Durante o Festival Internacional de Cinema de Marraquexe, Martin Scorsese explicou porque recorreu à Netflix para financiar “The Irishman”, o seu muito aguardado filme de gangsters que reúne Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci após uma espera de mais de 20 anos.

Em relação à sua colaboração com a gigante do streaming, o realizador disse que “há pessoas na Netflix a arriscar produzir um filme que é um projeto arriscado e que ninguém quis tocar durante bastante tempo. E é claro que a idade começa a não ajudar.”

Recorde-se que, em 2017, a Paramount Pictures, que detinha os direitos do filme, desistiu da produção milionária de “The Irishman”, a qual estaria a cargo da produtora mexicana Fábrica de Cine.

Em última análise, porém, as principais razões para o cancelamento do projeto foi o receio da Paramount de o filme, devido ao seu género, poder vir a ter um público limitado, com a agravante do seu exorbitante custo de produção. A Netflix acabou por adquiriu os direitos do filme por 105 milhões de dólares.

O cineasta revelou ainda alguma preocupação quanto ao estado atual da distribuição cinematográfica, afirmando que “hoje em dia toda a gente pode fazer um filme, mas nem todos o podem ver. O cinema dos últimos 100 anos desapareceu e a sua forma também. Não faço ideia de como os filmes vão ser no futuro em termos de narrativa visual porque não se sabe que avanços vão existir.”

Scorsese defende veemente a preservação da película e interrogou-se também quanto ao futuro da mesma: “Depois de um século de cinema, a única coisa que garantidamente pode preservar a película é o nitrato. Com a tecnologia atual, não sabemos se podemos acabar por perder tudo.”

Até “A Invenção de Hugo”, o realizador recusou-se a filmar em digital, tendo acabado por se render a esta aquando de “O Lobo de Wall Street”.

O cineasta admitiu ainda que esta mudança pode não ser assim tão negativa. “Quando se passou do nitrato para o acetato nos anos 50, não senti nenhuma alteração de qualidade. E será que a geração mais nova consegue diferenciar entre 35mm e DCP? Talvez não? E será isso mau? Não tenho assim tanta certeza.”

Devido à idade dos seus protagonistas, e lembramos que Robert De Niro tem já 75 anos de idade e Al Pacino 78, o realizador não concedeu muito espaço de manobra à improvisação (“Taxi Driver” e “Um Dia de Cão” beneficiaram muito com o improviso de De Niro e Pacino).

“‘The Irishman’ tem alguma improvisação, mas muito estruturada. Uma vez experimentei recorrer à improvisação num filme e foi um desastre. À medida que envelhecemos, temos de fazer bom uso da nossa energia. Já estamos todos na casa dos 70 e é difícil dizer para trabalharmos mais uma hora ou duas para esse fim. Por essa razão, tinha de deixar os atores trabalhar ao seu ritmo.”

“The Irishman” está previsto estrear na Netflix em 2019.