(Sem spoilers)

O realizador norte-americano Ari Aster é actualmente uma das grandes vozes do cinema de terror. É também, curiosamente, uma das mais recentes. Aster deu provas do seu talento com a sua primeira longa-metragem, “Hereditário” (2018) – um dos melhores filmes do ano. “Hereditário” deu-nos a melhor interpretação do ano, uma que ficará para a história do cinema: Toni Collette é extraordinária no papel de uma mulher receosa que a insanidade da sua mãe esteja também presente em si. Um filme quase perfeito, desde o excelente elenco secundário (Milly Shapiro e Ann Dowd), à banda sonora original de Colin Stetson. Desde a cinematografia de Pawel Pogorzelski, ao trabalho fenomenal dos editores Lucian Johnston e Jennifer Lame, conhecida pelas suas colaborações com o cineasta Noah Baumbach.

Não é de admirar que as expectativas para a segunda longa de Ari Aster fossem altas. Desta feita, Aster abandonou o horror psicológico de “Hereditário”, em favor de um filme que é tanto um drama familiar, como uma história de amor. “Midsommar acompanha uma relação em declínio: ela é Dani, interpretada pela inglesa Florence Pugh (“Lady Macbeth”, 2016); ele é Christian, interpretado por Jack Reynor (“Sing Street”, 2016). A sua relação é testada ao máximo quando Pelle, amigo de Christian, os convida a visitarem a sua terra natal de Hälsingland, na Suécia. A ocasião é duplamente especial: não só se trata do solstício de verão, muito celebrado no Norte da Europa, como é o ano de um raro festival que a aldeia de Pelle realiza apenas a cada 90 anos.

Tal como “Hereditário”, “Midsommar” é um filme sensorial. O primeiro recorria a sons para assombrar a audiência, o segundo assenta na imagética. O filme é pintado com motivos florais, começando logo nas primeiras cenas: notem o padrão floral nas paredes da casa dos pais de Dani e a variedade de plantas no apartamento da protagonista. Quando a acção se desloca para a Suécia, somos presenteados com os campos em flor, os bordados elaborados dos trajes dos aldeões (em constante contraste com o look casual de Dani e restantes visitantes), e as coroas de flores que florescem a um ritmo alucinante.

Para este banquete visual também muito contribuíram o detalhe do guarda-roupa, os penteados imaculados, e a arquitectura dos edifícios. Aster revelou que as construções presentes na aldeia as casas, o portal de entrada, o celeiro, o templo foram todas criadas do zero, sob a orientação do designer de produção Henrik Svensson.  Tanto trabalho e tão bons resultados são ainda mais impressionantes dado o restringido orçamento que Aster teve à sua disposição.

Talvez o aspecto mais interessante de “Midsommar” é a forma como a maior parte do terror se desenrola durante cenas solarengas. O filme é essencialmente um pesadelo cheio de sol e flores – facilmente se vê o contra-senso. Contudo, Aster consegue que este absurdo funcione e bem. O cineasta cria uma dicotomia luz-escuridão: recorre à intensa claridade e à tranquila paisagem circundante, para gerar um clima desconcertante e sombrio. A aldeia é simultaneamente espaçosa e claustrofóbica.

Infelizmente, nem tudo é um mar de rosas em “Midsommar”. O filme apresenta duas grandes falhas, muito ligadas entre si: a duração e a trama.

Comecemos pela duração. A primeira versão do filme demorava 2 horas e 51 minutos. Dado que uma duração longa é mais dificilmente comercializável, a distribuidora do filme, a A24, pediu ao realizador que encurtasse a metragem para 2 horas e 27 minutos. Lamentamos que Aster não a tenha reduzido ainda mais. Não só a chegada das personagens à Suécia demora algum tempo, como as duas horas de festividades que se seguem demoram a culminar. O filme torna-se aborrecido e aparenta que caminhamos para um clímax que nunca mais chega – e quando chega, é algo previsível.

O que nos leva à segunda falha: a trama. “Midsommar” vai eficazmente acumulando tensão logo desde as primeiras cenas (há uma fantástica sequência inicial com bombeiros). O filme atinge o auge na cena de Ättestupa (explicar o significado da palavra seria um spoiler) e, deste ponto em diante, o argumento descarrila. Primeiro, predominam os lugares-comuns dos filmes de terror (como haver uma casa em que os protagonistas estão proibidos de entrar, ou o desaparecimento um a um dos personagens). Segundo, carece de subtileza: Aster quer ter a certeza que a audiência consegue acompanhar o filme, então inunda todas as cenas de pistas e prenúncios que não escapam a ninguém. Por último, há uma explicação exaustiva dada a Dani nos momentos finais do filme, que ironicamente é algo confusa e trapalhona.

“Midsommar” venceu o Prémio do Público na mais recente edição do MOTELx Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Compreende-se a vitória: é um filme cativante que envolve a audiência desde o início. Muito desse efeito se deve à interpretação tremenda de Florence Pugh, que é por enquanto a melhor prestação feminina do ano (empatada com Lupita Nyong’o em “Nós, de Jordan Peele). É Pugh que mantém o filme interessante quando a duração se prolonga e o argumento fraqueja.

Tudo considerado, “Midsommar” é o tipo de cinema que adoramos adorar e que merece ser apoiado pela sua originalidade, engenho, e marcada visão. Pode não resultar na íntegra, mas é uma obra admirável. Mal podemos esperar pelo próximo filme de Ari Aster.

«Midsommar - O Ritual» - Novo filme de Ari Aster é um deleite visual e sensorial que vacila na recta final
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