Eu representava um milagre para a minha mãe. Depois de dois abortos espontâneos, já nada a fazia crer que ia ter um filho. Foi apenas quando desistiu da ideia de maternidade que conseguiu engravidar. Claro que isto não tem nada de intervenção divina, no entanto, é curiosa a vontade ou, no caso da minha mãe, a necessidade extrema de ter um filho seu e ter sido esse desejo tão intenso a razão dos abortos. Isto porque não era apenas mãe que ela queria ser, já que, se assim fosse, a adoção teria sido uma solução bem mais fácil, particularmente no seu caso, já que era uma pessoa extremamente nervosa; o que queria, como tantas outras mulheres, era esse ser que se forma e cresce dentro do ventre. Toda esta jornada desgostosa da minha mãe para ter uma gravidez saudável e a alegria que esse “milagre” lhe trouxe levou-me sempre a desconfiar de quem escolhia não ter filhos. Pensava que era a nobreza desse sacrifício de liberdade pessoal para cuidar, educar e amar outro ser que justificava, em grande parte, a nossa existência.

Entretanto, à medida que crescia e me apercebia que eu padecia dos mesmos problemas fisiológicos e psicológicos que a minha mãe, comecei a pensar que talvez fosse melhor não ter filhos. Uma outra razão pertinente prende-se com questões de foro ecológico e, em conjunto, essas decisões selaram a minha decisão.

No entanto, pertencendo ao sexo masculino, é socialmente aceite que a mulher tem a última palavra nesta questão, apesar de isto não querer dizer que os homens tenham menos vontade de ter filhos. Daí que “Lunàdigas – ovvero delle Donne senza Figli”, de Nicoletta Nesler e Marilisa Piga, um documentário sobre mulheres que escolheram não ter filhos, exibido no passado dia 20 no Queer Lisboa 22 e que acabaria por vencer ontem o Prémio do Público da Competição para Melhor Documentário, cuja distinção espelha a relevância social e política do mesmo, tenha sido um excelente filme para quem se interessa por esta questão: vemos mulheres que se recusam a ver a sua liberdade comprometida pelo peso sufocante de ter um filho, mulheres que escolheram não ter filhos por razões ecológicas (e com razão, como se pode conferir aqui), mulheres que simplesmente não nutrem qualquer tipo de instinto maternal, mulheres que preferem gatos a crianças (perfeitamente aceitável e até simpatizo com esse sentimento) e mulheres que nunca sequer ponderaram ter filhos, sem sentirem necessidade de ter uma razão para isso.

O documentário não é, porém, um monumento antimaternidade. Há testemunhos de mulheres que nunca abdicariam de ter filhos, outras que gostariam de ter, mas que, como no caso de uma mulher com paralisia, não podiam ter por motivos fisiológicos.  Acima de tudo, é um documentário justo e multilateral na abordagem à sua temática e que pretende lançar o debate em torno desta última.

Foi pena, contudo, a ausência de testemunhos masculinos, não porque não existissem, já que segundo Nicoletta Nesler, que marcou presença na sessão para apresentar o filme, foram recolhidas mais de 800 horas de material que tiveram de ser condensadas em 78 minutos de filme. Como a própria realizadora afirmou e bem: “A montagem é um processo de seleção”. O próximo passo da dupla de realizadoras é, portanto, disponibilizar todos os testemunhos em formato digital, numa plataforma online.

Esta ausência da opinião masculina, no entanto, não deixa de ser importante, já que, muitas vezes, numa relação, a vontade do homem de ter filhos pode levar a mulher a ceder, como ainda acontece com alguma frequência, o que levanta um outro problema interessante que poderia enriquecer o documentário: o ponto de vista de uma mulher que rejeita a maternidade, mas que se vê forçada a ser mãe, quer seja por influência masculina ou, como também acontece, por vontade da família de um dos membros do casal, ou ambos, de forçar o casal a ter filhos.

Esta dedicação ao projeto é, porém, de louvar, e apesar da ausência de uma ou outra abordagem, não será por isso que estamos perante um documentário menor. Para espectadores mais exigentes, no entanto, poderá ser, em termos formais, bastante modesto, já que é o que se pode apelidar de um documentário do real puro e duro, onde o conteúdo ou o exercício de documentar um determinado tema supera a forma, sem tentativa de ficcionalização ou imposição de um enredo, como acontece frequentemente.