Tal como as personagens de Wim Wenders em “O Estado das Coisas”, vivemos tempos suspensos no tempo. Há quem diga que isto parece um filme. Sim, a realidade tornou-se finalmente espelho da ficção. Estamos submersos e em fluxo descontínuo. Nesta espera, há tempo para pensar, para refletir e desejar que o tempo volte com a promessa de dias melhores.

Não há, no entanto, memória de um cenário assim, com toda a indústria cinematográfica paralisada, com salas de cinema encerradas, sem estreias. Muitas salas não vão conseguir reabrir no final desta pandemia. Se a forma como vemos cinema estava já em transformação, 2020 vai deixar uma forte marca nessa mudança. O público vai menos ao cinema e procura conteúdos noutros ecrãs (mais pequenos). 

Claro que continuarão a existir salas de cinema e os filmes vão continuar a estrear em sala, mas o streaming é o futuro e, depois da pandemia, haverá muitos mais filmes que vão optar por essas plataformas digitais. Cada vez mais, as salas de cinema precisam de se reinventar se se quiserem manter abertas. Precisam de criar grandes eventos à volta das estreias e garantir uma experiência única aos espectadores. Grandes estreias, ciclos de cinema, conversas com realizadores e elenco e maratonas são exemplos do que já algumas salas de cinema têm vindo a fazer para se manterem vivas e dinâmicas. 

O regresso à normalidade vai ser lento, vai levar tempo e, até lá, será preciso continuar a procurar alternativas para exibir filmes.

Convidámos Luís Urbano, da produtora O Som e a Fúria, para analisar estes tempos inéditos em que vivemos.

C7A: Como é que a produtora está a lidar com os efeitos da pandemia na produção cinematográfica?

Luís Urbano: Tentando não interromper a sua atividade. Para os projetos em desenvolvimento (são vários), é preciso manter todas as atividades que podem ser desenvolvidas em confinamento, como dar seguimento a candidaturas a financiamentos públicos, manter contactos com investidores e entidades privadas, avançar com escrita de guiões, etc. Nos projetos que estavam para entrar em produção – “Selvajaria”, de Miguel Gomes; “Tout le monde aime Jeanne, de Céline Devaux; “Índia”, de Telmo Churro; “Ouro & Cinza”, de Salomé Lamas – tivemos de adiar sine die, na expectativa de que as condições sanitárias possibilitem o momento de preparação e rodagem e que as equipas escaladas para eles (técnicos e atores) se aguentem. Nos filmes em pós-produção – “Hotel Royal”, curta-metragem de Salomé Lamas; “Pedro”, de Lais Bodanzky; “Oso”, curta-metragem de Bruno Lourenço – avançam na medida do possível para os concluir. No caso de “Oso”, a curta foi filmada em 16 mm e o laboratório de revelação e telecine é em Bucareste, na Roménia, e está fechado por causa do estado de emergência lá. Há ainda os filmes finalizados, “Um Animal Amarelo”, de Felipe Bragança, e “Patrick”, de Gonçalo Waddington, cuja estreia comercial em sala está adiada.

C7A: Sentem que estão a ter apoios suficientes por parte do Estado para distribuir e exibir os seus filmes?

LU: Nesta altura, o mais importante é socorrer os técnicos e atores de cinema, bem como todos os que trabalham no setor da cultura que estão sem trabalho e sem acesso a proteção social normal. Essa é a grande questão e aí o estado, o Ministério da Cultura, terá de ter uma ação concreta que seguramente não passa por iniciativas da Sra. Ministra como o TV FEST!

C7A: Passaram as plataformas de streaming, decididamente, a ser os canais principais de exibição?

LU: As plataformas de streaming eram já uma possibilidade de espaço de difusão principal dos filmes, sobretudo no mercado anglo-saxónico. No entanto, para ser um espaço eficaz necessita sempre de uma janela inicial, um cartão de visita, que passa pela exibição em sala. Veremos como as coisas se desenrolam nos próximos tempos, mas nesta fase considero-as uma prioridade para relançar filmes que recentemente estreei em sala, como o “Technoboss”, de João Nicolau (Na Filmin e VOD a partir de 21 de abril), “O Filme do Bruno Aleixo”, de João Moreira e Pedro Santo (data a anunciar em breve), “Il Sogno Mio d’Amore”, de Nathalie Mansoux e Miguel Cabral (igualmente com data a anunciar em breve) e “Viveiro”, de Pedro Filipe Marques (também este com data a anunciar em breve).

C7A: Como vê o futuro face a uma nova crise económica?

LU: Vejo o futuro com inquietação, mas com energia suficiente para lutar por ideias firmes e diferentes que nos levem mais à frente.