Do apocalíptico para o espiritual, “No Coração da Escuridão”, de Paul Schrader, é uma formulação fílmica interrogadora dos modos de vivência do interno doloroso enquanto passíveis de destrinçarem a possibilidade de transmutação e ascensão a uma (nova) comunhão com um (novo-outro) corpo-alma.

Na figura do Reverendo Toller, Schrader desenha mais uma personagem em processo de destruição do seu ecossistema alma-corpo, daí radiando para a (promessa) da destruição do ecossistema-mundo, enquanto finalidade angustiante e sem retorno. A angústia de Toller é, primeiramente, a sua forma de culpa, materialização de uma estranheza perante o mundo, um afastamento pela invisibilidade do corpo – ele está, mas não está, não comunga – que o faz, mais do que viver, sobreviver na existência, pela dor e em dor. Culpa por questionar o que nenhum homem de fé deve interrogar: a verdade e essência da fé. Como pode ele passar a fé se ele próprio dela duvida? O diário que escreve, sob a luz penumbrosa do seu quarto esparso, é um fechamento dessa mesma dúvida, o que ele nunca poderia dizer – enquanto pastor – deixa escrito, sabendo que, mesmo essas palavras, não poderão ficar registadas, o escrito terá que ser destruído. Culpa por ter influenciado o filho a se alistar no Exército e pela sua morte em combate. Culpa, pois, por não poder ser o bom guiador, o bom condutor, o bom aconselhador de outros. Assim, o que Schrader filma é uma caminhada dolorosa, o castigo autoinfligido de homem sobre si mesmo, na direção de um apocalipse pessoal, um desfasamento em relação ao mundo, também ele em desfasamento apocalíptico dele próprio.

O tema ambientalista-ecológico, centro do filme, estabelece um segundo nível de culpabilização para Toller, ele toma para si os pecados dos outros e assume ele o papel de justiceiro e mensageiro apocalíptico: vestirá o colete suicida – do suicidado ambientalista radical Michael – e destruirá aquilo que mata o ecossistema ambiental, o ecónomo-sistema capitalista, o mesmo que tanto macro-destrói o ambiente como micro-financia a sua própria igreja. Também ele polui o seu corpo, bebe enquanto escreve, fomenta e leva a cabo o apocalipse do seu próprio organismo. Nessas ecologias em guerra – homem-corpo/alma-fé e planeta-natureza/humanidade-capital – Schrader matiza a negatividade e a clareza dura do mal que fazemos a nós próprios.

Mas não é, certamente, um filme só sombrio que Schrader dá a Ethan Hawke para suportar, há também nele uma espiritualidade – tema central dos filmes de Schrader – marcadamente positiva e que releva do amor e da possibilidade do amor. A figura de Mary é a hipótese de redenção, a beleza de uma face e de um corpo, o sinal de um outro corpo a vir – o filho gerado pelo atormentado Michael – e um que virá, apesar da condenação ambiental do mundo em que viverá. Espiritualidade na calma da sua voz, no subtil dos seus modos, na sua presença suave.

A atração entre os dois é palpável desde o início do filme, mas só o espetador – assim Schrader nos obriga – a pode perceber e fazer continuar, na medida do agraciar da crescente espiritualidade – o chegamento sem palavras – que entre os dois se vai construindo. Nunca falada, antes aludida e mais até vivida, pelo decorrer dos encontros e conversas, pelas aproximações e pelos espaços entre corpos, pelas linhas de posicionamento relativo e pelos olhares diretos ou indiretos, como se houvesse uma necessidade de criação de um vazio subtil, um espaço de não-toque, para pulsão da espiritualidade conjunta.

Dois momentos maiores perfazem a passagem desse espaço do não-toque ao embraço do corpo, por força do estreitamento desse espaçamento entre os dois, na razão da aproximação corporal. O primeiro é um de supressão do vazio. Mary coloca o seu corpo sobre o de Toller, estando ele deitado no chão. Olhares postos um no outro, sentem a respiração e o cadenciar sincronizado de cada inspiro e expiro, sobretudo comungam um outro espaço que é espiritual, e através dele e com ele, vogam dois num só, por entre outros espaços, tanto naturais e limpos como construídos e poluídos. A viagem comungada que partilham é uma sincronia de conhecimentos e amor, um espaço de pura espiritualidade. O espaço do não-toque passa a ser o espaço do aconchego solidário, da comunhão entre dois seres. O segundo momento é o da passagem desse secundo estado espiritual de ligação totalmente solidária para uma ainda maior conexão corpo/alma e ele ocorre quando Toller derrama líquido desentupidor num copo, para o beber e se suicidar. Mary entra na sala, ouve-se a sua voz, o virar de olhar de Toller, o correr de um para o outro, o beijo carnal, o estreitamento/conexão dos corpos, finalizando assim a criação de um espaço espiritual circular entre os dois, as suas ecologias passam a ser uma só. Espaço vital, já não vazio, já não de pulsão imanente, mas sim de junção transcendente. A transcendência é assim redenção, é salvação, a de Toller, com a passagem a um outro estado, a um outro respirar, a um despoluir e um curar.

Das ecologias do apocalíptico – a terra suja e poluída, o corpo suicidado, a compulsão para o destruir – passou-se para a ecologia do espírito – a ligação total de corpos e sentidos. A câmara circula em volta dos dois, voraz e forte, cada vez mais próxima, até ao corte para negro, súbito fim do filme, certeza da ligação, momento para reflexão: é possível um cinema do espiritual? A sala de cinema torna-se a sala de cinema outra vez. Já não se comunga com o que esteve a decorrer no ecrã. Está-se de volta ao mundano. O que o corte abrupto de Schrader nos diz e o que ele próprio nos diz é, muito claramente, isto: o cinema é espaço de espiritualidade quando não só sobre ela fala e a tenta expressar – ele sobre isso teorizou no seu livro de 1972, “Transcendental Style on Film” – mas é, em si mesmo, um espaço fílmico espiritual, de comunhão entre seres, uma ecologia do visível e do sensível: quadros, movimentos, temporalidades.

Do plano inicial e do travelling lento de aproximação à igreja ao travelling circular rápido do plano final, passamos do mundano para o divino, para o humano impregnado de amor espiritual – logo divino – entre dois seres. Não pode haver, como só no cinema ele o pode ser, um espaço mais espiritual do que um plano aproximado de dois, em beijo e embraço.