“Quando era criança, achava que era especial. Tinha todas essas ideias sobre mim mesma. Mas cresci e entendi que era apenas humana. Um humano feio e estranho, com um cromossoma defeituoso” expõe Tina (Eva Melander) a determinada altura em Gräns”.

Para Tina não há nada de efémero na condição de ser diferente, excluída, e de se sentir só: tornou-se numa constante da sua vida. Tal condição não nasceu do acaso, mas sim das constantes rejeições e do desprezo alheio. Tudo isto por causa do seu físico corpulento, face grotesca, sobrancelhas proeminentes e dentadura animal: uma aparência à primeira vista bastante estranha, fantasiosa até.

Todos estes tratos trouxeram-lhe o dom de farejar sentimentos como o medo, a culpa, a vergonha e a raiva, coisas que escapam ao nariz dos comuns mortais. Vive na monotonia do seu emprego como oficial de alfândega, trabalhando entre fronteiras (no país e no seu âmago), e cheira” quem esconde intenções criminais que à partida, seriam indetetáveis, por entre as multidões que chegam à Suécia por mar. A interceção de um indivíduo que transporta um cartão de memória com pornografia infantil é um dos momentos-chave para esta mulher. A partir daí Tina é inserida num caso de investigação a uma rede de pedofilia, investigação essa que fica esquecida enquanto progride o enredo. A crueldade humana é exposta nesta storyline secundária, mas porque é que não é explorada?

O outro momentochave para Tina é o encontro de Vore, a quem ela não consegue “ler” o odor, tendo uma desconcertante semelhança física.

Com especificidades semelhantes que ultrapassam a morfologia física, e depois de múltiplos encontros, uma certa curiosidade começa a germinar no coração de Tina. Posteriormente, não é apenas a fisionomia de Vore que liga-o a Tina: é também uma cicatriz nas costas e as marcas provocadas pela queda de um raio unem estas duas criaturas.

O que alimenta esta aproximação não é tanto o amor ou o desejo, mas sim a insegurança de Tina e o seu medo de estar sozinha. A aproximação a este faz com que a protagonista comece a questionar o seu passado e o seu lugar na sociedade.

Infelizmente, as suas aparências exageradas – um excelente trabalho por parte da equipa de caracterização e maquilhagem – são bastante fantasiadas e sensacionalistas, tornando-se num obstáculo à ligação emocional do público a Tina e Vore. O elenco torna isso menos sofrível: Eva Melander traz um naturalismo e uma subtileza à personagem: ela consegue realçar as dúvidas que a perturbam, e exteriozar a solidão e curiosidade do seu olhar. Tina só tem que agradecer a Eva Melander por ser mais do que um monstro de latex. Eero Milonoff incute em Vore um tom misterioso e pragmático, e que, dentro de um coração ressentido, mostra um assassino delicado.

A fotografia de Nadim Carlsen, paletada de cores frias, é sóbria e funcional: engane-se quem achar que tons frios são sempre tristes – apesar do seu semblante sério, Tina tem uma vitalidade e um amor à vida raros na realidade em que estamos inseridos.O argumento é denso, mas tem lacunas: deambulamos pela fantasia, drama e investigação policial, e cercamos as fronteiras do realismo mágico, no entanto, perdemo-nos nas questões existenciais da identidade, do corpo, da sexualidade, e esquecemo-nos um pouco da dimensão real, inserida e palpável.

“Na Fronteira” é um olhar cruel à linha ténue que divide o bem e o mal e que explora o estigma omnipresente da alienação na sociedade. Uma ambiciosa aposta do realizador iraniano Ali Abbasi, que consegue pôr o seu nome no mapa.

Realização: Ali Abbasi
Argumento: Ali Abbasi John Ajvide Lindqvist Isabella Eklöf
Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson, Ann Petrén, Sten Ljunggren, Kjell Wilhelmsen, Rakel Wärmländer, Andreas Kundler, Matti Boustedt, Tomas Åhnstrand, Josefin Neldén, Henrik Johansson
Dinamarca/Suécia/2018 – Drama
Sinopse
Tina é uma guarda de fronteira que, através do seu “sexto sentido”, consegue cheirar o medo e a raiva e assim identificar criminosos. Quando sente uma atração peculiar por um estranho viajante (o seu único suspeito não legitimado), a relação força-a a confrontar revelações terríveis sobre si mesma e sobre a humanidade.

«Na Fronteira» – Uma bizarra fábula sueca moderna
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