“O Piano”: 30 anos do épico meticuloso de Jane Campion

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A neozelandesa Jane Campion começou a ganhar destaque internacional com o filme “Um Anjo em Minha Mesa” (1990). Contudo, foi em 1993, quatro anos depois, que ela alcançou o sucesso e notabilidade com sua obra-prima, “O Piano”. O filme lhe rendeu o prestigioso prémio do Óscar de Melhor Argumento Original e uma merecida nomeação ao Óscar de Melhor Realização, em 1994.

 

Jane Campion

Nas obras de Campion, podemos observar a recorrência de temas e elementos que as moldam.

Entre eles, destacam-se as adaptações de densas obras literárias, o explorar do erotismo, a análise do impacto do poder nas relações sociais entre homens e mulheres, os conflitos geracionais no seio familiar, a desconstrução simbólica das relações sociais, personagens lidando com opressão e abuso psicológico, a presença marcante da natureza e paisagens como expressões emocionais e os espaços vazios que surgem com as transformações.

 

A meticulosidade de Campion é evidente em todos os aspectos de sua produção, revelando sua busca pela perfeição. Ela demonstra critérios exigentes na parte técnica de seus filmes, dedicando especial atenção à fotografia, direção de arte, figurino e música. Essa abordagem atenta contribui para a criação de uma estética visualmente deslumbrante e uma experiência sensorial envolvente.

Até o momento, Campion já realizou oito longas-metragens, sendo o mais recente “O Poder do Cão”. Muitos desses filmes também foram escritos, coescritos ou adaptados por ela.

 

O Piano

Situada na Nova Zelândia do século 19, a trama retrata o casamento de Ada com um fazendeiro, Sam Neill, com quem nunca havia tido contato anteriormente. No entanto, o ponto central da história é o triângulo amoroso entre Ada, Baines e Stewart, no qual um piano age como intercessor. O instrumento criado por Bartolomeo Cristofori age como um portal, permitindo que Ada se conecte não apenas consigo mesma, mas também com os outros personagens envolvidos no intricado triângulo amoroso.

 

Dessa forma, a trama se desenrola como uma sinfonia, onde os sentimentos, as relações e os conflitos se entrelaçam de forma harmoniosa e densa. O piano, como mediador, testemunha e participa dos altos e baixos dessa história de amor complexa. Ele exerce um papel chave na resolução dos conflitos, revelando a profunda e transformadora natureza da música na vida de Ada e na narrativa como um todo.

 

Para Campion, a mudez de Ada vai além de uma simples deficiência pessoal, simbolizando a impossibilidade da mulher se expressar através das palavras. A música se torna um refúgio, uma forma de driblar a opressão de um universo masculino fechado à compreensão da feminilidade.

Nesse ínterim, a escolha de ambientar o filme em uma Nova Zelândia ainda em fase de colonização não é mera coincidência. A rusticidade do local proporciona o cenário ideal para Campion desenvolver sua temática de forma magistral.

Os Óscares

Em 1994, na 66.ª edição dos Óscares, Campion tornou-se a segunda mulher a ser nomeada na categoria de Melhor Realização pelo épico “O Piano”. Essa indicação ocorreu quase 20 anos depois da primeira nomeação de uma mulher nessa categoria. A pioneira foi Lina Wertmüller, que foi nomeada em 1976 pelo filme “Pasqualino Sete Belezas”. Felizmente, nos últimos anos, tem havido uma representação melhor das mulheres nessa categoria.

Na ocasião, Holly Hunter recebeu o Óscar de Melhor Atriz por sua interpretação sólida e intensa de Ada McGrath, uma jovem viúva muda.

 

Além da premiação de Holly Hunter, a produção conquistou também o Óscar de Melhor Argumento Original, para Jane Campion, e o de Melhor Atriz Secundária, entregue a Anna Paquin. “O Piano” ainda recebeu indicações em diversas outras categorias, incluindo Melhor Filme, Realização, Fotografia, Montagem e Guarda-roupa.

 

Essas conquistas são ainda mais notáveis quando consideramos que a Nova Zelândia tem uma tradição cinematográfica relativamente modesta. Em grande parte, esses sucessos são atribuídos à sensibilidade com que Campion trabalhou os elementos em seu quarto longa-metragem.

Visão da crítica

Em crítica publicada em 2013 no site Plano Crítico, Sidnei Cassal fez uma análise sobre o filme “O Piano” e destacou o talento e sensibilidade de Campion, bem como sua habilidade extraordinária em conduzir os atores e a parte técnica do filme, tornando-o um clássico moderno.

Cassal ressaltou a fluidez narrativa extraordinária do filme, que transborda beleza, elegância e sofisticação visual em cada plano e sequência. Algumas imagens específicas, como a de um piano de cauda em uma praia deserta ou o furo na meia de Ada, exploram referências aos clássicos do cinema mudo, como “Aurora” (1927), de Murnau ou “O Atalante” (1934), de Jean Vigo. Essas imagens têm o poder de se expressar por si mesmas.

 

Cassal também destacou que em “O Piano”, Campion ousa subverter a ordem da escola clássica em relação à edição das imagens. Em vários momentos, um plano de detalhe só se torna compreensível quando seguido por um plano geral, criando um certo estranhamento.

Por exemplo, vemos várias mãos no ar e, alguns segundos depois, entendemos que são os nativos carregando a carga e os passageiros que chegaram à praia. Essa abordagem, de certa forma, nos permite sentir a experiência vivida pela personagem em uma terra estrangeira.

Por sua vez, em um artigo publicado em 2019 no Cinemascope, Rafael Ferreira reforçou a importância da representatividade feminina no cinema através da condução de Campion em “O Piano”. Ele reconheceu a existência de desigualdade de género nesse contexto, mas ao revisitar o filme, não pôde deixar de incluir Jane Campion em sua lista de melhores realizadores, independentemente do sexo.

Por fim, de forma mais pessoal, o jornalista compartilhou que guardou um pôster do filme por muitos anos porque ele o marcou profundamente. Ele mencionou que “O Piano” foi possivelmente o primeiro filme com nudez que ele assistiu, mas isso não foi o que o impactou.

Em vez disso, foi a capacidade do filme, mesmo quando ele tinha apenas dez anos, de permitir-lhe compreender melhor as relações humanas e as motivações de cada personagem. Conforme ele cresceu, pôde compreender ainda mais o subtexto do filme, e, combinando esses elementos, assim como eu, Ferreira considera “O Piano” uma obra completa e significativa.

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“O Piano” estreou em Portugal a 8 de outubro de 1993 e a 3 de setembro do mesmo ano no Brasil. A Nitrato Filmes repõe o filme nas salas nacionais a partir de 14 de dezembro.

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