“Mais Uma Rodada” – O Mal Contemporâneo

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No seu filme “Mais Uma Rodada”, Thomas Vinterberg reflete sobre um (o) mal contemporâneo: a apatia da prosperidade. Centrando-se em quatro personagens, tão negramente cómicas quanto negramente deprimidas e disfuncionais, Vinterberg fala sobre como se pode ter como clara a falta de algo quando já se tem – sócio-materialmente – o tudo. Mais a propósito não seria do que ter como setting um país da Europa Nórdica, espaço da prosperidade permanente, do avanço e da segurança civil, da qualidade de vida e da economia social (capitalista) de mercado.

Que razões poderiam ter quatro professores de liceu, com emprego garantido e vida assente, para estarem deprimidos? Aparentemente, nenhuma. Efetivamente, e paradoxalmente, todas (e qualquer uma). Pois as sociedades contemporâneas são as da insatisfação, as do pretérito do alcançado e as do vazio do (permanente) desejo. São as de quem tem tudo e se sente como não tendo nada. Os quatro docentes são tipos-modelo dessa forma de insatisfação existencial que os (des)funciona enquanto uma inscrição desinscrita no mundo: o ato de locomoção até à Escola, a entrada no edifício, a arrastar até à sala de aula, o sentar pesado, o olhar desinspirado para os alunos e o balbuciar desgarrado e desorganizado da matéria disciplinar a partir do manual, mostram a forma maquínica e inorgânica de um repetir de uma função esvaziada, a de um ensino que mais não é do que uma ação oca, a da obrigação de uma atividade profissional que já não completa aquele que a exerce, apesar de poder ter sido – um dia – uma vocação, mas que é agora somente o meio de obtenção financeira do conforto desconfortado da sua própria prosperidade. A desatenção dos alunos é o efeito das suas próprias posturas decaídas e abatidas.

No modo como Martin (Mads Mikkelsen) não parece sequer saber que parte do currículo está a ensinar e serem os alunos a terem que o situar, exemplifica e clarifica um sentido de deslocamento perante a lucidez que deveria presidir ao ato profissional de ser um professor de História, mas mais do que isso, mostra o estado de depressão que faz dele – bem como aos outros três colegas – um zombie social, absorto e mecânico, esquecido e esquecendo-se, controlado, mas em efervescência a um dia explodir, um corpo-vazio desejante, um cidadão civilmente conseguido, mas pessoalmente não completado.

Thomas Vinterberg assim o mostra, no modo como filma a cena do jantar de aniversário de Nikolaj (Magnus Millang), na medida em que se vai concentrando nas faces cansadas (apesar do ano letivo estar ainda longe do fim) dos quatro professores. Mas a câmara aproxima-se ainda mais da cara angulosa e verdadeiramente exausta de Martin, enquadrando-o na discursividade da sua lamentação: a de como se sente desprovido e esvaziado, de como poderia ter seguido uma carreira de investigação, mas não o fez por já ter família para sustentar (diga-se, um sustento bem conseguido, capaz disso e de ainda lhes providenciar uma vida bem confortável) e que assim se vê num estado permanente de monotonia vácua.

Sendo ele quem mais vocaliza a maleita, os outros três também assim se sentem, a maior ou menor grau, e o jantar torna-se o afogamento, pelo álcool, da apatia de quem vive no aconchego da riqueza material, mas que nela não encontra a real confortabilidade do viver. Tão mais irónica é essa apatia da prosperidade, quanto mais ela lhes permite o pagar de vinhos e álcoois duros caros. Numa mais alta auto-ironia, decidem levar a cabo uma experiência, a partir das teorias de um reputado psiquiatra: a de manterem sempre um grau de alcoolemia no sangue de 0.05, de modo a terem uma disposição mais alegre e expansiva. E fazem-no enquanto a intelligentsia que são: definindo-a com os parâmetros de uma real experiência científica.

O que conseguem: Martin ensina História de uma forma singular e prazerosa (tomando como exemplos de liderança histórica, os ditos alcoólicos que venceram guerras enquanto estando sob uma permanente e segura embriaguez, tais como Churchill e Roosevelt); Tommy (Thomas Bo Larsen) leva à vitória a sua equipa de muito jovens futebolistas; Peter (Lars Ranthe) faz com que os seus alunos de Música cantem em uníssono e ajuda ainda um aluno de Filosofia a passar no seu exame oral (dando-lhe álcool disfarçado numa garrafa de água); Nikolaj interessa os seus alunos no intrincado e complexo programa de Psicologia.

A negra comicidade: a premissa científica e o seu programa de experimentações parecem funcionar. Essa é a ironia maior de Vinterberg: os quatro conseguem melhorar as suas vidas porque têm dinheiro para comprarem quantidades copiosas de álcool, têm a inteligência e o método para esconderem – ainda que não o consigam realmente, pois as suas família vão notando, pela estranheza primeiro e pela continuidade do estado alterado, em direção da uma disposição positiva – o estado de embriaguez quasi-permanente (só bebem até às 20:00), estão protegidos pela sua boa reputação de serem professores liceais. A experiência toma assim o tom de uma brincadeira de quem tem todas as facilidades sócio-financeiras para poder ser um alcoólico em formação, só para gáudio de si mesmo e autoindulgência dos mais enriquecidos. A partir das oito da noite, os efeitos do álcool começam a desvanecer e a depressão acresce novamente.

A última etapa: a embriaguez total e o beberem até perderem os sentidos. A câmara de Vinterberg, desde o início enérgica e movimentada – até em contraponto com os seus protagonistas – acompanha-os, livremente e vivamente. No fim da noite, o corpo caído de Martin fica sem entrar em casa, pois já não o conseguiu fazer. Mais ainda, Tommy acaba por ultrapassar os parâmetros definidos e torna-se um alcoólico. Torna-se claro que a brincadeira tem que terminar. Para ele, a experiência toma precedência e faz- se fim: morre afogado, ao cair do seu barco, bêbado.

Ironia outra: o dia do funeral de Tommy é o mesmo em que os alunos do seu liceu se formam, tendo passado os exames para os quais os seus professores embriagados os prepararam. No almoço – outra refeição, outro espaço de ritual – de celebração da memória do seu colega partido, os três voltam a beber e embriagam-se – rito final do afogamento líquido, afinal tão e sempre contemporâneo – e juntam-se aos seus alunos que também assim o estão. Martin dança, o seu corpo lança-se no ar e o filme assim acaba, com a paragem e a suspensão. Suspensa a apatia? Suspensa a depressão? Ou suspensa a possibilidade de felicidade? Após o salto parado, voltará o abatimento? Entre essas tonalidade dúbias de um filme tão despojadamente cómico quanto verdadeiramente negro, a câmara de Vinterberg – ainda tão cheia de Dogma 95 – dança também em cima das sete décadas de aumento e acumulação de riqueza, do dinheiro que se pode gastar indulgentemente, do tudo que se pode comprar nas sociedades desenvolvidas contemporâneas, para no fim, mais nada se obter do que a tristeza que não se consegue ou se pode afastar. Pois é isso que este filme é: um filme sobre a triste apatia da prosperidade, esse grande mal do contemporâneo.

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