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“O Ano da Morte de Ricardo Reis” – O Fantasma e a sua Imagem

No seu filme “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, João Botelho questiona o valor identitário do autor e das suas personagens, as relações entre a fantasmática ficcional e o autor autorado e o filmar da criação literária enquanto ato figurativo de construções que revogam a lógica da personificação, como imagens da sua própria não-imagem que se fazem ultra-imagens de um cinema meta-arquitetador.

Ao cair da chuva – e atrás está a criação digital de um navio que já não percorre os mares, materializando-se assim, pela síntese informática, a figuratividade da imagem do fantasma, o transatlântico que é imagética da sua desaparição – chega (regressa) Ricardo Reis (Chico Diaz) a Portugal. Ele que é personagem-outra, fantasma de um fantasma, imagem de uma não- imagem, ele que não é ele, coisa escrita que é órfã de quem a escreveu, tomada como ficção que já é/foi/será, no decurso da obra-meta que o fantasmiza, uma vez mais: Ricardo Reis, ele que nunca se havia feito imagem no cinema português, mas que é aqui apreendido como tal, a partir de uma outra ficcionalidade, a de José Saramago. Daí que, entre a imagem fílmica do que ainda não havia sido uma imagem e a dessa refiguração a uma terceira potência, que faz dela João Botelho, que maior fantasma pode ser do que aquele que já se sabe morto, porque virá a morrer, nesse mesmo ano em que o filme vive: o de 1935, ano da sua morte, e que se antecipa como diegética a atravessar, naquele mesmo momento em que ele vai do transatlântico e para o chão molhado de Lisboa.

A escrita que se vai escrevendo, seja a do próprio Ricardo Reis, enquanto personagem reflexiva e que sabe, lucidamente, que é narradora de si mesma e funcionalidade do seu próprio fim, como figuratividade vivencial, quer seja a de Saramago e sobre a qual se discorre, na forma-tempo da sua narratividade, ou ainda a do filme que se vai filmando (escrita outra), afirmam a fantasmagoria de uma ficcionalidade que é sempre figural e contada a partir e sobre si mesma. Ricardo Reis pensa e lê, desloca-se e questiona-se enquanto ficção a ser ficção no ato de ser ficção. Quando, num autocarro, ele descobre – por leitura do obituário no jornal – que o seu autor é já falecido, afirma veementemente o seu espanto (fantasmático) pela notícia a um estranho que tem ao seu lado: ele é agora uma personagem- autora desautorada, perdeu a sua lógica de ser, ele é agora fantasmática da personagem-livro, é imagem (dessa não-imagem que o era enquanto atuante como palavra só escrita) de um filme, sozinha e deixada para viver como outra tipologia, a da personagem-cinema. E é como tal que Ricardo Reis passará pelo filme. E assim se dirigirá, urgentemente compelido, a visitar Fernando Pessoa, no cemitério onde está restante, para se configurar como imagem fílmica, em ficção, perante o seu criador.

Não visitará José Saramago, porque assim não foi escrito, só João Botelho o sabe, não o faz saber a ele, fá-lo viver, enquanto no filme que adapta – e o adapta a ele – o livro que o faz morte de si mesmo, mas agora a ser refeito como vivência ultra-imagética, da não-imagem sempre latente de ser imagem, à imagem da imagem: fantasma da escrita perdida, não-imagem do seu autor morto – que já não o pode mais refigurar – mas imagem dessa fantasmagoria que é ele próprio, virtual na sua reconfiguração de Ricardo Reis que já não é o outro, mas que morrerá como o outro – duplo de si – enquanto imagem da imagem de si.

E assim mais ele vive. Um ano por duas horas, nessa imagética da outra dualidade que também é: personagem e autor, fantasma e imagem. Exerce medicina, conhece a carne e o espírito, entre a volúpia de Lídia (Catarina Wallenstein) e a doçura de Marcenda (Victoria Guerra), move-se pela Lisboa sempre monocromática, andrajosa e fumosa, de claros e escuros contrastados, batida pela chuva constante, assolada pela pobreza, amorfanhada no estado salazarista em criação – ele próprio assiste a um comício fascista, do qual se enoja rapidamente – e que o torna pessoa a vigiar e arquivo (virtualidade que a sua desaparição fará esvaziar esse estatuto) a manter.

Quando a outra imagem surge, a de Fernando Pessoa, alma penada ou alma em trânsito, é toda uma discussão literata e morfológica sobre o que é ser-se personagem que se inicia: pois ali é Pessoa também um fantasma (fantasma-autor, fantasma-imagem) e ambos só podem discursar e discorrer acerca de atos que performatizam enquanto as personagens que são. Até ainda mais João Botelho problematiza a personificação imagética, ajuntando uma outra linha de ficção desestabilizadora da sua própria, o filme dentro do filme, o policial para o público médio, um que outro autor – outro fantasma- imagem – o realizador António Lopes Ribeiro (Paulo Filipe) dirige, invadindo o filme de 2020 com a sua própria obra em ato de feitura, virtualidade sobre virtualidades já existentes, em que a personagem do abjeto Vítor (João Barbosa) da PVDE se fantasmiza – mais outra – a si mesmo.

Neste seu filme acerca do ato ficcional, João Botelho efetiva um importante ato como cineasta: o de deixar claro e límpido que a ficção tem que olhar sobre e para si mesma – e nisso replica imageticamente o que Saramago fez na obra literária para a qual ele olha como essa olhava para a heteronomia escrita por Pessoa – na medida da sua construção e tessitura. Entre autores e autorados, entre autorias e obras, há sempre a necessidade de a elas haver a permanente possibilidade e o facto próprio de uma autorreferencialidade decorrente da sua meta-escritura. E, por tal, e como escrito, e como dito, Ricardo Reis morre, no fim desse filme que o fez um fantasma e a sua imagem.

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