há provas de que Bela e Jota são pais que maltratam os filhos. Eles brigam e discordam, mas não há indícios de violência doméstica.

A partir daí começa um conflito aflitivo, claustrofóbico e depressivo. Parece não haver saída pois o processo de adoção forçada já está mais adiantado do que qualquer outro tipo de burocracia que se possa imaginar. É uma velocidade tão esquisita que desconfia-se do sistema. Essa crítica que é feita à autoridade e o retrato da luta desigual contra injustiças parecem ter sido inspirados em alguns filmes mais recentes como “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Você Não Estava Aqui” (2019), do cineasta britânico Ken Loach, e “Dois Dias, Uma Noite” (2014) e “A Garota Desconhecida” (2016), dos irmãos Dardenne. São filmes europeus que colocam personagens comuns em situações que poderiam não ser tão corriqueiras, mas infelizmente são.

Ana Rocha consegue passar esse sentimento de transtorno principalmente com a personagem da mãe. Entre ficar inerte, sentir raiva, ganhar força para lutar pelos filhos, Lúcia Moniz tem cenas ótimas. No entanto, alguns desfechos podem deixar aquela vontade de querer saber mais sobre o que se passou. Não há um encerramento ou um final feliz (nem tão infeliz). É um pesadelo na vida de uma família que provavelmente não chegará a um fim tão próximo.

«Listen» – Ana Rocha fala de adoção forçada em estreia como realizadora de longa
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