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Toda a relação – e a amorosa no maior grau de intensidade – é construída ao sabor das memórias que vamos criando. Quando as coisas começam a desmoronar e alguma das partes decide colocar um fim à relação, são as memórias que nos vêm assolar a alma e percebemos que a palavra ‘fim’ é apenas um desejo muito pessoal que temos de nos livrarmos do peso emocional de um sentimento que não cessou, porque o amor vive preso a essas memórias, que ganharam vida própria.

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), após terminarem a relação, decidem procurar uma empresa que consegue eliminar todas as memórias relativas ao passado do casal. Porém, a mente de Joel, no meio do processo de apagamento das memórias, começa a agir sobre essas memórias e a resistir ao seu desaparecimento permanente.

O filme começa pelo final. Joel e Clementine, após terem passado pelo processo de apagamento das memórias, encontram-se como se nunca se tivessem conhecido antes, preservando a mesma química e sintonia que os havia juntado. Porém, aquilo que ambos herdam da relação que haviam tido começa a pesar e a pôr à prova esta nova re-aproximação do casal. Ambos ouvem os juízos a que o ressentimento de ambos deu origem, mais para justificarem a vontade de levarem a cabo o apagamento das memórias, para poderem descansar e colocar um ponto final na relação. A sinceridade e verdade que emanam destas vozes que tentam justificar-se a si mesmas da separação é algo assombroso. Essas palavras parecem reflectir um universalismo afectivo que acaba por revelar-se em muitas relações: ela sente que tudo mudou e que é uma pessoa pior com – e por – ele; ele sente que ela afinal é uma pessoa superficial, que não o estimula o suficiente a um nível espiritual. No fundo, são as expectativas frustradas que funcionam como álibis apaziguadores nos momentos mais críticos de uma relação. Este é um exemplo do grau de verdade que este filme consegue alcançar, mas aquilo que mais surpreende no filme é como, tal como a história de amor que ela conta, também ele resulta de encontros felizes.

O primeiro encontro feliz que torna esta obra possível é entre Michel Gondry e Charlie Kaufman. Kaufman escreve uma história soberbamente inteligente, ao conseguir imaginar um mundo possível onde todos os amantes frustrados pudessem simplesmente ver-se livres das suas memórias. Porém, as consequências que são geradas desta hipótese enriquecem o argumento sobremaneira, mostrando como as memórias são algo central mesmo quando elas se tornam um incómodo por nos fazerem continuar a amar ou odiar. Gondry imprime a forma imagética que o argumento precisa, ao criar as imagens que retratam as memórias de Joel, através dos cenários que se vão desmoronando e metamorfoseando; em alguns focos de luz simples, que contrastam com o escuro, existe a opção por uma iluminação simbólica e codificada, cuja origem não se justifica senão pelo surrealismo inerente ao mundo interior vivido pela personagem. Para além deste primeiro encontro feliz entre forma e conteúdo, existe ainda o encontro entre Jim Carrey e Kate Winslet.  Ambos os actores possuem alguma inocência e ao mesmo tempo alguma estranheza. A ele, bastou subtrair o histrionismo que estamos acostumados a ver nas suas comédias para conseguirmos ver um ser absolutamente comum, que preserva algo de singular e misterioso na sua personalidade; em Kate Winslet, preservou-se aquele seu semblante simples, amoroso e simpático e acrescentou-se um penteado mais irreverente, que vem colorir os planos e ajudar a situarmo-nos no tempo fílmico.

O filme, para além de todos estes encontros felizes, contém muita matéria filosófica que emerge no que toca ao papel fundamental das memórias para as nossas vidas, como elas nos acabam por definir, ao criar em nós uma (pequena) duração vital que não é mais nem menos do que aquilo que verdadeiramente somos. O plano em que Joel e Clementine se deitam por cima da camada de gelo é talvez o mais belo e o mais significativo de todo o filme. Ao lado dos seus corpos vemos uma enorme fenda que parece representar a iminência de uma verdadeira fractura, capaz de os engolir para dentro de um rio. Esta parece ser uma metáfora perfeita para o funcionamento da memória: a fluidez do tempo é imensa e eterna, tal como um mar, e aquilo que vamos captando desse mar são pequenas cristalizações que guardamos dentro de nós, mas que podem sempre voltar a essa imensidão abismal, no dia do nosso último folego, da nossa última memória. A fractura é a porta do abismo em que habitamos e para o qual voltamos, o gelo é a nossa possibilidade de criarmos um significado por cima desse abismo até que ele nos engula. E o amor, esse é a força que mais nos faz querer aquecer esse solo gélido e escorregadio que é a existência, sem sequer pensar que a sua completa dissolução significa o nosso único e verdadeiro fim.

RealizaçãoMichel Gondry
ArgumentoCharlie Kaufman, Michel Gondry
ElencoJim CarreyKate WinsletTom Wilkinson
EUA/2004 – Comédia/Drama
Sinopse
: Um casal tenta recuperar a sua relação apagando as más recordações do passado, através de uma técnica inovadora, mas algures a meio do processo as coisas complicam-se.

«O Despertar da Mente» - O amor como vitalidade da memória
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