Um dia disseram que o cinema sempre existiu. Franzi o sobrolho. Afirmaram que o cinema não tem somente um século de existência enquanto fenómeno visual e artístico; que o plateau sempre existiu e sempre existirá. Faltava-lhe apenas algo de essencial, algo que surgiria apenas mais tarde: um instrumento cinematográfico, a câmara. As palavras são de Sério Fernandes, esse xamã dos cineastas portugueses, portuense e realizador de “Chico Fininho”. Esta rubrica compromete-se a celebrar a diversidade cinematográfica e o mundo como grande potenciador de histórias e olhares. 

Europa – Portugal – “Ossos”, de Pedro Costa (1997)

Sinopse: Estrela d´África, Venda Nova. Clotilde e Tina são vizinhas, cúmplices nas misérias daquele bairro crioulo. O bebé de Tina sofre várias mortes. O pai deambula pelas ruas de Lisboa entre a caridade alheia e a vontade de vender o filho. Mas Tina não se esquece.

“Ossos” é um filme de personagens andrógenas. As mulheres resistem, os homens perdem-se com rosto amorfo. Os olhar delas brilha enigmaticamente, melancolicamente. O deles, vago, moribundo. Pedro Costa é ele próprio cineasta assexual, a cru, a sua câmara vincadamente documental, astuta, por vezes até perigosa.

 

África – Burkina Faso – “Tilaï – A Lei e a Honra”, de Idrissa Ouedraogo (1990)

Sinopse: Saga regressa à aldeia. O seu irmão recebe-o acolhedoramente mas deixa-lhe um aviso. Nogma fora prometida ao seu pai durante a sua longa ausência.

Um pouco à semelhança de “Moolaadé”, este é um filme cujo tema recai, mais uma vez, numa África espiritual, ao mesmo tempo crua e longínqua. E o que Ouedraogo consegue produzir com esta obra é uma coisa rara: oferece-nos tanto um lugar como testemunhas de uma mentalidade patriarcal, uma apreensão ligeira da secularidade das tradições presentes de uma Burkina Faso pré-colonial, como parece forçar-nos a admitir que estes costumes estão para além da nossa moralidade. Um filme simultaneamente julgamento e enigma. Fica ainda uma nota para os planos magníficos da noite africana, com a sua luz ténue e acolhedora sobre o deserto africano.

 

Ásia – Tailândia – “Millennium Mambo”, de Hou Hsiao-Hsien (2001)

Sinopse: Final do ano. O mundo prepara-se para acolher o novo milénio. Vicky jurou que quando gastasse todas as suas poupanças, abandonaria Hao-Hao. Isto passou-se há dez anos atrás.

O cinema de Hsiao-Hsien é lento, feito de movimentos quase imperceptíveis, espectrais; a acuidade e sensibilidade da fotografia de Mark Lee Ping Bin, etérea (imediatamente evidente no famoso plano-sequência de abertura); a intriga, dispersa, fragmentada, prisioneira das memórias de Vicky, que se desenrolam na sua voz, ao mesmo tempo taciturna e sensual, narrando os acontecimentos do filme (e deixem-me dizer que nunca ouvi uma voz tão hipnotizante num filme). Enfim, “Millennium Mambo” é de uma ligeireza requintada, e penso que não há muito mais que seja necessário dizer. A não ser: vejam este filme (mais uma vez). E é claro que poderia também informar que passará uma retrospectiva do realizador no Lisbon & Estoril Film Festival.

 

América Central – México – “Batalha no Céu”, de Carlos Reygadas (2005)

Sinopse: Marcos rapta uma criança. Ana tem relações sexuais com qualquer homem apenas por prazer. Na sua busca por redenção, Marcos confessa-lhe o seu crime, apenas para se encontrar ajoelhado entre uma multidão às portas da basílica em honra da senhora de Guadalupe, à procura do mesmo.

 

Reygadas afirma que detesta o teatro. Diz, contudo, que é uma excelente catarse para os actores, porque podem sempre ser idiotas e sair impunes. Ora é certo e sabido que muitos cineastas não gostam dos métodos do teatro, em particular no que diz respeito à preparação dos actores e da sua forma de interpretação: o exagero. Senso comum considerando que actuam num espaço fechado, directamente para um público. O cinema também não era assim tão diferente no exagero da realidade (basta lembrar Hollywood, ou mesmo Bollywood se quisermos ser extremistas), apenas com o cinema verité, o documentário, o neo-realismo e finalmente o actual retorno a um estilo vincadamente realista por um grande número de cineastas é-nos possível julgar as palavras de Reygadas na sua plenitude e o porquê do seu estilo feroz, das suas imagens bárbaras, das suas personagens grosseiras…Precisamente por ser um cineasta do real. Do profundamente real. Do que se esconde nas entrelinhas de um México louco e amoral…

 

Oceania – Austrália – “Piquenique em Hanging Rock”, de Peter Weir (1975)

Sinopse: Durante um piquenique, um grupo de raparigas e a sua professora desaparecem misteriosamente em Hanging Rock.

O que dizer deste filme, senão um filme-mistério? Desde a banda-sonora, à cinematografia, ao próprio enredo, que Peter Weir parece ter falhado na elaboração de um filme, mas conseguido um verdadeiro truque de ilusionismo – tudo é tão enigmático, que nos leva realmente a questionar se haverá aqui uma qualquer explicação para o destino fatídico das suas personagens, a não ser simbolicamente. Weir parece mais interessado numa experiência quase laboratorial da capacidade transfigurativa do cinema pelo recurso à fantasia, explorando-a até ao limite através do uso soberbo da luz, difusa e onírica, e da música produzida quase exclusivamente por uma flauta de pã absolutamente hipnótica.