“Cavaleiro de Copas”, um dos filmes menos aclamados de Terrence Malick (estando atrás apenas de “A Essência do Amor” e “Música a Música”), segue a odisseia de Rick, um argumentista de sucesso, por Las Vegas e Los Angeles, onde vai estabelecendo relações com diferentes personagens que se identificam com oito cartas de tarot. O título da obra corresponde igualmente à carta que se associa ao protagonista: o Cavaleiro de Copas cujo, significado, se estiver invertida, é desconfiança, imprudência, falsas promessas, problemas em discernir a verdade.

De facto, ao longo de todo o filme, o espectador é desafiado a dar sentido a uma história que parece apenas uma sucessão anacrónica de momentos, difíceis de percepcionar se são sonho ou realidade. Também Rick se encontra nesse limbo, ora aproximando-se, ora afastando-se da paz que procura (tal como quase todos os protagonistas malickianos), uma vez que sente que falta significado à sua vida e por essa razão tenta preenchê-la com excessos cujo antro é a vida noturna de grandes cidades, povoadas por figuras ameaçadoras, com vidas igualmente desprovidas de sentido. Pode dizer-se que Rick é o sucessor espiritual de Jack (protagonista de “A Árvore da Vida”): ambos vagueiam pelas ruas da cidade à procura de um rumo; ambos são assombrados pela morte de um irmão; e têm uma relação problemática com os pais. Estas duas personagens chegam a partilhar um nome de quatro letras, curto demais para o conflito interior que suportam. Jack e Rick diferem apenas nas certezas que são dadas ao espectador relativamente à fase do caminho em que os personagens se encontram. Enquanto, no final de um filme, Jack parece estar mais próximo da Natureza, Rick, voltando à estaca inicial, tem nas suas mãos a possibilidade de fazer tudo de novo ou mudar. A última palavra proferida em “Cavaleiro de Copas” é “Começa” e esta ambiguidade não nos permite descodificar o destino de Rick, por mais que queiramos acreditar que ele encontra a paz.

Tal como referi, a ação desenrola-se maioritariamente na cidade, sendo que os momentos em que as personagens interagem no campo, correspondem a fugas, memórias ou desejos. O meio natural em Cavaleiro de Copas apresenta-se, como nos restantes filmes de Terrence Malick, em oposição à cidade, com a especificidade de aqui as paisagens naturais aparecerem estritamente ligadas à necessidade de as personagens saírem da cidade e no campo procurarem um refúgio.

Ora, no que respeita às personagens da cidade, estas apresentam-se semelhantes entre si, ignóbeis e entregando-se a divertimentos fúteis, como se estivessem adormecidas ou em negação relativamente à vida que se desenrola fora daquele submundo. Helen, personagem associada à carta da Torre, numa conversa com Rick, põe este entorpecimento nos seguintes termos: “Os sonhos são bons, mas não podes viver deles”. No entanto, há exceções nesta filosofia, sendo estas Karen (personagem interpretada por Teresa Palmer) e Della (Imogen Poots), que mantêm a farsa, como se se tratasse de uma penitência necessária para alcançarem a paz interior. Nas palavras de Karen: “Como é que lá chegas? Sai da nuvem poeirenta que todas as pessoas estão a levantar. O único modo de sair é entrando”.

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Cavaleiro de Copas (2015)

Rick, a personagem mais extrema, tendendo para a Cidade no binómio em análise, tenta ao longo de todo o filme recuperar o seu lugar no mundo através de cada nova relação que estabelece, mas, sobretudo, tenta recuperar aquilo que em tempos teve (seja felicidade, paz, amor, …). A sua vida, assemelha-se a um loop constante que o deixa exatamente onde começou. Apesar de ele ser consciencioso e desejar afastar-se daquele modo de vida, faltam-lhe as forças para o fazer (“Passei trinta anos a não viver a vida, mas a arruiná-la para mim e para os outros”).

A analogia que acompanha a busca de Rick por um sentido é a passagem “Hino da Pérola”, inserida nos Atos de Tomé, que conta a história de um jovem príncipe, um cavaleiro “enviado pelo pai, o rei do Leste, que foi para o Egito encontrar uma pérola. Uma pérola das profundezas do oceano. Mas quando lá chegou o povo serviu-lhe um cálice que lhe tirou a memória. Ele esqueceu-se que era filho do rei. Esqueceu-se da pérola e caiu num sono profundo”. Tal como o príncipe, também Rick se esquecera de quem era (“Todos aqueles anos a viver a vida de alguém que eu nem sequer conhecia”) e se entregara a um estado apático. Este aprisionamento a um estado é associado ao aprisionamento à cidade, que oprime os seres e os adormece com os seus divertimentos.

Em oposição aos dois filmes analisados anteriormente, em Cavaleiro de Copas não parece existir uma harmonia entre o elemento natural e o elemento não natural, humano. Aliás, se em A Árvore da Vida há a possibilidade de encontrar o equilíbrio entre Natureza e Graça, aqui, o fosso entre o “ser” e o “querer ser” é demasiado extenso e penoso para ultrapassar. Por esta razão, muitos desistem de tentar percorrer o caminho e ficam-se adormecidos. Contudo, por mais que Rick queira acordar, deverá fazê-lo? Não será esta vontade de despertar para a vida, a única forma de se sair da estaca inicial apenas para lá voltar vezes e vezes sem conta?

Todos os filmes de Terrence Malick introduzem mais questões do que respostas, é certo. No entanto, “Cavaleiro de Copas” é, indubitavelmente uma das obras menos confortáveis do realizador que, regra geral prefere planos de nuvens, ao invés de aviões no céu.

Para concluir: há sempre uma relação diretamente proporcional entre o afastamento do Homem à Natureza e as suas tendências autodestrutivas. “O Novo Mundo”, “A Árvore da Vida” e “Cavaleiro de Copas” constituem um crescendo de aproximação à Cidade, sendo impossível não estabelecer relações entre as representações do Campo e da Cidade nos três filmes. Tal como Jon Baskin, no seu artigo “The Perspective of Terrence Malick”(2016) para a The Point Mag, explica: “Tomado individualmente, qualquer filme de Terrence Malick pode parecer quixotesco, arbitrário ou fantasioso; juntos, constituem uma escada ou ascensão”.