Já faz algum tempo que não assistia a um filme que conseguisse afirmar o cinema do seu realizador de forma tão reveladora, apesar de o fazer de forma subtil, e isto logo no plano de abertura. É no enquadramento, nos jogos de luz e sombra e, em particular, no silêncio das personagens que Salaviza conta a sua história. Penso, por isso, que se justifica restringir esta análise à cena que eu considero ser a mais exemplificativa do estilo de Salaviza.

“Montanha” vive de segredos, do que fica por dizer, de incertezas. Enfim, da adolescência, o grande tema de Salaviza. O filme conta a história de David, um adolescente que vagueia por Lisboa enquanto ele e sua mãe esperam notícias do seu avó, que se encontra hospitalizado em estado grave.

A premissa de “Montanha” é simples, o que o torna fascinante é a forma como a câmara de Salaviza, o trabalho exemplar de David Mourato, o silêncio e os jogos de luz assumem uma presença documental, de um realismo cru, distante, impondo uma sensação de incerteza que envolve toda a narrativa.

No primeiro plano, observamos David (David Mourato) deitado sobre a cama com as costas voltadas para a câmara, para nós, e é-nos impossível resistir à tentação de romantizar o seu corpo e compará-lo, simbolicamente, à montanha que dá o título ao filme. O fim da adolescência e o próprio David são essa montanha, o Golias que David tem de superar. A luz que o envolve reforça a escuridão imensa e sufocante à sua volta como um presságio de morte. A sua mãe (Maria João Pinho) deita-se ao seu lado e questiona David sobre o seu paradeiro na noite anterior. “Por aí”, reponde David. São estas breves palavras que rompem o silêncio do plano. A ausência de qualquer banda-sonora amplia esta presença da morte de uma forma que seria impossível imaginar com música. E é quando David se levanta com metade do seu corpo para lá do frio olhar da câmara, do nosso frio olhar, imóvel e intransponível, que percebemos que tão cedo não voltamos a ver uma cena como esta. 

São estes pormenores, o rigor, a convicção e a força crua do cinema de Salaviza que confirmam, se é que ainda havia margem para dúvidas, que ele é mesmo uma das maiores promessas do cinema português. 

Realização: João Salaviza

Argumento: João Salaviza

Elenco: David Mourato, Maria João Pinho, Carloto Cotta, Rodrigo Perdigão

Portugal/2015 – Drama

Sinopse: Um Verão quente em Lisboa. David, 14 anos, aguarda a morte iminente do avô, mas recusa-se a visitá-lo, temendo esta perda terrível. A mãe, Mónica, passa as noites no hospital. O vazio pela falta do avô obriga David a tornar-se o homem da casa. David não se sente pronto para assumir este novo papel, mas o fim da infância aproxima-se sem que ele se aperceba…

«Montanha» – O silêncio e a Luz
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