Nha-Mila-Denise-Fernandes-2020

«Nha Mila» – O Belo Gesto da Partilha (do Peso) da Memória

Com gestos simples se compõe um quadro. Com a memória se constrói uma comunidade. Com o silêncio se cria um diálogo. Com uma câmara se captura o poder do olhar. Com um filme se (re)conquista um mundo.

O coloquial desperta o potencial da aventura da memória. E assim começa o percurso de Nha Mila”, de Denise Fernandes: numa casa-de-banho, enquanto Salomé (que conheceremos como Mila) enche uma garrafa com água da torneira. Neste (reconhecido) não-lugar, ocorre o primeiro cruzamento: Águeda, responsável pela limpeza do espaço, reconhece Mila, e interpela-a no sentido de indagar sobre o seu presente, jogando com lembranças do seu passado em comum. Pouco obtemos: sabemos que Mila está no aeroporto de Lisboa a fazer uma escala, antes de chegar ao seu destino: Cabo Verde. Águeda pouco recebe – porque Mila pouco lhe dá – e o encontro, com potencial terminado, é recuperado no hall de entrada do aeroporto. Um brinco perdido naquele momento fugaz de ida à casa-de-banho é devolvido a Mila, que já vagueava num ângulo de corte com todas as potenciais intersecções e todos os prováveis cruzamentos entre indivíduos (uma recusa de contacto inconsciente, cultural e partilhada). O (re)encontro com Águeda é o despoletar de uma viagem por Lisboa, pelas memórias partilhadas de Cabo Verde, de encontros de diálogo – palavras, silêncios, trocas – entre a antiga e mais recente geração de quem deixou o seu país em busca de uma vida melhor.

Denise Fernandes cria um lugar próprio dentro de um universo com uma temporalidade muito particular – quase perdida -, retirando Mila do aeroporto – esse espaço impessoal repleto de oportunidades por chegar, de aventuras por acontecer – e levando-a até a casa de Águeda.

A aventura dos breves e fugazes – mas fortes momentos – acontece nesta casa. Uma casa que, como nos/lhe é dito de forma cómica – não trágica, mas com sabor à ironia necessária -, não se situa no centro (turístico) da cidade: aqui não tem vista para o Cristo Rei”. Um comentário que pontua, desde logo, um retrato desta segunda vida”, desta segunda casa”, dos indivíduos que partilham um passado comum com Mila, mas acima de tudo do estado da capital. Uma cidade que coloca os seus habitantes fora do percurso agora determinado como sendo para quem visita”, para quem vem conhecer”: para os outros” e não para nós”.

Na casa de Águeda, encontramos um espaço de partilha: numa mesa, sentam-se quatro mulheres (três com um passado comum e Sheila, de uma geração mais nova), que recuperam os traços da memória através de imagens colocadas num álbum de fotografias (que raramente visitam, que raramente consultam). A antiga e nova geração têm, assim, um encontro que retrata o peso do passado, o peso da separação, o trauma do passado. Questões que marcam os seus passos, as suas vidas, independentemente da distância temporal e espacial. As fotografias são retratos fixos de indivíduos, de espaços, de histórias congeladas num tempo que pontua as vidas de quem poucas vezes regressa – nessa constante procura de determinação de identidade à base da lembrança da lembrança, sem confronto com a imagem do real capturado – , numa constante tentativa de esquecimento em formato de luta pela autonomia no presente. O esquecimento é notório: Sheila não reconhece a própria mãe. Os conceitos e as identidades moldadas por este lugar que não visitamos, mas que as personagens (re)lembram, ficam em jogo na mesa.

Mila pouco partilha. Mila (ainda) é Salomé, mas Salomé transparece Mila através dos seus silêncios, do seu olhar. Um silêncio quebrado num quarto destinado ao descanso antes do regresso ao aeroporto, nesse seu caminho (depois de 14 anos longe de Cabo Verde) de regresso ao passado.
Um irmão que morreu. Uma família que ficou.

Numa elevação da câmara até aos céus que embalam o tecido arquitectural deste subúrbio de Lisboa, sentimos que chegam – e que se ligam – até aos pontos mais longínquos do mundo (até, por exemplo, Cabo Verde). Num percurso de contraponto horizontal, temos um olhar que perfura o horizonte: temos Mila, em busca da força de toque real sobre a memória, sobre o lugar que a viu crescer, mas que (tal como nos lembra a nova geração, quase que) já não lhe pertence.

Mas o tempo e o espaço não definem a pertença. Algo permanece (bem presente, bem) intacto: neste subtil e breve retrato de Denise Fernandes, não só ficamos mais perto destas personagens, como sentimos o aproximar de gerações e comunidades. Pois tanto como o céu nos liga aos pontos mais distantes, também o cinema nos aproxima daqueles que (aparentemente próximos) nos são tão distantes, cujas memórias e bases culturais (aparentemente tão semelhantes) desconhecemos. Neste filme, sentimos (vemos, ouvimos) o peso do passado, o peso da separação, o peso da mágoa e do trauma. Um potencial concretizado, numa (re)conquista a partir de um tempo e de um espaço (aparentemente) perdidos.

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