Morreu Michel Piccoli, lenda do cinema francês

Morreu no passado dia 12 de maio o ator francês Michel Piccoli, lenda do cinema francês, aos 94 anos, na sequência de um acidente vascular cerebral.

Michel Piccoli foi um ícone do cinema europeu, que trabalhou com os maiores realizadores do seu tempo, tais como Oliveira, Godard, Buñuel, Resnais, Hitchcock, Chabrol, Costa-Gavras, Varda, Demy, Lelouch, Carax e Melville.

Nascido em 1925, ator versátil, fez carreira no teatro, na televisão e participou em mais de 150 filmes. Estreou-se no cinema em 1945, em “Um Sino na Montanha”, de Christian-Jaque, e em 1955 trabalhou pela primeira vez com René Clair em “As Grandes Manobras” e em 1956 com Luis Buñuel, em “Labirinto Infernal”.

É na década de 1960 que a sua carreira começa a brilhar com interpretações marcantes em “O Denunciante” (1962), de Jean-Pierre Melville, “O Desprezo” (1963), obra-prima de Jean-Luc Godard, “A Bela de Dia” (1967) de Luis Buñuel, e “As Donzelas de Rochefort” (1967), de Jacques Demy.

Nas décadas seguintes seguiram-se outros grandes filmes, tais como “Dillinger Morreu” (1969), de Marco Ferreri, “Topázio” (1969), de Alfred Hitchcock, “As Coisas da Vida” (1970), de Claude Sautet, “A Via Láctea” (1969) e “O Charme Discreto da Burguesia” (1972), ambos de Luis Buñuel, “A Grande Farra” (1973), de Marco Ferreri, “A Rapariga do Vestido Azul” (1978), de Alan Bridges, “Atlantic City, U.S.A.” (1980), de Louis Malle, “Um Quarto na Cidade” (1982), de Jacques Demy, “Má Raça” (1986), de Leos Carax, eOs Malucos de Maio” (1990), de Louis Malle.

Estreou-se no cinema de Manoel de Oliveira em 1996 com “Party”, tendo-se criado uma grande amizade e cumplicidade entre os dois até ao falecimento do cineasta. Trabalharam juntos ainda em “Vou Para Casa” (2001), “Espelho Mágico” (2005), “Belle Toujours” (2006) e ainda num dos segmentos do filme “A Cada Um o Seu Cinema” (2007).

No século XXI destacam-se filmes como “Aquele Dia” (2003), de Raoul Ruiz, “A Poeira do Tempo” (2008), de Theodoros Angelopoulos e teve ainda uma pequena participação na produção portuguesa “Linhas de Wellington” (2012), de Valeria Sarmiento. Um dos seus últimos trabalhos, aos 86 anos de idade, e muito apreciado, foi emHabemus Papam – Temos Papa” (2011), de Nanni Moretti, onde interpretou um papa relutante.

Piccoli trabalhou ainda com o produtor português Paulo Branco, como ator e como realizador, nos filmes “E Então” (1997), “La Plage Noire” (2001) e “C’est Pas Tout à Fait la Vie Dont J’Avais Rêvé” (2005). “É com imensa tristeza que lamento a morte de Michel Piccoli, esse “monstro” do cinema, esse ator único. Acima de tudo, partiu um grande amigo. Uma pessoa com quem partilhei a amizade, algumas discussões, muitos risos e uma grande doçura, durante muito tempo. Vai fazer muita falta. Posso dizer que me orgulho de ter sido o produtor dos três filmes que fez como realizador e assim ter-lhe dado a possibilidade de mostrar também o seu génio como realizador de cinema”, comentou Paulo Branco.

Piccoli venceu o prémio de Melhor Ator no Festival de Berlim pelo filme “Une étrange affaire” (1981), de Pierre Granier-Deferre, e o de Melhor Ator no Festival de Cannes por “Salto no Vazio” (1980), de Marco Bellocchio.