“Love Lies Bleeding”: um conto de vingança com sabor a esteróides

"Amor em Sangue", Rose Glass "Amor em Sangue", Rose Glass

Sob calorosos aplausos de uma audiência entusiasmada, o novo filme da britânica Rose Glass (“Saint Maud”) estreia em Berlim fora de competição. “Love Lies Bleeding” é uma história de amor entre duas mulheres unidas pela crença de serem elas contra o mundo. Um filme cheio de sexo, violência, e que a realizadora definiu como um  “Thelma & Louise on steroids”.

Kristen Stewart é a estrela de um dos títulos mais concorridos desta Berlinale: “Love Lies Bleeding” realizado pela britânica Rose Glass aqui em sua segunda colaboração com a distribuidora A24, após o sucesso do seu primeiro longa “Saint Maud” ter lhe trazido merecida atenção. O filme é uma aventura queer estilizada, surreal — e literalmente repleta de esteróides— que narra a jornada de uma fisiculturista, Jackie (Katy O’Brian) rumo à Las Vegas em busca do sonho americano. Pelo caminho ela encontra Lou (Kristen Stewart) uma rapariga introspectiva que perdeu a mãe em circunstâncias misteriosas e que cruza o caminho de Jackie, por quem se apaixona obsessivamente. Lou passa os dias a gerir o ginásio do pai, Sr. Lou (Ed Harris) um homem misterioso com quem ela tem uma relação complicada, e que obviamente, mantém alguns esqueletos escondidos, mas não necessariamente no armário.

O filme gerou bastante burburinho durante sua estreia em Sundance em janeiro, marcando-se pela abordagem audaciosa de Glass, que entregou uma obra repleta de energia, violência e muito erotismo. Após o sucesso de “Saint Maud”, a realizadora revelou que estava incerta sobre seus próximos passos, mas de uma coisa tinha uma certeza: desejava criar uma história centrada em mulheres fortes e que flertasse com vários géneros. O resultado foi uma fantasia queer vibrante, que ao mesmo tempo que faz uma homenagem a estética do cinema “pulp”, parece querer elevar a carga de intensidade do seu filme ao limite máximo. A realizadora explica que quando defendeu a ideia do filme para os produtores, disse que o vendeu como um “Thelma e Louise on ecstasy”

Na conferência de imprensa em Berlim, quando perguntada sobre outras referências para o filme, a britânica confessou que pensou em “Showgirls” e até pediu para Stewart ver o clássico de culto de Paul Verhoeven, filme que até o momento a atriz ainda não conhecia. A referência é pertinente. Assim como a Nomi Malone que Elizabeth Berkley imortalizou em “Showgirls”, Jackie também quer chegar até Las Vegas como seu destino final, impulsionada por uma forte vontade vencer e ser reconhecida, mesmo que isso signifique enfrentar desafios que comprometam a sua moral, e o seu corpo, ao longo do caminho. 

Questionada sobre o que pensava sobre a representatividade de cinema queer atual, Kristen Stewart logo desfez expectativas e afirmou não pretender ser nenhuma espécie de símbolo queer mas que mesmo assim reconhecia o bom momento para filmes de temáticas LGBT+ e pela abordagem em filmes recentes de personagens femininas fortes e determinadas a desafiar as expectativas sociais em face de circunstâncias adversas.


Na estreia do filme em Berlim na gigantesca Verti Music Hall, que abriga quase dois mil lugares, a realizadora disse estar “aterrorizada” com a quantidade de pessoas ali presentes. O evento foi apresentado pelo diretor artístico Carlo Chatrian, que comentou sobre a escolha do local para a estreia do filme destacando a ironia de terem um ginásio “logo a porta ao lado” da sala de espetáculos. Este detalhe ressoa com o cenário principal do filme, onde a protagonista, Jackie, passa seus dias treinando intensamente em um ginásio, preparando-se para um importante concurso de fisiculturismo em Las Vegas.

Mas a trama do filme estende suas raízes em Berlim mais além, desenrolando-se em 1989, em meio ao contexto histórico da queda do Muro de Berlim. Evento esse que é capturado através de noticiários na televisão, refletindo um período de transformação política e social significativa. As lutas individuais por liberdade e identidade encontram um eco profundo no filme de Rose Glass, simbolizando não apenas o fim de um período de confinamento físico e ideológico, mas também marcando um momento de uma mudança de paradigma.

Com uma mistura de humor perverso, cenas de sexo ardentes e muita violência gráfica, “Love Lies Bleeding” oferece uma crítica mordaz à América como um covil amoral de almas desesperadas e sonhos despedaçados, enquanto ainda mantém uma atmosfera intoxicante de luxúria e paranoia​​.  Um filme que não é só uma história de amor entre duas mulheres unidas pela crença de serem elas contra o mundo, mas também um conto de vingança político que avança impetuoso sem pedir desculpas a ninguém e atropelando tudo o que vê pela frente. Um filme sobre obsessão que explora tanto seu aspecto de desejo mais ardente quanto sua capacidade de impulsionar indivíduos à completa autodestruição.

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