Morreu José Mário Branco (1942-2019), cantor, compositor e produtor, uma das personalidades que mais marcaram a música portuguesa desde a década de 1960 e uma das referências da música de intervenção.

O músico, que morreu esta terça-feira aos 77 anos, nasceu em maio de 1942 no Porto e gravou o seu primeiro EP “Cantigas de Amigo” em 1967, a convite de Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça. Durante o Estado Novo aderiu ao Partido Comunista Português e foi perseguido pela PIDE, até se exilar em França, em 1963. Exilado em França participou ativamente no Maio de 68. Regressa a Portugal em 1974, logo após a revolução do 25 de abril, tendo estendido as suas atividades ao teatro, onde integrou o grupo A Comuna e foi um dos fundadores do GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta.

Da sua discografia são incontornáveis músicas como “FMI”, “Inquietação”, “Eu Vi este Povo a Lutar”, “Ser Solidário”, “Qual é a Tua, Ó Meu”, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, “As Canseiras Desta Vida”, “De Pé”, “A Cantiga É Uma Arma”.

José Mário Branco colaborou com grandes nomes da música portuguesa como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Camané, Carlos do Carmo, Luís Represas, entre outros.

No cinema participou como ator em filmes como “Ninguém Duas Vezes” (1984), de Jorge Silva Melo, “Agosto” (1988), de Jorge Silva Melo, “O Som da Terra a Tremer” (1990), de Rita Azevedo Gomes, e na série televisiva Aqui D’El Rei!” (1992), de António-Pedro Vasconcelos.

Como compositor compôs bandas sonoras para filmes como “Agosto” (1988), em que José foi responsável pela música original do filme, tendo também participado como músico numa das cenas; “A raiz do coração” (2000), de Paulo Rocha; “Outro País” (2000), de Sérgio Tréfaut; “A Portuguesa” (2018), de Rita Azevedo Gomes.

José Mário Branco surge ainda em alguns filmes marcantes do PREC, como o documentário “Bom Povo Português”, do cineasta Rui Simões, que ilustra a situação social e política de Portugal entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975. Num registo poético somos guiados por uma voz que nos narra em off, de José Mário Branco, um texto de Teresa Sá.

Em 2014, no IndieLisboa, estreou o documentário “Mudar de Vida. José Mário Branco, Vida e Obra”, realizado por Nelson Guerreiro e Pedro Fidalgo, um retrato sobre a vida e obra do músico José Mario Branco.

“Desde o Estado Novo a sua voz e obra resistem. Amado por uns, temido por outros, as suas canções escritas há mais de 40 anos mantêem-se  atuais. Ouça-se o protesto levado ao extremo no tema F.M.I., escrito em 79, canção maldita para os portugueses (proibida de ser emitida nas rádios por ordem expressa do autor). Seguindo os passos de  Zeca Afonso, faz do movimento de protesto um dos marcos mais importantes na arte e cultura do século XX, quer pela sua acção quer pelo seu efeito.”

“Músico, compositor, poeta, actor, activista, cronista, produtor musical, José Mário Branco é o homem dos 7 ofícios. Como a “Cantiga é uma Arma”, as suas canções são um instrumento transformador da realidade, voz de resistência e protesto. É preciso MUDAR DE VIDA!”

Um símbolo de resistência, de alma inquieta, que morreu com a desilusão por não ver a revolução de abril cumprida. A sua voz será eterna!

De pé meu canto não te rendas
Saúda o mestre das oferendas
Canta, canta, coração
Que o poeta só te dá o que lhe dão
De pé memória do futuro
Há sempre luz ao fim do escuro
Numa ilha só morre o que lá está
O que conta no que foi, é o que será