Há uma era que se aproxima do fim quando morre David Bowie. Pensar na sua obra, por si só, inspira reverência. Para além do que o próprio fez, é curioso constatar a influência que teve na esmagadora maioria dos músicos que mais admirei… foi o pai deles todos.

Esta manhã, na ressaca da triste notícia, alguém na rádio se propunha deslindar até que ponto Bowie tinha marcado pessoas para lá da sua geração. Um desafio com diminuto grau de dificuldade – pensei de imediato. São raros os artistas que como ele alteraram a paisagem da cultura popular com tal abrangência e impacto, e até aqueles que o desconhecem, se nasceram após os anos 60, habitaram num mundo por ele tocado. Viram, leram e ouviram não só o que Bowie criou, mas também foram vitimas das ondas que espalhou e se ramificaram em obras de músicos, escritores, performers e realizadores provenientes dos mais diversos quadrantes. A esta diversidade não será alheia a que o próprio cultivou, tendo tido uma vida de permanente reinvenção e descoberta, sem medo de explorar, homenagear, até mesmo de se apropriar das várias belezas com que o mundo o confrontou. Tudo isto visto por uma lente que com o tempo se foi refinando, sem nunca se tornar cobarde ou subserviente, com essa capacidade de nos surpreender, maravilhar e dar corpo à estranheza que se entranha.

Não são “apenas” os 27 álbuns que nos deixa, o seu ímpeto criativo alastrou pelas mais diversas formas de expressão artística, e entre elas inevitavelmente figura o cinema. Como tantos outros, dá os seus primeiros passos na curta-metragem, participando em 1967 em “The Image”. Na década seguinte aterra no primeiro papel de grande destaque no filme de culto “The Man Who Fell to Earth” (1976) de Nicolas Roeg, baseado no romance de Walter Tevis publicado em 1963 – 1963 – época em que David Robert Jones estava ainda a ensaiar os primeiros movimentos no mundo da música, tentando libertar-se das amarras de uma Inglaterra cinzenta, a digerir os cruéis efeitos da segunda grande guerra.

Entre os dois filmes, mais precisamente em 1973, o documentarista e pioneiro do cinema directo D.A. Pennebaker – que havia já realizado o lendário “Dont Look Back” (1967) com Bob Dylan – regista a ultima noite da tour Alladin Sane, base do documentário “Ziggy Stardust And the Spiders from Mars”.

CHRISTIANE F., David Bowie, 1981. Credit: New World Pictures/Everett Collection

Em 1981, já como símbolo incontestado e porta voz de uma geração perdida entre o inexorável progresso das selvas de betão e da acessibilidade sem precedentes de custosos paraísos artificias, abre a primeira cortina da adaptação de Uli Edel de um dos mais emblemáticos livros da década – o autobiográfico “Wir Kinder vom Bahnhof Zoo” de Christiane F. O filme, com uma brilhante interpretação da muito jovem Natja Brunckhorst, permanece como um dos mais crus e pungentes retratos do universo da toxicodependência juvenil alguma vez realizados. Bowie a fazer de Bowie, contribuindo para o valor documental desta realidade ficcionada.

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Dois anos depois, brilha na co-produção Anglo-Japonesa “Merry Christmas, Mr. Lawrence” do visionário Nagisa Oshima e contracena com Catherine Deneuve, interpretando o vampiro John em “The Hunger” de Tony Scott – um dos filmes mais originais e subvalorizados do género.

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Retorna em força ao grande ecrã com um papel de destaque no clássico da ficção kitsch dos anos 80 “Labyrinth” de Jim Henson, onde interpreta o papel de Jareth, the Goblin King.

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Se a década começara na escura Berlim de uma juventude refém da heroína, em 1986 Bowie torna-se um rosto familiar para crianças de todo o mundo, numa das acções mais criticadas e arriscadas da sua carreira.

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Em 1988 encarna Pôncio Pilatos, no polémico “Last Temptation of Christ” de Martin Scorsese, e em 1992 assume um breve, mas marcante papel, em “Twin Peaks – Fire Walk With Me” de David Lynch. Os caminhos do realizador americano e Bowie viriam a cruzar-se novamente, através do magistral tema “I’m Deranged”, hoje indissociável de “Lost Highway” (1997), uma das obras maiores de Lynch.

Das participações, que se foram tornando cada vez mais fugazes, destacam-se as interpretações de duas personalidades históricas, que não obstante as distâncias que os separam no tempo e no plano de acção, permitem identificar intercepções com a natureza e percurso do próprio Bowie – Andy Warhol em “Basquiat” (1996) de Julian Schnabel e Nikola Tesla em “The Prestige” (2006) de Christopher Nolan.

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A passagem de Bowie pelo cinema pode não ter sido tão resplandecente quanto na música, mas também na sétima arte deixou a sua marca indelével.

O criador sempre encontrou no plano visual um intenso canal de expressão, e se nos poderíamos aventurar por diversos exemplos de clips de referência (que abriram também eles caminho a muitas correntes estéticas que proliferaram na pop), deixamos a nossa atenção recair sobre o críptico “Blackstar” de Johan Renck, lançado a 19 de de Novembro de 2015 – uma curta-metragem plena de simbolismo que anunciava já que à semelhança de Mozart, também Bowie havia escrito o próprio Requiem, transformando a passagem na sua derradeira obra de arte.

A profundidade e diversidade do seu trabalho gravou no tempo o som e a fúria, o zeitgeist que soube sempre como ninguém agarrar e do qual a certa altura se tornou ele próprio um agente – um bardo a distribuir lanternas por estas décadas labirínticas, de velocidade vertiginosa. Este é um momento de respeito e gratidão, que nos lembra do potencial do ser humano para a grandeza, para criar beleza e deixar o mundo um pouco – ou talvez muito – diferente do que o encontrou. É também um momento que nos confronta com a morte lenta de uma indústria, que com a leviandade de quem inventa diariamente falsos ídolos e vota a palavra génio à insignificância do vazio e da mentira, se esquece que eles não têm que ser inventados por marketeers ou agências de comunicação. Os génios existem mesmo, e Bowie foi um deles. Até sempre.

Texto escrito por José Alberto Pinheiro

realizador e professor do ensino superior