Lebanese movie director and actress Nadine Labaki is seen on the set of her new movie Capharnaüm in Beirut on January 26, 2017. Capharnaum is part of the 2018 Cannes film festival official selection. / AFP PHOTO / PATRICK BAZ (Photo credit should read PATRICK BAZ/AFP/Getty Images)

O passado no coração

Depois de a realizadora Nadine Labaki ter sido escolhida para presidir ao júri no “Un Certain Regard”, um programa em paralelo ao Festival de Cannes, e numa altura em que tem recebido imenso reconhecimento, numa entrevista recente, a realizadora admitiu, a respeito do seu passado e daquilo que a motivou a seguir o mundo da sétima arte: “na minha infância, ficávamos por casa, não podíamos sair, brincar, não podíamos experienciar verdadeiramente a vida como devíamos. Ou seja, a televisão começou a ter um papel muito importante na minha vida: ver filmes permitiu-me escapar da minha própria existência e infância”.

Abordando uma questão fraturante, salientou o que a motiva a contar uma história: “comecei a querer fazer parte deste mundo, a querer criar histórias que me permitissem escapar e viver a vida de outras pessoas. Talvez porque eu queria escapar da minha própria realidade”. Explicou, ainda, de que forma é que cada processo nasce na sua cabeça e começa a fazer sentido: “normalmente o que vem primeiro é o tema, antes de tudo. Antes da história, da caracterização, é uma obsessão do momento, que começa a ser recorrente, a vontade de falar de algo tão específico. E depois torna-se numa história, numa necessidade.

Segundo ela, e a respeito da essência paradoxal de uma obra-prima cinematográfica, o objetivo passa por perceber, na caracterização, porque é que isto é tão contraditório, entre o que a personagem quer ser, o que aspira a ser e o que ela se permite ser. Devido à pressão social, à forma como as pessoas te vêem, etc”. Admitiu, também, o impacto involuntário, e por vezes inconsciente, que o mundo exterior consegue ter, indiretamente, nas suas criações: “ao ficar fascinada com algumas personalidades, percebo depois que fui de facto inspirada por elas, por uma pessoa que eu conheço, sem o saber, enquanto escrevo o guião: às vezes começo a imaginar uma personagem, mas tu não sabes de facto que a estás a criar a partir das tuas próprias experiências passadas, das pessoas que tu conheces”.

A título de desfecho, enfatizou aquilo que a motiva a sair da sua zona de conforto intelectual e a ir mais além, transcendendo as suas fronteiras de pensamento e a olhar para o mundo com outra profundidade: “às vezes eu escrevo coisas como uma espécie de terapia: para mim é como querer sair de mim para entender a vida e depois regressar. E depois sigo em frente”. É essa capacidade de seguir em frente que permite aos grandes artistas chegar ao coração de todos, através de uma resiliência que ultrapassa marés e quebra todas as barreiras, medos e receios, rumo ao propósito fundamental: fazer cinema, com arte e, sobretudo, com o coração.