«Madres Paralelas»: escavar memórias, feridas abertas e o feminismo

Não são somente as vidas de duas mães que se encontram em paralelo neste filme de Pedro Almodóvar, são também duas facetas da história que aqui é contada: por um lado, a dimensão pessoal das histórias de vida de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit), por outro lado, o sentido abstracto da História da Espanha que carece de enfrentar as suas feridas franquistas. Da mesma forma que as vidas paralelas das duas mães irão para sempre unir-se aquando do encontro na maternidade, também o modo pessoal de vivermos está profundamente intrincado nas raízes historicistas do nosso antepassado.

Assim sendo, para que Almodóvar afirme a necessidade da possibilidade da maternidade e da sexualidade não mais serem fruto da normatividade heterossexual e de estruturas familiares hierarquizadas, ele desenterrará as feridas abertas num (auto)exame das raízes históricas que fizeram crescer as forças patriarcais, conservadoras e misóginas. Por conseguinte, “Madres Paralelas” constitui-se como um melodrama que nos prende do início ao fim, pois que o filme é um cativante contar de história acerca das vidas cruzadas de duas mulheres mães, ainda assim, a camada mais profunda é, porventura, a afirmação mais essencial e humanista que o cineasta nos deixa, a saber, a pertinência da preservação da memória.

Conhecer a vida de Janis e de Ana é conhecer as vidas das suas mães e as das mães destas mães, e assim por diante, num esforço genealógico que nos conduza até aos milhares de famílias destruídas pela ditadura franquista. Almodóvar compreende que a realidade de hoje se tece a partir das memórias, e para todos aqueles cujos familiares desapareceram numa tentativa de silenciamento por parte do regime, as dores mantem-se ruidosas até hoje por não terem podido enterrar os seus entes queridos.

Portanto, duas coisas estão por fazer e Almodóvar vem pôr o dedo na ferida, estão por curar as feridas abertas deixadas pela ditadura espanhola, e paralelamente e absolutamente intrincado, está por fazer o feminismo.

As mulheres neste filme espelham que o feminino ainda está por fazer, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón) divide-se entre a filha e a carreira de actriz, Janis é mãe apesar do pai biológico da sua filha se descartar da paternidade, Ana engravida fruto de uma violação em grupo e desconhece quem é o pai da sua filha. Ainda está por fazer mas o caminho é o de olhar para trás, pelo que, quando todos se unem no esforço arqueológico de devolver um funeral às famílias residentes na aldeia onde Janis nasceu, compreende-se que o feminino em Almodóvar é humano, quero dizer, “todos devemos ser feministas”. Pode parecer um contrassenso que Janis vista (literalmente) a afirmação “todos devemos ser feministas”, ao mesmo tempo que ensina Ana as tarefas domésticas (e neste detalhe parece confirmar-se o interesse de Almodóvar pela temática para o seu próximo filme), contudo, e ainda nas palavras de Chimamanda Ngozi Adichie: o problema da questão de género é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos, seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do género. Podemos todos vestir esta camisola, porquanto hoje (dia 25 de Novembro) assinala-se o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de género,  [tal] seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos, seria negar que a questão de género tem como alvo as mulheres, que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino (idem).

É curioso como os realizadores aproximam-se do profundo à medida que as temáticas dos seus filmes se tornam mais pessoais e abstractas ao mesmo tempo. Podem parecer leves as histórias que Clint Eastwood nos conta, e se pensarmos no mais recente diálogo com o galo Macho (em “Cry Macho“), é inegável que o cineasta americano toma mais tempo, a ponto de tirar uma sesta enquanto foge do tráfico humano no México, e ainda assim as suas certezas morais parecem ainda mais assertivas. Tanto Eastwood quanto Almodóvar aprimoraram as histórias que contam, pois que elas são pessoais. Eastwood desfaz-se de símbolos potencialmente chauvinistas em prol de permanecer numa história de amor e ser curador de animais, ao passo que Almodóvar não hesita em nos dar a conhecer duas mães solteiras, independentes, bissexuais e com uma forte consciência historicista. As histórias que são pessoais tornam-se nos filmes que nos oferecem as mensagens intemporais e abstractas do humano, isto é, aquilo que se quer que fique (na e) para a História.

Por cá a evocação da memória também tem sido o pano de fundo de alguns dos nossos filmes mais recentes. “O Casarão” (2021), de Filipe Araújo, dá-nos a conhecer o espaço do seminário dominicano da Aldeia Nova para que se possa topografar a memória de um ensino vanguardista no final do Estado Novo. “A Metamorfose dos Pássaros” (2020), de Catarina Vasconcelos, transforma as memórias de família numa reflexão poeticamente construída acerca do Portugal marcado pelas cicatrizes do ultramar. O documentário de Ricardo Clara Couto sobre “José-Augusto França – Liberdade Cor de Homem” (2021) não se restringe a uma biografia de um homem só, é um retrato pelos olhos do multifacetado historiador da Arte, da segunda metade do século XX. E “Maluda” (2020), de Jorge Paixão da Costa, pinta a biografia da artista portuguesa que, diferentemente destas Mães em Almodóvar, deixa de fora a possibilidade de levar adiante uma relação lésbica.

Em “Madres Paralelas”, o elogio ao feminismo e à crescente conquista dos direitos de mulheres (o que desde já daria um argumento precioso) serve de mote para um ultimato maior à humanidade. O ultimato é: se não abrirmos as feridas, limparmos por dentro e deixarmos a história cicatrizar, num exercício arqueológico de restituição da justiça, seremos nós os próximos a voltar a morrer sem direito a uma morte digna.

É a cena final que capta toda a nossa atenção, por conseguinte, o (um outro) filme podia começar precisamente onde este filme acaba. 

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