Quando Alice, depois de entrar na toca do coelho, encontra o gato de cheshire, este apresenta-se em toda a sua alegria, loucura e plasticidade. No final da cena, a imagem do gato desvanece e permanece o sorriso. É assim que David Lowery retrata Robert Redford no seu filme mais recente: “O Cavalheiro com Arma”. Ainda que o corpo de Redford possa, com o tempo, desaparecer de entre os vivos, ficará o sorriso dentro de um rosto que conta uma boa parte da história do cinema.

Redford é Forrest Tucker, um velho assaltante de bancos, extremamente bem vestido. Na parte de dentro da sua elegante indumentária, traz uma arma, a qual nunca dispara, servindo-lhe mais como um símbolo, que uma vez apresentado, faz disparar os corações dos funcionários dos bancos das redondezas, para obter o que deseja. Durante uma fuga, conhece Jewel (Sissy Spacek), e a empatia entre ambos floresce na conversa que têm durante a boleia dada por Tucker. A partir desse momento, Tucker divide-se em dois: aquele que cada vez mais aprecia a companhia de Jewel e as conversas que têm e o assaltante inveterado.

As principais características apontadas a Tucker pelas testemunhas dos seus delitos são a gentileza e o ar de felicidade. Como assaltar é ainda uma atividade, Tucker dedicou a sua vida a ela como se tratasse do mais sério dos ofícios. E talvez a ideia de todo o filme se sintetize aí, nessa preciosa atividade, que uma vez que a encontramos, afirmamo-la tão completamente ao ponto de lhe dedicarmos as nossas vidas. Esta atividade não é essa, a que nos turva o olhar interno, onde vemos uma prisão perpétua, legitimada pela necessidade de sobrevivência; é antes uma libertação, que só sentimos enquanto cumprimos a essência mais íntima do nosso ser. Pois, não acreditamos que o sorriso de Redford, o velho larápio seja diferente de Redford, o ator, o realizador, o apaixonado por cinema. Essa felicidade tão presente deve-se à magia inerente ao meio cinematográfico, onde o corpo se transcende, ganha sempre uma nova forma, um novo fulgor.

O contraste vital de Tucker está no detective John Hunt (Casey Afleck), que por mais que se empenhe em apanhar Tucker, a essência burocrática do seu ofício não o deixará ter esse prazer. Na instituição policial americana tudo funciona como uma linha de montagem, a felicidade possível resume-se ao limitado raio de acção jurisdicional, até que chegue uma nova entidade para levar o caso “para a frente”. Hunt persegue Tucker, mas só até ao dia em que percebe que persegue a imagem da sua felicidade perdida, da sua velhice impossível. A interpretação de Casey Afleck é notável ao dar corpo a este polícia cansado, com uma certa descrença na efectividade do seu trabalho, e cuja voz, arrastada e frágil, demonstra uma certa melancolia que talvez já se tenha entranhado no seu ser.

Lowery não põe apenas em contraste a vida feliz e a vida cansada, ele, também, volta ao tema que genialmente aborda no seu filme anterior “A Ghost Story”. A Lowery interessa-lhe reflectir sobre o tempo e as mudanças que este imprime no mundo, e que este, por sua vez, imprime em nós. A certa altura, Tucker e Jewel sentam-se no alpendre e falam sobre as coisas que os olham desde fora, os espectros que os contemplam e os fazem pensar neles mesmo, na maneira como existem: para Jewel é a presença espectral do marido que a faz pensar na sua solidão; para Tucker é a criança que ele foi que o observa e julga, como um critério moral das suas acções. Mas, como Jewel lhe responde, essa criança não pode compreender o tempo, pois isso exigiria que Tucker deixasse falar o velho que resiste a deixar o seu lado rebelde sob pena de se deixar morrer antes da sua própria morte.

Se “A Ghost Story” é um belo poema, num tom contemplativo que encaixa tão perfeitamente no conteúdo filosófico e reflexivo do filme, “O cavalheiro com arma” é mais uma prosa, num tom mais corrido, de quem pretende contar uma história e não tanto ensaiar um pensamento. Penso que David Lowery dificilmente atingirá os níveis de “A Ghost Story”, onde cada instante da duração do filme condensa uma intensa sensação de tempo, como se ele tocasse em nós e tivéssemos acesso a alguma da sua concretude. Cada plano deixa entrar em si o tempo até que ele se faça sentir, como se a câmara fosse movimentada pelo próprio tempo. Contudo, neste filme, Lowery não deixa de mostrar o seu talento na realização, ao adaptar a forma ao conteúdo que pretende passar. Sendo um filme menos pessoal – menos reflexivo e mais ativo -, o cunho formal não se torna tão visível; porém, a forma que o realizador imprimiu neste filme mostra um novo registo que vem confirmar as inegáveis qualidades que já havíamos visto no seu filme anterior. David Lowery poderá continuar a ficar à margem dos grandes galardões, mas nunca à margem do cinema.

Realização: David Lowery
Argumento: David Lowery
Elenco: Robert Redford, Sissy Spacek, Casey Affleck
EUA/2018 – Drama/Comédia
Sinopse
: Este que é provavelmente o último filme do mítico ator Robert Redford é baseado numa história tão entusiasmante como verdadeira: a da audaciosa fuga de Forrest Tucker da famigerada cadeia norte-americana de San Quentin aos 70 anos de idade. Tucker foi autor de uma série de golpes que confundiram as autoridades e fascinaram o público.

«O Cavalheiro com Arma» - O brilhante sorriso de um larápio feliz
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