A magia do cinema é a sua simplicidade. Numa plataforma onde quase todas as outras artes são fundidas para criar algo que nos deslumbra, por vezes é a pura simplicidade de uma sugestão que nos transporta para mais longe no espaço imaginári. “O Interminável”, da jovem mas já experiente dupla composta por Justin Benson e Aaron Moorehead, faz parte dessa ideologia da simplicidade sugestiva: seduz o espectador a querer saber mais, a deixar-se envolver, apenas para lhe trocar as voltas, obrigando-o a repensar as suas expectativas.

No que toca à narrativa, o filme centra-se nos irmãos Justin e Aaron (interpretados pelos próprios realizadores) dez anos depois de terem abandonado o culto religioso no qual passaram a sua infância. A viver num permanente estado de pobreza, Justin vê a sua luta diária como um privilégio e consequência da liberdade que conquistou, enquanto que Aaron, mais jovem, mantém fortes memórias dos bons tempos passados no seio do culto. Após a chegada de uma misteriosa cassete de vídeo com uma mensagem preocupante, ambos decidem voltar ao acampamento, mais por insistência de Aaron, para confirmar se todos estão bem. É a partir daqui que tudo descamba e ambos têm de encontrar as respostas para os seus problemas, bem como de aprender a respeitar as suas identidades individuais dentro da dupla que formam. Pelo meio há ainda fenómenos estranhos como duas luas no céu, caminhos que se expandem a direito por quilómetros apenas para acabar no mesmo sítio, indivíduos estranhos a vaguear pela floresta, um soldado da guerra civil americana e o crescente sentimento de controlo externo e amorfismo da vontade.

O filme mistura terror com ficção científica, com toques de thriller, um pouco de coming of age e uma saudável dose de inspiração na obra de H.P. Lovecraft. Obviamente sem orçamento para grandes brilharetes em termos de efeitos especiais, os realizadores vão buscar força e inspiração aos medos mais primordiais do Homem para elevar o seu “pequeno” filme, tal como já tinham feito, aliás, nas suas duas últimas longas-metragens: o sólido “Resolução Macabra” (2012) e o brilhante “Spring” (2014). No entanto, a evolução técnica em termos cinematográficos e de montagem faz com que “O interminável” sobressaia em relação aos dois últimos.

Quanto ao elenco, a multiplicação de tarefas parece não ter afetado o trabalho de interpretação de Justin e Aaron e o elenco secundário acaba por acentuar o desempenho dos atores principais.

“O Interminável” é mais uma daquelas joias do cinema independente que merece a atenção do público. A realização é engenhosa, a banda sonora hipnotiza e as interpretações são criativas e eficazes. 

Realização: Justin Benson, Aaron Moorhead
Argumento: Justin Benson
Elenco: Justin Benson, Aaron Moorhead, Callie Hernandez, Emily Montague, Lew Temple, Tate Ellington, James Jordan
EUA/2017 – Drama, Terror, Thriller
Sinopse: Justin e Aaron recebem uma mensagem misteriosa que os leva a visitar o culto do qual escaparam quando eram crianças. Quando começam a ocorrer eventos e fenómenos perturbadores, os irmãos são forçados a perguntar-se se as crenças do culto sobre o sobrenatural poderão afinal não ser totalmente inventadas e se, agora que regressaram, conseguirão voltar a escapar. Justin Benson e Aaron Moorehead, criadores dos aclamados filmes “Resolução Macabra” e “Spring”, realizam e protagonizam este conto “Lovecraftiano” acerca de irmandade, perda de autonomia e o mau hábito que a História tem de se repetir.

«O Interminável» - Um brilharete Indie e Lovecraftiano
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