Uma rapariga curiosa no Castelo de Dux, na Boémia, em 1793, questiona seu professor, Giacomo Casanova, sobre sua reputação como sedutor (“e todas essas mulheres?”). Fatigado, o famoso mulherengo veneziano, que já pode ver sua morte a se aproximar (ele irá falecer cinco anos depois, aos 73) responde: “Cada uma foi a primeira e a última mulher para mim. Eu fiquei amigo de todas elas, excepto uma”.

É a história dessa excepção, tal como o próprio Casanova contou no seu livro de memórias “História da Minha Vida” em que o realizador francês Benoît Jacquot se baseou para sua nova longa-metragem (a 25.ª da carreira), “O Último Amor de Casanova”, que estreia nesta quinta-feira (22 de agosto).

Jacquot, de 72 anos, está bem à vontade ao dedicar-se à reconstrução do século XVIII (como já fez em “Adeus, Minha Rainha”) e em retratar uma dissimulada aristocracia inglesa, cheia de superficialidades e convenções. Neste aspecto, temos que reconhecer o grande trabalho realizado pelo director de fotografia, Christophe Beaucarne, que deixa tudo meio nublado e triste.

No entanto, será que precisamos de mais um filme sobre Casanova? Desde 1918 que o cinema proporciona diferentes ângulos das histórias do libertino. Algumas destas adaptações são: “O Moderno Casanova”, “A Grande Noite de Casanova”, “Casanova 70”, “A Iniciação Sexual de Casanova”, “Casanova de Fellini”, “As 13 Mulheres de Casanova”, “O Regresso de Casanova”, “História da Minha Morte”, “Variações de Casanova”… A nova obra de Jacquot aparecerá ali no meio, entre as piores e as melhores versões.

Relatado em flashback, o filme volta no tempo trinta anos para Londres, onde, após ter escapado da prisão Piombi, em Veneza, Casanova (interpretado por Vincent Lindon) vê-se já cansado, sem amigos muito próximos e incapaz de falar qualquer coisa em inglês. Ainda assim tem uma vida boa e se depara com Marianne de Charpillon (Stacy Martin), uma cortesã de 17 anos que, além de rejeitá-lo, também o teria arruinado.

Casanova fica obcecado por La Charpillon, que recusa seus avanços, mas o provoca sempre que possível (“sente-se ao meu lado, você parece tão rígido em sua poltrona”). Lá para o meio da narrativa, o argumento do filme parece que vai arrancar quando Casanova é obrigado a se comportar como “noivo” de Charpillon por duas semanas para ter o privilégio de ir para a cama com ela. O problema é que, além de politicamente incorrecto, o filme acaba por ficar sofrivelmente chato. Aquele cliché do “brincar ao gato e ao rato”, sem mostrar se este é um caso de manipulação cruel ou de um desejo de ser amado em correspondência, de repente revela-se numa situação obscura que aconteceu anos antes (eles se conheceram em Paris quando ela tinha 11 anos: “você era aquela menina?”).

Apesar da ótima Stacy Martin estar ali a forçar uma sensualidade de época, Vincent Lindon está visivelmente entediado (seria de propósito?), e assim deixa também o público. É uma pena que “O Último Amor de Casanova” tenha essa ausência de sentimento.

Realização: Benoît Jacquot
Argumento: Jérôme Beaujour
Elenco: Vincent Lindon, Stacy Martin, Valeria Golino
França/2019 – Drama/Romance
Sinopse
: Século XVIII. Casanova, conhecido pelo seu gosto do prazer e do jogo, chega a Londres, após ter sido forçado a exilar-se. Nesta cidade de que tudo ignora, encontra diversas vezes uma jovem cortesã, a Charpillon, que o atrai de tal forma que o faz esquecer as outras mulheres. Casanova está pronto para tudo para atingir os seus fins, mas a Charpillon esquiva-se sempre sob os mais diversos pretextos. Ela lança-lhe um desafio, quer que ele a ame tanto quanto a deseja.

«O Último Amor de Casanova» - o lado fatigado do famoso sedutor
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