Com argumento de Bob Nelson e realização de Alexander Payne (“The Descendants”, “About Schmidt”) “Nebraska” pinta em tons de cinzento uma viagem de mais de mil quilómetros feita entre pai e filho por entre as áridas e imponentes paisagens do Estado Norte Americano que dá nome ao filme.

Quando o velho e confuso Woody (Bruce Dern) recebe uma carta de uma fraudulenta campanha de publicidade a prometer-lhe um milhão de dólares, este decide reclamar o seu prémio, colocando-se diariamente em perigo ao caminhar por ruas movimentadas e auto-estradas e em confusões com os policias que o tentam resgatar das suas aventuras, para o desespero da sua esposa Kate (Julie Squibb). Numa tentativa esperançosa de fazer ver o seu pai que o prémio é uma farsa, David (Will Forte) encarrega-se a ele mesmo de o levar até ao seu ansiado prémio, com o intuito de fazer ver o pai de que tudo não passa de uma farsa. A partir daqui começa uma das mais interessantes e enternecidas narrativas deste ainda jovem ano cinematográfico.

O preto-e-branco usado por Payne e por Phedo Papamichael (director de fotografia de outros filmes como “3:10 para Tuma” e “Walk the Line”) é usado de uma forma de por vezes alcança o genial, mostrando toda uma gama de personagens coloridas que acabam quase com destinos trágicos graças ao universo cinzento em que vivem, universo esse que, nas cenas onde pai e filho viajam de carro é visto como um enorme e imponente espectáculo visual, desolador mas lindo de ver. Não é ao calhas que a cinematografia de “Nebraska” é uma das seis nomeações que este filme tem aos Óscares, o visual escolhido por Payne claramente dá continuidade emocional à sua narrativa e serve de contraponto para os momentos mais (planeadamente?) ridículos que de vez em quando aparecem no filme. Depois junta-se-lhe ainda uma pitada da banda sonora criada por Mark Orton e ganhamos não só um filme mas uma experiência cinematográfica.

E é importante mencionar também o trabalho dos actores e dos não-actores que participam no filme e ajudam a colorir ainda mais o cinzento no grande ecrã. Bruce Dern é  um veterano de Hollywood, o numero enorme de personagens dá-lhe um certo dinamismo que se vê neste seu Woody. A forma como Woody se vai deixando descobrir, mostrando-se por vezes como um pai alcoólico e estrito e outras como um homem bom que de tanto ver os outros a aproveitar-se dele se tornou numa personagem cínica e dura é algo que nos intriga a cada minuto que passa, sendo um excelente protagonista para este tipo de narrativa. Quanto a Will Forte no seu papel de David, o paciente filho que vive a típica vida de classe média como vendedor de loja de electrónica onde nada de interessante se passa no dia-a-dia, e que tenta desesperadamente agarrar uma ultima possibilidade de proximidade com o seu pai antes da sua iminente demência é algo surpreendente de ver num actor que geralmente participa em comédias. Provavelmente a maior surpresa do filme. Aproveito também para realçar a personagem interpretada por Julie Squibbs, Kate, que serve como uma espécie de alívio cómico ao filme embora por vezes as suas piadas acabem por roçar um bocado o exagero/caricatura quando a situação provavelmente beneficiaria mais com um humor mais subtil. Quanto ao resto do elenco, bem ao estilo do realizador temos um conjunto de caras interessantes. Personagens secundárias cujo interesse e história estão nas suas expressões faciais. Quer seja um franzir de testa ou um simples olhar em direcção á televisão, cada uma destas personagens torna-se interessante apenas por estar ali em frente à câmara sem fazer nada.

No final de contas “Nebraska” é isto, um filme pequeno que se faz grande graças à sua fotografia e elenco e que depois de uma visualização se percebe facilmente o porquê das nomeações e prémios que tem recebido. Filme a ter em conta para os Óscares.

Realização: Alexander Payne

Argumento: Bob Nelson

Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach

EUA/2013 – Drama

Sinopse: Depois de receber pelo correio uma carta de um sorteio, um homem bastante rabugento e mal-humorado pensa que ficou rico e arrasta o seu filho numa viagem para reclamar a sua fortuna. Filmado a preto e branco, ao longo de quatro estados norte americanos, Nebraska narra, com alguma dose de humor sarcástico, histórias da vida familiar em pleno coração da América.

«Nebraska» - Pequenas cidades, grandes aventuras
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