Nem só de filmes vive o maior festival do mundo, em Cannes 2022 as polémicas e protestos abundam

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Dia sim dia também, uma nova controvérsia envolvendo o festival aparece nos holofotes. Começou com acusações de censura contra o diretor do festival e acabou em protesto no tapete vermelho ontem a noite, enquanto George Miller e sua produção se preparava para a estreia de Three Thousand Years of Longing.

Como reportamos aqui na terça-feira, a série de controvérsias da 75ª edição de Cannes começou já na primeira conferência de imprensa do júri, no primeiro dia do festival, onde o realizador iraniano Asghar Farhadi teve de responder uma pergunta sobre o caso de plágio pelo qual foi acusado pelo seu filme “Um Herói”, grande prémio do júri em Cannes o ano passado. Quando perguntado sobre o que achava de “uma colega mulher poder receber 74 chicotadas como punição” no caso de ele ser absolvido, o realizador tentou não perder a linha e disse que era tudo fake news.

No segundo dia, o novo sistema de bilhetes do festival, que supostamente evitaria as famosas filas de Cannes, deu pane e deixou os quase 35 mil acreditados sem poder agendar os seus filmes. O crash se estendeu por vários dias em diferentes horas do dia e o festival sugeriu num e-mail enviado à imprensa que provavelmente teria sido obra de ataques hacker, obrigando o festival a criar duas novas páginas para que os bilhetes pudessem ser agendados.

Como se o stress para os franceses não fosse o suficiente, no mesmo dia, algumas horas mais tarde, a revista Deadline publicou um artigo acusando o diretor do festival, Thierry Fremaux, de tentar censurar uma entrevista dada à publicação alguns dias antes. Após dar a entrevista, o francês voltou atrás e pediu para que algumas das suas respostas – nomeadamente sobre a presença do filme russo Tchaikovsky’s Wife na competição – fossem apagadas. A revista então enfurecida publicou o imbróglio num artigo que foi muito partilhado nas redes sociais. O pequeno escândalo foi tanto que o festival teve de improvisar uma conferência com jornalistas na tarde de terça para dar explicações.

Visto que o festival proibiu jornalistas russos de publicações pró-Putin e delegações russas patrocinadas pelo Estado, Fremaux foi questionado sobre até que ponto Cannes estava preocupado com o fato de o oligarca russo Roman Abramovich ser um dos patrocinadores do filme do realizador dissidente Kirill Serebrennikov (agora vivendo em Berlim) que abriu a competição no segundo dia do festival.

Na sexta-feira de manhã, teve mais polémica. Desta vez envolvendo o júri da competição Tik Tok, a mais recente empreitada do festival com o seu mais novo parceiro de vídeos curtos, projetado para atrair audiências mais jovens. O celebrado cineasta cambojano Rithy Panh, que em 2020 e 2021 apresentou seus últimos dois filmes em competição na Berlinale Irradiés e Everything Will Be Ok, renunciava publicamente ao cargo de presidente do júri da competição inaugural do TikTok, citando “um desacordo persistente sobre a independência e soberania do júri”.

Em entrevista à Hollywood Reporter, o realizador disse “a dificuldade é que o TikTok é uma empresa focada em marketing e não entende os criadores e sua independência. Eles constantemente pediam relatórios sobre nosso progresso, mesmo que ainda não tivéssemos nem sequer nos conhecido pessoalmente”. O cineasta ainda acrescentou que a plataforma deu muitas “sugestões” sobre quem deveria ganhar os prémios, muitas vezes em favor das grandes produções feitas por criadores consagrados e para as obras com menos teor político.

Para acabar o dia de ontem, no começo da noite enquanto a produção de Three Thousand Years of Longing de George Miller se preparava para entrar no Palais, uma ativista quase nua com as palavras “STOP RAPING US” e a bandeira ucraniana pintada no peito invadia o tapete vermelho. A ação protestava contra a “tortura sexual” e o estupro como arma de guerra na Ucrânia. Além da bandeira ucraniana no peito, a ativista tinha marcas de mãos vermelhas pintadas na barriga e na sua roupa íntima. Os seguranças do evento correram para cobrí-la e os protestos no Twitter começaram.

O festival vai apenas a meio do caminho, ainda no seu quinto dia. Se continuar neste ritmo de distrações, ficará mais conhecido pelas controvérsias do que pelo que realmente importa, os filmes.

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