“Noites Mágicas”, de Paolo Virzì, teve a sua estreia em Portugal na sessão de abertura da 12.ª edição da Festa do Cinema Italiano. Uma mistura de film noir e comédia satírica, este filme passa-se na Itália dos anos 90 durante o final da época mais gloriosa do cinema italiano.

​A Itália disputa um importante jogo para o mundial de futebol; em todas as casas, cafés e esplanadas não se encontra um único par de olhos despregado dos penaltis que Itália viria a perder; um carro cai de uma ponte ao rio. Dentro do carro está Leandro Saponaro (Giancarlo Giannini), um produtor cinematográfico de renome, mas a sua morte não foi por afogamento. No seu bolso, uma fotografia com uma atriz famosa e três jovens aspirantes a argumentistas, que serão os principais suspeitos do crime. É esta a cena inicial que lança todo o enredo para este filme, que será desenvolvido através das reminiscências dos suspeitos enquanto são interrogados na esquadra local.

​Os três jovens suspeitos presentes na fotografia eram, viria a ser revelado, os três finalistas do prémio Solinas. Antonino Scordia (Mauro Lamantia) pode ser perfeitamente descrito pela expressão “snob cultural”: uma daquelas pessoas que está constantemente a debitar factos para mostrar que sabe, a corrigir tudo e toda a gente, era daquelas personagens que automaticamente ficamos felizes por não existirem na vida real. Apesar de ter a capacidade de enervar qualquer um à sua volta, Antonino não deixa de provocar alguma pena pela sua personalidade exageradamente sensível e ingénua, que lhe irá causar vários transtornos ao longo da história. Eugenia Malaspina (Irene Vetere) é uma rapariga sombria, sempre vestida de negro como um “luto pela vida” e com elevados níveis de ansiedade, sentindo a necessidade de recorrer a vários tipos de drogas para lidar com isso nas mais variáveis situações. Luciano Ambrogi (Giovanni Toscano) é inicialmente retratado como o mais “normal” dos três jovens: extrovertido, jovial, sempre direto e com alegria no que faz.

​Enquanto o enredo (misterioso, mas cómico) se desenrola e os três jovens vão tentando ter sucesso enquanto argumentistas, vamo-nos embrenhando cada vez mais nos bastidores do cinema italiano. Desde produtores falidos que montam farsas a argumentistas com escritores fantasmas, vamos sendo presenteados com vários aspetos menos reluzentes do final desta época de ouro do cinema.

​Os renomeados cineastas que estão no fim do seu auge têm agora setenta ou oitenta anos, mas recusam-se a acreditar que os jovens que começam a emergir algum dia poderão fazer um trabalho aceitável; uma analogia tão real nos dias de hoje, em que ouvimos constantemente a cantiga do “no meu tempo não era assim”, e do “no meu tempo é que sabíamos viver”, pois aparentemente nenhuma geração sabe aceitar as mudanças que a geração seguinte traz.

​Ao longo do filme o trio vai sendo desenvolvido numa estrutura bastante tridimensional, tendo sempre qualquer coisa para além do esperado (às vezes de uma forma bastante previsível, é certo). Este desenvolvimento e algumas das suas intervenções bastante lúcidas terão sido para mim um dos pontos mais positivos do filme, mas não se pode dizer que esse gosto se estenda a todo o argumento. Na tentativa de fazer constantes referências a nomes do cinema italiano, acabam por ser introduzidas tantas, tantas personagens que a história se perde a meio, e muitas vezes chegamos ao fim de uma cena questionando-nos qual foi o seu propósito no enredo. A edição, medíocre e por vezes confusa, não nos ajuda a seguir o raciocínio da história. A fotografia estava relativamente interessante, jogando bem com as cores e as distâncias muito auxiliada por uma direção artística bastante boa (talvez dos melhores detalhes do filme).

​É, enfim, um filme com uma ideia interessante de mergulhar nas entranhas da produção cinematográfica através dos olhos de três jovens inexperientes, mas que se vai perdendo na tentativa de fazer “demasiado de tudo”.

Realização: Paolo Virzì
Argumento: Francesco Piccolo, Francesca Archibugi
Elenco: Mauro Lamantia, Giovanni Toscano, Irene Vetere
Itália/2018 – Comédia
Sinopse
: Itália nos anos 90. Um conhecido produtor de cinema é encontrado morto no rio Tibre e os principais suspeitos são três jovens aspirantes a argumentistas. Ao longo de uma noite na esquadra da polícia, passam em revista a sua aventura tumultuosa, emotiva e irónica nas ruas de Roma, no crepúsculo da era gloriosa do grande cinema italiano. “Noites Mágicas” mistura o film noir e a comédia satírica.

«Noites Mágicas» – O crepúsculo da época dourada
2.5Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos