“Loving Highsmith”, de Eva Vitija: Para que mais gente possa amar Patricia Highsmith

Patricia Highsmith, "Loving Highsmith"
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Estreou a 3 de novembro na plataforma de streaming Filmin o documentário “Loving Highsmith”, da autoria da realizadora suíça Eva Vitija.

O título não deixa margem para dúvidas, este é um trabalho que não vem para denegrir ainda mais a imagem da escritora, cuja fama é sobejamente conhecida do público em geral.

Na realidade, o objetivo da realizadora parece ser o de restabelecer o lado menos conhecido de Highsmith, aquele pelo qual as inúmeras mulheres com quem se relacionou se viam inevitavelmente atraídas.

“Loving Highsmith” não está isento de algumas problemáticas narrativas, mas traz mais novidades do que aquelas que dá a conhecer, muito por culpa de escolhas de edição que o tornam confuso e obscurecem o seu verdadeiro contributo.

Foca-se sobretudo nas mulheres que privaram com a escritora e que ainda se encontravam vivas à altura do trabalho de investigação levado a cabo pela realizadora.

Eva Vitija baseia-se em grande parte nos testemunhos reais da escritora norte-americana Marijane Meaker, Monique Buffet, francesa, e Tabea Blumenschein, alemã.

Marijane Meaker Ensemble Film GmbH © 2022
Marijane Meaker ©Ensemble Film GmbH 2022

Mostra, assim, uma outra Highsmith ou, pelo menos, a visão daquelas mulheres em relação à escritora e é certo que não são testemunhos totalmente abonatórios, mas mostram uma pessoa muito para lá da mítica figura calculista, dura, solitária e difícil.

Esse período viria a tomar forma muito mais tarde na vida escritora, de facto, mas a realizadora nunca se foca prolongadamente nos temas menos positivos da sua vida, empenhada que está em deixar de lado essa outra faceta.

A intenção é a de reabilitar o génio de Highsmith, escritora dotada de uma imaginação invulgar e uma linguagem e voz determinantes no que diz respeito à escrita feita no feminino.

Eva Vitija apoia-se nos testemunhos daquelas mulheres e da família ainda viva, mas também nas imagens de alguns dos filmes feitos com base nos livros de Highsmith e um grande número de testemunhos diretos retirados da sua prolífica produção escrita em diários.

Opta, pois, por colocar Gwendoline Christie, a Brienne de Tarth de “A Guerra dos Tronos”, a narrar a voz da escritora na leitura dos diários, juntando-lhe a sua própria voz para conferir contexto adicional e a própria voz da escritora.

Apoia-se ainda em várias imagens das adaptações a filme, maioritariamente o “O Desconhecido do Norte-Expresso”, de Hitchcock, e “O Talentoso Mr. Ripley”, de Anthony Minghella, e em imagens de arquivo, como entrevistas ou fotografias.

"O Desconhecido do Norte-Expresso", de Alfred Hitchcock
“O Desconhecido do Norte-Expresso”, de Alfred Hitchcock

A intenção de Eva Vitija é percetível, mas apenas com algum esforço da parte do espetador alguns elementos podem ser entendidos, já a narrativa decorre sem grandes referências cronológicas, por isso falta muitas vezes um contexto para algumas perguntas básicas.

Há ainda, a espaços, algumas opções visuais que procuram dar um contexto interpretativo que não fazem, de todo, sentido na história que a realizadora quer contar, como as imagens dos rodeos que insistem em interromper o documentário sem terem nada para acrescentar ou dizer.

Esse elemento de inutilidade narrativa acontecerá noutros momentos e não é caso isolado e acaba por, infelizmente, retirar o enorme mérito que o documentário traz não só à vida de uma escritora que é um poço de talento, mas também ao entendimento do que significa verdadeiramente ser lésbica num contexto de grande conservadorismo.

Apesar de tudo, a realizadora não aprofunda grandemente o contexto social, limitada que se manteve a não ir procurar mais vozes do que aquelas que encontrou e que deveriam ser as suas bases e não o grosso de todo o seu trabalho investigativo.

Por isso, acontecerá várias vezes o espetador ficar com a sensação de que falta algo mais e que se, por exemplo, os testemunhos são suficientes para se ficar com uma visão parcializada da personalidade da escritora porque as pessoas nunca são só uma coisa, o mesmo não se pode dizer do contexto histórico.

As desatenções que o documentário apresenta retiram-lhe o enorme mérito de trazer novidades sobre uma escritora cuja personalidade muitas vezes obscurece a genialidade da sua escrita.

Talvez essa seja a condição de se ser mulher, sobretudo nas décadas da juventude da autora, passadas numa Nova Iorque mais aberta à homossexualidade, mas, mesmo assim, não esquecendo que esta era ilegal nos anos 50 e 60.

“Loving Highsmith” desperdiça os seus trunfos muito por não saber que direção dar ao seu material não trabalhado, uma falha de narrativa e de linguagem própria que retira injustamente o mérito do seu importante conteúdo.

Patricia Highsmith é, ainda hoje, apesar da sua enorme fama, que passa despercebida no documentário, um nome tão adorado quanto incompreendido, muito por culta da própria escritora, mas também porque para as mulheres ser difícil é sinónimo de ser proscrita.

“Loving Highsmith” é importante ainda por mostrar a conflitualidade de Highsmith com a sua própria homossexualidade, cativa que se encontrava das expetativas sociais e, acima de tudo, da sua castradora e vingativa mãe.

Patricia Highsmith com Monique Buffet©Ensemble Film GmbH 2022
Patricia Highsmith com Monique Buffet ©Ensemble Film GmbH 2022

Esse relacionamento e as suas tentativas de apagar a sua homossexualidade, um pecado e uma doença durante muitas décadas, são inclusive fulcrais para se compreender os seus personagens masculinos obcecados com outras figuras masculinas.

O esforço empregue na procura de material de base para a construção do documentário cai parcialmente por terra por meras opções narrativas, deixando para trás um trabalho muito mais importante do que as aparências deixam entrever.

No final, muitos serão os espetadores aperceber-se-ão de quantidade de material inédito e de que vislumbraram uma Patricia Highsmith muito diferente daquela que conheciam antes e que habita o imaginário de muitos como alguém que Eva Vitija optou por obliterar para que mais gente possa amar Highsmith.

Patricia Highsmith, "Loving Highsmith"
“Loving Highsmith”, de Eva Vitija: Para que mais gente possa amar Patricia Highsmith
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