“Nomadland” – A Terra Fugidia

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A terra nómada, fugidia de si mesma, desbaratadora da sua própria capacidade produtiva e que se auto-desvaloriza – na medida da sua incauta incrustação no meramente financeiro e pelo seu deixar ser-se transformada pelo sistema de troca constante de bens e mercadorias de consumo, enquanto serviços de uma economia da pós-produção comercial – é a que se sinaliza e significa na carrinha solitária de Fern (Frances Mcdormand), veículo- casa que atravessa essas estradas da grande expansão desnutrida do valor e da produção. Entre dois planos, um de gelo azulado e um outro, de castanho dourado, o vetor é o mesmo: a procura de trabalho (produtivo) e uma terra que foge a ser esse espaço de virtuosa produção de riqueza.

Ela, Fern, é a função de uma dúvida da terra para consigo mesma: incapaz de gerar sustento e provimento produtivo, essa terra-insuficiência é palco desse ato – também ele nómada – de inconformismo socioeconómico e vivencial que é o de fugir – a um primeiro grau, e de perseguir a um segundo – à terra que já foge de si mesma, o de ser uma fuga no espaço da construção de uma fuga-maior que é a desistência de ser forma-nutrição dos corpos que são agentes de valorização dela mesma. Ao desvalorizar-se, ao fugir de si, essa terra é já não da suficiência produtiva e construtiva, que se soma a quem nela produz, mas sim a da perda de sinal valorativo puro: não nutre, logo se desvaloriza nessa auto-fuga à sua função de espacialidade de produção positiva de valor.

Ao manter-se na estrada, como permanência de vida, na vectorização de uma migração sazonal e na busca de trabalho temporário, Fern produz, na improdução negativizada, a reprodução de um vazio puramente comercial: ela é – passou a ser – um agente que possibilita a transação-comércio de mercadorias que perfazem somente a multiplicidade infindável de linhas de trocas financeiras, que nada mais produzem do que a improdução da sua própria não-produção.

É a partir da uma mesma postura de amostragem da alienação do ser produtivo que este “Nomadland – Sobreviver na América”, de Chloé Zhao, se aproxima e constrói sobre o “Terra Prometida”, de Gus Van Sant: o desvalor como fundamento da economia contemporânea é um que só desvaloriza a terra que pretende produzir – as quintas agrícolas de produção própria, as fábricas produtoras de equipamento – como retira ao agente único, a pessoa singular, a sua valorização enquanto incrementadora da mais-valia pessoal, intelectual e social que retira dos bens e serviços (de valor comercial positivo) que coloca na rede anónima de permutação da virtualidades – encomendas de um só clique, cartões de crédito não físicos, transferências virtuais imediatas – que constitui a economia da pós-produção comercial, a qual é eminentemente financeira.

No grande armazém da ubíqua e global loja virtual, Fern é tão uma mercadoria ela própria, como são aquelas que ela embala e faz correr na linha de empacotagem e expedição – já não mais uma linha de montagem, porque essa seria a de um fábrica e, logo, produtiva – e que seguem, ainda na sua virtualidade – só tomam corpo económico real quando enviadas, via cumprimento da encomenda virtual – e que a tornam também virtual e um micro-momento de micro-passagem entre outras micro-virtualidades, enquanto carregadora de coisas, etiquetadora de valores numéricos e leitora de códigos de barra. Estando as mercadorias fora do centro de cumprimento, ela fica esquecida, é um desvalor da mercadoria que é a do seu tempo, perdida e desbaratada no comércio do virtual.

Dali, ela só pode fugir para a terra sem paredes e fechamentos, uma que seja, pelo menos, a promessa de uma não-fuga, uma em que ela se possa se produzir, corporalmente, enquanto pessoa. A estrada é essa linha de construção de um caminho profundamente físico: é aberta, é fria e nevada, é clara, castanha e poeirenta, tem a completude do dia e da noite, tem as diferenças do quente e do frio, e tem – o que para ela é importante – o silêncio.

É no percurso desse silêncio, no espaço longo e sempre inacabado de estradas e de trabalhos temporários, que a câmara de Zhao melhor a acompanha, sendo ela mesma um dispositivo de silêncio, que só segue e abre caminhos por entre os que Fern percorre, numa curvatura permanente e num ziguezaguear que não acaba. Os desvios de um movimento fugidio, de um andar sem direção, mas com um vetor de avanço necessário, são encontrados na cena em que Fern caminha (ziguezagueia) pelas formações rochosas das Badlands. Ela curva e recurva, a câmara faz o mesmo, é um labirinto de um perder-se voluntário, de um seguir em frente que se sabe não certo, é a necessidade de uma locomoção de fuga da fuga.

Daí para a estrada, ou para a sucessão de estradas, lugares e ocupações de sazonalidade, essa é a terra fugidia, sob a forma da reta que se estende sempre para lá dos limites de si mesma: é uma imagem que está sempre à frente, foge, é perseguida, o corpo avança, mas ele é, sempre e afinal, também fugidio. Volta-se à estrada, a do trabalho que também foge, mas também a do ato visual do fuga-imagem e fuga-horizonte: as montanhas rochosas ao fundo, pontiagudas, estranhas, disformes, recortadas pela luz do sol que vem da esquerda, desenhadas como um rugosidade áspera. Contra e abaixo delas, as casas diminutas. Acima, o céu azul, espalmado e mortiço. A ocupar um grande espaço, a erva seca e de pouca cor, numa planura rente e desprovida. À direita, arbustos engrandecidos ou árvores pequenas, de um verde muito denso. Ao centro, a estrada, cinzenta e virando à direita. Nela, a carrinha branca de Fern, em perseguição da terra que lhe foge (a terra produtiva, a terra como imagem do seu potencial perdido, não a improdutiva, da qual ela foge). Atrás dela, a câmara de Zhao, em perseguição, ela própria, do corpo fugidio que é o de Fern. A imagem que persegue o corpo que foge, em busca da terra fugidia.

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