«A Morte de Carlos Gardel» – Um melodrama bem português ao ritmo do tango

“A Morte de Carlos Gardel” é a primeira obra de António Lobo Antunes a ser adaptada ao cinema, realizada pela cineasta sueca Solveig Nordlund, que não realizava uma longa-metragem desde 2003 e produzido pelo Luís Galvão Teles. O filme, que representa as ilusões e espectativas de uma família, abriu a terceira edição do Douro Film Harvest (5 de setembro).

A história centra-se em Nuno (Carlos Malvarez), o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia (Rui Morrison e Celia Williams), que se encontra numa cama de hospital em coma devido a uma overdose. Durante dois dias, ele é visitado por várias pessoas da família que sofrem o pesadelo da sua morte iminente e, supostamente, evitável. Assim, confrontado por eles e através das suas memórias, vamos conhecendo o passado de Nuno e o presente de cada um, com as suas tristezas, culpas e desolações. É então que Álvaro, o pai, numa fuga ao sofrimento, transforma a sua paixão pelo tango – e pelo cantor argentino Carlos Gardel – numa obsessão sem limites.

Solveig Nordlund criou uma obra cruel e ternurenta. Esta história tem tudo para cair no cliché, no exagerado melodrama, como acontece nas telenovelas. Mas felizmente Solveig consegue evitar isso com constantes flasbacks que contam o passado das várias personagens. São pequenos fragmentos do passado que vão intercalando aleatoriamente com o presente, dividindo o filme em cinco partes, tal como no livro de António Lobo Antunes, sendo que cada uma tem o nome de um tango de Gardel. Esta é uma história bastante universal, pois retrata uma família que nos é bem conhecida, com personagens bastante diferentes que nos emocionam.

O filme desenrola-se em torno da personagem Nuno e ao mesmo tempo na personagem de Carlos Gardel, que no presente está morto e representa o tango. Estas duas personagens tem muito em comum, por exemplo, ambos tiveram uma trágica morte e são a principal causa da separação de Álvaro e de Cláudia (pais do Nuno). Nuno e Gardel representam o tango, que terminou com o casamento. Nas fantasias de Álvaro, Carlos Gardel nunca morreu, continuando a viver no imaginário dele. Chega ao ponto de achar que um taxista (Ruy de Carvalho) que canta as músicas de Carlos Gardel em palyback é o verdadeiro Gardel.

Quanto ao magnifico elenco composto por, Carlos Malvarez, Ruy de Carvalho, Rui Morrison, Teresa Gafeira, e Celia Williams, é de destacar o trabalho de Rui Morrison, numa interpretação digna a que estamos acostumados a ver; de Ruy de Carvalho, que deu um tom mais suave e divertido ao filme e dos jovens atores.

Solveig consegue assim uma boa realização, com bons movimentos de câmara, boa fotografia e uma excelente banda sonora.

Este é um filme calmo, natural, cruel e ternurento. “A Morte de Carlos Gardel” é como o Tango, ou seja, é um pensamento triste que se pode dançar. Este é uma das grandes qualidades do filme, ter conseguido passar o sentimento e a alma do Tango. Um belíssimo filme para se ver.

Realização: Solveig Nordlund

Argumento: Solveig Nordlund

Elenco: Carlos Malvarez, Ruy de Carvalho, Rui Morrison, Teresa Gafeira, Celia Williams

Portugal/2011 – Drama

Sinopse: A história de Nuno, um jovem toxicodependente em coma, a morrer num hospital. Durante os dois dias em que se encontra entre a vida e a morte, cada um dos familiares evoca junto a ele uma teia de recordações do passado, através das quais percebemos o presente de Nuno. Álvaro e Cláudia, os pais divorciados e as suas novas relações disfuncionais, Graça, a tia médica que nunca terá filhos porque vive com Cristiana, todos eles se sentem culpados pelo estado de Nuno, pelos desalentos da vida, mas também pelos sonhos que criaram. O pai, Álvaro, apaixonado por tango, recusa-se a aceitar a morte de Nuno, deixando-se levar numa espiral de delírio e confundindo um imitador com o seu cantor de tango argentino favorito, já desaparecido: Carlos Gardel.

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