Megalomaníaco, exibicionista e fabuloso: “La Cocina” rouba as atenções na Berlinale

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Um dos grandes filmes da competição estreia em Berlim com muito barulho. É o quarto filme do realizador mexicano Alonso Ruizpalacios que dá um salto na forma e faz um filme grandioso, pujante, com sequências de tirar o folego e que fechou o primeiro fim de semana da Berlinale como o filme mais interesante do concurso até o momento.

No terceiro dia de competição, Berlim foi palco de um filme que gerou grande repercussão e debate: “La Cocina”, a quarta obra do cineasta mexicano Alonso Ruizpalacios, que já é uma presença habitual em Berlim. Seu primeiro filme, “Güeros”, foi exibido na seção Panorama em 2014, enquanto que o terceiro, “Una película de Policías”, esteve aqui em competição em 2021, naquela que foi a primeira edição virtual do festival. 

“La Cocina” é uma obra épica e ambiciosa, e trouxe de volta à Berlim a efervescência típica de festival, a do filme que divide os críticos e causa todo tipo de debate. Num festival onde temas políticos como a guerra de Israel contra o Hamas ou a (não) presença dos políticos do AfD no festival desviaram as atenções dos filmes, o mexicano parecia ser o filme que faltava para dar uma chacoalhada no primeiro fim de semana da Berlinale.

E “La Cocina” não deixou espaço para meio termo: enquanto alguns celebraram o seu virtuosismo ambicioso e a sua habilidade em discutir temas profundos de classe e racismo em meio a um espetáculo visual atordoante, outros encararam toda essa ambição com ceticismo e rejeição. Nos posicionamos ao lado dos primeiros, completamente fascinados por esta obra fabulosa, que comprova a capacidade de Ruizpalacios de orquestrar um balé sincronizado de personagens e evoluir a trama, abordando temas complexos enquanto que vai constantemente mudando o tom, a forma e os fios narrativos do filme, sem jamais perder sua carga emocional. Ruizpalacios eleva sua abordagem de narrativas não convencionais, já evidente em “Una Película de Policías”, alcançando novas alturas de virtuosismo que, embora quase exibicionista, mantém uma narrativa sempre coesa.

Ambientado em um restaurante voltado para turistas em plena Times Square, em Nova York, Ruizpalacios cria uma complexa rede de narrativas dentro da vibrante e caótica realidade de uma cozinha que funciona a mil por hora, onde um emaranhado de histórias pessoais e coletivas se entrelaçam e colidem com intensidade e violência. O filme começa com a jovem mexicana Estela (Anna Diaz), sem documentos e sem dominar o inglês, na porta dos fundos do restaurante “The Grill” à procura de emprego. Recomendada a procurar por Pedro (Raúl Briones Carmona), um dos chefs dessa caótica cozinha, e que como Estela, também imigrou ilegalmente aos EUA em busca do sonho americano, ela é acolhida pelo gerente do estabelecimento que a contrata baseando-se apenas em sua aparência. Trabalhando no The Grill há anos, Pedro sonha, assim como seus outros colegas, com a ajuda do patrão para regularizar sua situação imigratória.

Enquanto a equipe da cozinha enfrenta a enxurrada de pedidos, com o barulhinho da máquina registradora a fazer de banda sonora ao fundo, o proprietário e os gerentes do restaurante investigam o desaparecimento de 800 euros do caixa na noite anterior. Os principais suspeitos envolvem a empregada de mesa americana Julia (Rooney Mara) e Pedro, com quem mantém um complicado romance marcado por uma gravidez indesejada e que os coloca em um dilema moral.

Muitos filmes recentes ambientados em cozinha como “O Menu” e “The Boiling Point” ou a série“The Bear” foram comparados ao filme de Ruizpalacios. Embora compartilhem temáticas que expões o ambiente tenso e por vezes tóxico das cozinhas, onde conflitos raciais e de classe emergem, essas comparações se limitam à superfície. Ruizpalacios, ao optar pela filmagem em um estonteante preto e branco e pela exploração das dinâmicas de classe e hierarquias em uma cozinha nova-iorquina, visou deliberadamente escapar da armadilha do “food porn”, com seus pratos coloridos e visualmente perfeitos. A escolha do preto e branco não só evita essa armadilha mas também situa o filme em um contexto atemporal, permitindo que ele transcenda as especificidades culturais e políticas de qualquer era, abordando temas de ressonância universal.

Um mexicano “vendido” ao sistema

O aspecto do salto ambicioso de Ruizpalacios, por ambientar o seu filme em Nova Iorque e ser quase todo falado em inglês, tem gerado a velha crítica de que o realizador se “vendeu ao sistema”. O realizador agora transita pelas águas turbulentas enfrentadas no passado por cineastas mexicanos que se aventuram além das fronteiras linguísticas e culturais de seu país natal e que hoje fazem parte do “A-list” hollywoodiano, como Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Alejandro González Iñárritu. Contudo, Ruizpalacios ao invés de diluir sua voz autoral, parece reafirmá-la dentro de um contexto mais amplo. Aqui, os falantes de inglês emergem como símbolos da opressão, em contraste com os mexicanos e os “outros” que encarnam a resistência através do ato de sonhar acordados.

Essa escolha não só destaca a divisão linguística e cultural entre o “senhor” e os marginalizados, mas também aprofunda as implicações sociopolíticas desse cenário, transformando a cozinha em um microcosmo rico para a exploração de temas complexos como identidade, pertencimento e a incessante busca por sonhos impossíveis em meio a obstáculos sistêmicos.

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