No meio de tanta arte, como poderíamos nós convergir numa única verdade, num único núcleo de escolhas genuínas, de orientações, de valores? O cinema é único na sua amplitude, permite compensar os vazios de todos; preencher todas as lacunas que nos permitem sentir, sonhar, ambicionar ir mais além – emocionalmente, e não só. As coisas são como são e como têm de ser. Tudo tem uma explicação: todas as nossas inquietações, devaneios, escolhas, interesses, e é isso que nos faz sentir mais, viver mais, compreender o mundo melhor: com mais intensidade e comprometimento. A sétima arte é o convite a uma viagem que nos junta a todos na mesma máquina do tempo e no desejo que o cinema cria e concretiza: poder voltar a casa quando nos contam o real.

Tudo isto para dizer que a sétima arte não é excepção nesta regra da simplicidade da humanidade criativa. Só assim caminhamos juntos, lado a lado, sem nos apercebermos, rumo a um destino unívoco de elevar o cinema, por vezes sem essa intenção, mas essa é a verdadeira beleza do mundo: provocar impacto com a nossa genuinidade, quase que sem querer. O cinema é um sem querer artístico motivado pela ambição de imortalizar um amor que não se explica. Todos temos um papel, o principal, o de deixar a mágoa e a inveja e a solidão (interiormente) de lado e transpô-la para um outro plano: o moral, o humano, o da simplicidade.

Como é que o cinema se cruza com a história? Foi a pergunta a que João Lopes, um dos mais aclamados críticos de cinema em Portugal, quis responder, salientando: a relação com o cinema e a história é um relação sempre do presente: não é uma mera atualização de um passado, mas é qualquer coisa que resulta da maneira como vivemos o presente e que, remetendo-nos para um passado mais ou menos distante, nos leva a repensar o nosso lugar neste presente”. Ainda sobre a magia da interacção entre o espectador e a obra, no desígnio de imortalizar o cinema e, claro está, o próprio filme, diz: “o facto nunca é uma entidade fechada. O real não conta histórias. Somos nós que as contamos, que revisitamos isso a que chamamos real. O facto não está lá à espera que nós olhemos para ele e digamos ‘é isto’. Vamos ter que o alimentar e estabelecer uma relação com ele”.

Estamos juntos na conquista e na intemporalidade. A essência do cinema é não se fechar numa narrativa unívoca de amores e paixões – que não se traduzem em palavras mas em emoções: em sorrisos eternos de optimismo e sonho.