A história de amor cinematográfica típica é tão previsível quanto o início deste texto: rapaz conhece rapariga ou rapariga conhece rapaz, a relação evolui, há uma rutura temporária, há um reencontro e vivem felizes para sempre (duvidoso, não?). Sou da opinião de que este tipo de histórias é, na verdade, apenas a introdução de uma verdadeira história de amor. O fim não é o casamento, o noivado, o namoro, o beijo, o sexo, ou qualquer que seja o clímax do filme; o fim é a morte. Só com ambas as pessoas (ou as várias, para os poligâmicos) mortas é que o amor acaba. Apesar desta visão negra do amor, adoro filmes sobre relações, sobretudo aqueles que nos mostram o mundo pouco cor-de-rosa de um casal. E se for um amor desconstruído, ui! Fica logo no topo da minha lista de filmes para ver.

Foi por isso que decidi criar uma lista de filmes sobre relações amorosas para quem aprecia esta vivência que faz tanto parte da vida do ser humano. Tentando não revelar demasiados detalhes sobre os mesmos, adianto que são filmes que começam com o fim de uma relação e que desconstroem o que levou a esse rompimento, alguns de forma não-linear. Sem mais demoras, começo pela jóia da coroa, na minha opinião.

“O Despertar da Mente”, de Michel Gondry, (2004)

Já desejaram poder apagar da vossa memória uma pessoa (e não só) que amassem? Talvez a vossa experiência fosse semelhante à de Joel (Jim Carrey) quando tenta eliminar todos os vestígios da presença da sua ex-namorada, Clementine (Kate Winslet), da sua vida, incluindo das suas recordações. O que vemos é uma série de analepses temporalmente decrescentes que vão do fim da relação ao seu início, indo do pior para o melhor do amor e dos seus momentos felizes que não queremos esquecer. Este filme tem um dos meus fins preferidos, mas talvez seja melhor não dizer porquê, correndo o risco de estragar o fim a quem ainda não o viu.

“(500) Dias com Summer”, de Marc Webb (2009)

Este deverá ser o filme mais leve desta lista, mas está aqui por uma razão: leva-nos a analisar uma relação e a tentar perceber, juntamente com o protagonista, Tom (Joseph Gordon-Levitt), onde é que tudo falhou. Vemos os momentos felizes iniciais numa relação e o seu fim, tal como com “O Despertar da Mente”. Este filme vai saltando para certas analepses conforme o decorrer do filme, usando uma abordagem não-linear. Outra das razões porque menciono este filme é porque gera duas opiniões: aqueles que acreditam que a “má da fita” é a ex-namorada de Tom, Summer (Zooey Deschanel), e aqueles que defendem que Tom decidiu ignorar todos os sinais que lá estavam desde o começo. Admito que passei por ambas as fases. O fim é agradável para quem está a passar pelo seu próprio fim de relação, com uma agradável sensação de, usando a famosa frase de “Frozen”, “let it go”.

“Marriage Story”, de Noam Baumbach (2019)

Este filme captou o meu interesse desde os trailers, que logo indicavam uma história de amor falhada. Tal como o título pode indicar, envolve o fim de um casamento, um processo muitas vezes feio para todos os envolvidos; o filme mostra-nos isso mesmo. Nicole (Scarlett Johansson) e Charlie (Adam Driver) terminam o seu casamento, começando por querer uma separação amigável e culminando numa discussão que nos mostra aquilo em que o amor muitas vezes se transforma no fim de uma relação. É um filme em que empatizamos com ambas as personagens e não nos leva a tomar um partido; se o tomarmos, será pelas nossas experiências pessoais e não algo que o filme nos impingiu. Este filme não contém analepses, ao contrários dos outros dois que referi acima, preferindo contar-nos a relação entre os protagonistas através das palavras dos mesmos; e sim, temos o entusiasmo do início da relação e o seu fim. A forma simbólica como o filme acaba deixar-vos-á com uma sensação agradável (tal como todos os outros aqui listados, na verdade).

“Uma História de Amor”, de Spike Jonze (2013)

Decidi pôr este filme no fim da lista porque é um pouco diferente dos outros no sentido em que não envolve apenas uma relação, mas duas. A primeira, a que sabemos logo ter fim, entre Theodore (Joaquin Phoenix) e Catherine (Rooney Mara), e a segunda, que começa no início do filme, entre Theodore e Samantha (Scarlett Johansson). Este filme não se centra na desconstrução de uma relação tal como os outros, mas alguns dos elementos usados nos filmes que mencionei acima estão presentes neste no que toca à primeira relação: há analepses de felicidade e de tristeza, há um rompimento justificado, há um amor que não desaparece de repente. Aqui, começamos com a questão que muitos de nós já se questionaram se passaram por esta situação: serei capaz de voltar a amar? Em “Uma História de Amor”, temos a procura a essa resposta e encontramo-la. Na minha opinião, é outro filme que vale a pena ver quando se está a passar pelo fim de uma relação, sobretudo pelo seu fim esperançoso (não querendo com isto estragá-lo, apenas convencer-vos a não parar a meio se se tornar difícil encarar a tristeza que se segue a um rompimento). Por fim, não posso deixar de mencionar que, neste filme, o amor envolve inteligência artificial. Em alguns aspetos, é uma espécie de “Ex Machina” sem o fator thriller.

Com certeza que muitos outros filmes poderiam estar nesta lista. Eu, de forma muito parcial, escolhi aqueles que me fazem vibrar de alguma maneira. Posso referir ainda dois a que um dos filmes da lista, “Marriage Story”, é comparado: “Kramer Contra Kramer” (1979) e “Cenas da Vida Conjugal (1974). Todos abordam relações matrimoniais que terminam e todas envolvem filhos, sendo que em “Kramer Contra Kramer” há uma maior presença e, talvez, protagonismo. No entanto, a razão por não ter escolhido esses dois filmes, por muito geniais que sejam e ninguém lhes tira o mérito, foi simplesmente por não desconstruírem a relação da mesma forma que os quatro filmes que mencionei. Porém, merecem também ser vistos, tal como muitos outros não mencionados (mas que podem ser sugeridos, o meu gosto cinematográfico peculiar agradece).