É difícil pensar o erotismo — sobretudo quando representado no cinema — sem tropeçar em preconceitos, moralismos e categorias estéticas gastas. O corpo nu, o prazer encenado, o desejo exposto: tudo isto continua a ocupar um lugar incómodo na tradição audiovisual brasileira, oscilando entre a vulgarização e a idealização. Por isso mesmo, o lançamento da plataforma Fever Films, ocorrido no passado dia 5 de Maio, em São Paulo, representa um acontecimento que merece atenção — não apenas pelas intenções que proclama, mas pelas questões que levanta.
Idealizada por Victória Schwarzelühr — mais conhecida como Dread Hot, actriz, produtora e realizadora com vasta trajectória no sector — a plataforma apresenta-se como uma tentativa de resgatar a dignidade simbólica do cinema adulto, propondo um novo imaginário para a pornografia brasileira. Simultaneamente, procura tensionar os limites entre ética e mercado, liberdade sexual e responsabilidade estética.
A proposta da Fever Films é ambiciosa: filmes com narrativas roteirizadas, direcção de fotografia cuidada, bandas sonoras originais, diversidade de corpos e orientações, contratos transparentes e ambientes de trabalho seguros. Em termos formais, não se trata de uma inovação tecnológica disruptiva, mas sim de uma mudança de postura simbólica e política. É uma declaração: o erotismo pode — e deve — ser pensado com complexidade, e não apenas como produto de consumo.
O erotismo, como já afirmava o escritor francês Georges Bataille, “é o apelo ao interdito”. E, nesse sentido, talvez seja mais radical tratar a sexualidade como linguagem do que como espectáculo. A pornografia hegemónica, amplamente colonizada por algoritmos, interesses comerciais e uma lógica falocêntrica do prazer, pouco ou nada dialoga com a pluralidade das experiências sensuais e afectivas. O que a Fever propõe, nesse sentido, é mais uma contra-narrativa do que uma negação desse sistema: um cinema erótico possível que não abdique do prazer, mas que o reconfigure.
Durante o evento de lançamento, performances ao vivo de práticas BDSM, como o shibari e o wax play, evidenciaram o cuidado com os temas do consentimento e da escuta entre corpos. A exibição de filmes como “BE ON FEVER: An Immersive Genesis” não foi apenas uma provocação estética, mas também política: uma tentativa de reconstruir o olhar do espectador perante a nudez e o desejo. No entanto, estas estratégias também podem ser lidas com reservas. Até que ponto estes elementos performáticos não resvalam para uma estetização que, embora mais “sofisticada”, continua a vender os mesmos fetiches de sempre?
Não se trata de negar o valor da proposta, mas de reconhecer os riscos de idealização. Toda tentativa de “limpar” o erotismo da sujidade da pornografia tradicional carrega consigo um certo elitismo estético — um desejo de redenção que nem sempre considera os múltiplos modos de fruição e produção do desejo. Em outras palavras: se existe um público para a pornografia popular, com as suas repetições e fórmulas, por que razão esse público seria “menos legítimo”? E como equilibrar a sofisticação estética com a acessibilidade comercial?
A filósofa norte-americana Judith Butler, nos seus estudos sobre performatividade, lembra-nos que toda identidade é construída por repetição, mas também por ruptura. O cinema adulto, enquanto linguagem e prática, precisa de operar nestes dois registos: reconhecendo os seus vícios estruturais, mas também abrindo espaço para novas dramaturgias do corpo. A proposta da Fever Films parece consciente disto. Ao reunir nomes como Julianna Santos, Pauli BixaPuta e Mário Filho numa roda de conversa, a plataforma deixa claro que não quer falar apenas sobre prazer, mas também sobre política, género, raça e mercado.
Mas também é importante não endeusar os seus criadores, nem supor que haverá uma revolução silenciosa no campo audiovisual. A indústria pornográfica é historicamente violenta e exploratória, e a sua reconfiguração ética exige mais do que boas intenções e design elegante. Exige estrutura, continuidade, fiscalização e, sobretudo, escuta — não apenas dos intérpretes e realizadores, mas também do público e da crítica. Estará o espectador, viciado na velocidade dos cliques e nos estereótipos visuais, preparado para outro tipo de erotismo?
No fundo, o que está em jogo aqui é uma disputa pelo imaginário. Como afirma a crítica de cinema britânica Laura Mulvey, o cinema sempre foi um campo de tensões entre o olhar activo e o corpo passivo. A pornografia tradicional reforça esta dicotomia. O cinema erótico, se quiser escapar dela, precisa de mais do que boas câmaras e bandas sonoras: precisa de escavar os modos de olhar, os gestos de escuta e os afectos não-ditos. A Fever Films, ao que tudo indica, sabe disso. Mas o seu desafio está apenas a começar.
O corpo, afinal, nunca é neutro. E talvez o maior mérito da plataforma resida precisamente aí: no reconhecimento de que o prazer, o trabalho, a performance e o desejo são atravessados por camadas sociais, políticas e simbólicas. É nesse cruzamento que o cinema erótico pode, quem sabe, deixar de ser um gueto ou um tabu e assumir, de facto, o seu lugar na cultura — como linguagem do possível, do instável e do humano.

