«Listen» – escutemos, porque a fantasia não mora aqui!

Elaborar cinema social é quase visto como uma tarefa inglória. Porque em todo o caso há uma subserviência à ideologia política no qual se deixa instrumentalizar, que numa definição mais simples funcionam naquilo a qual chamamos de propaganda. Nunca fugindo da politização, até que o cinema nunca deve ser imparcial (ambíguo pode, imparcial é impossível), o cineasta britânico Ken Loach é um dos grandes exemplos de como a arte narrativa opera como uma arma de tremenda e prolongada luta, nesse caso, a da dignidade da classe operária, por vezes corrompida pela omnipresença do capitalismo selvagem.

Num encontro com a imprensa, a portuguesa Ana Rocha De Sousa referiu, assertivamente, não se rever nas comparações, que entretanto, têm sido feitas da sua obra com Loach. A realizadora sublinhou que não tinha em mente esse cinema enquanto compunha “Listen”, e essas ditas paralelizações provavelmente teriam sido suscitadas devido à crueza e crueldade com que ambos abordam as suas respetivas e determinantes batalhas. Porém, é verdade que a sua formação na Escola de Cinema londrina a colocou indiretamente nessa onda de dito realismo social, um exercício quase minimalista nos quadrantes narrativos que tem como foco principal expor um sistema devastador e bárbaro, eticamente falando.

Nesses termos precisos, “Listen” é um filme-denuncia que cumplicia com uma família portuguesa que tenta a sua “sorte” numa Londres longe dos “postais de visita”, e sob o constante olhar predatório da segurança social inglesa. Convém, salientar a sua frontalidade no discurso mesmo que a narrativa esteja retalhada de maneira a fomentar uma prolongada sessão de tortura a estes protagonistas (Lúcia Moniz naquele que é indiscutivelmente o seu melhor papel), impotentes perante um sistema que não os protege e acima de tudo, que não os compreende. Não existe compaixão por estas burocracias questionáveis com ares de BREXIT aludindo permanentemente as suas ditas fundamentações, mas às suas “vitimas” é reservado um trabalho minuciosamente emocional e igualmente expositivo para com o seu “caso de estudo”.

Portanto, a simplicidade originária desse enredo montado pelo somente essencial (basta exercitarmos e refletir qual das sequências é por si dispensável à saúde narrativa para entendermos o quão economizado está esta estrutura) tornam “Listen” um filme a merecer ser ouvido e que o consegue, sem deambulações nem embelezamentos agravados.

A juntar a isso, um final dúbio que assenta que nem uma luva a todo este expoente de (in)justiças, não maquilhando esta extensa dor. Ana Rocha parece estar a fim desse choque de realismo, até mesmo na desconstrução da inicial fantasia cinematográfica. Longe do sintético e fascinado pelo natural e austero das relações afetivas, metaforicamente comentado pela personagem Lúcia Moniz, que no início deste processo algo kafkiano, dirigindo-se à sua filha (Maisie Sly) que contempla o redor do seu fabricado biótopo – “É um avião, mas eu prefiro os pássaros.” Contudo, a dor não é acalentada, apenas adormece preparando-se no contínuo da guerra.

«Listen» – escutemos, porque a fantasia não mora aqui!
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