«O Pai» – Prisioneiros de um pensamento estagnado

Anthony [Hopkins] é o rei convicto e vaidoso que habita num castelo de cartas. Contudo, o seu magnifico palácio, a fortaleza que albergaria a sua suposta solidão, é uma arquitetura em vias do seu desabamento. Triste e cruel destino em que a queda livre de um homem glorioso acontece em movimentos lentos como se o tempo desfibrasse, decompondo-se, para se tornar num labirinto de ilusão. A anterior habitação onde esta realeza residia com tamanho fulgor converte-se num enclausuramento, e quiçá, num castigo divino.

É sabido pelo próprio Florian Zeller, dramaturgo francês que se vira para o cinema numa auto-adaptação de “O Pai” (recordamos que a peça passou em Portugal, em 2016, no Teatro Aberto, tendo como protagonista João Perry), que Anthony Hopkins sempre foi a chave deste projeto, pelo que o “perseguiu” até por fim, este ceder. Assim, o ator acabaria por integrar o papel do “monarca” amaldiçoada numa “praga” mundana, mas nem por isso menos desumana.

A demência toma conta deste ancião, e o filme, “encolhido” no seu interior (ou diríamos melhor, interiores) tende em providenciar ao espectador um simulacro sensorial dessa prisão de espelhos invertidos. Desta forma, por vias de uma montagem engendrada por Yorgos Lamprinos e de um incoerente jogo de aparências e enganos, onde caras familiares tornam-se perfeitos desconhecidos, eventos sucedem às suas reproduções, variações e representações, entendendo que o tempo não é bom companheiro para Hopkins, aliás, matreiro e jocoso na sua arte. O relógio que nos poderia indicar a saída redentora do nosso “glorioso homem” é também um instrumento de tortura, os episódios que se amontoam por vias do objeto requisita essa metafísica neurológica, a demência como entidade espacial e temporal ao invés de relato.

Nesse sentido, e talvez tendo em conta as comparações tidas com outras narrativas de “velhice” (o Cinema, que com tantas declarações de óbitos obtivera, possui desde então legitimidade e maturidade para abordar a derradeira fase das nossas vidas), separa-se de “Amor”, do austríaco Michael Haneke, pela sua ostentação e no cerco formado envolta do espectador, o testemunho silencioso. Enquanto um debate-se numa relação exterior e indireta com a alienação, dando asas para sugestões, silêncios inquietantes e gestos economizados que transbordam loucura, este “O Pai” espaceja um palco direto para a última performance sóbria do gasto corpo e mente insana, nunca escondendo a sua ostentação, como um nobre monarca que nega a sua despromoção na hierarquia.

Não é preciso afirmar o quanto “gigantesco” está Hopkins neste infinito tormento, porém, é a abordagem de Zeller a sequenciar um terror fechado e de sintomas psicológicos que a obra atinge algo mais que a somente intenção de “filme de atores”. Sim, mais do que somente Óscar ver.

«O Pai» – Prisioneiros de um pensamento estagnado
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