“O Último Animal” – O bicho não pegou

"O Último Animal" (2023), de Leonel Vieira
"O Último Animal" (2023), de Leonel Vieira

Leonel Vieira é um nome incontornável do cinema comercial português. Foi ele que tratou de fazer os remakes das comédias portuguesas como “Leão da Estrela” e “Canção de Lisboa”. Foi ele que tratou de fazer o remake do “Crime do Padre Amaro”, tendo produzindo outras tantas séries portuguesas, contando também com um pé no Brasil. Sim, do outro lado do atlântico, o realizador, que passou por uma fase complicada durante a pandemia de Covid-19 com a sua empresa Volf Entertainment, conseguiu entrar num país que tem sido barreira persistente para os portugueses com o seu “O Último Animal”. Este drama de crime gira à volta de grandes empresários, capatazes e rapazes da favela. Alex é um estrangeiro no Rio de Janeiro que trabalha para o magnata Frank Martinez e casou com a sua filha. Ciro (Joaquim de Almeida) é o homem de negócios, dono de pequenos clubes de futebol a escolas de samba, que lucra com o famoso Jogo do Bicho, de apostas ilegais. Didi é o jovem aspirante advogado, com um irmão que lidera uma favela, chefe do morro. E, claro, Paulinha, personagem transexual, que aspira a ser cantora mas faz dinheiro a vender droga.

Ora, este thriller tem tudo: narcotráfico, corrupção, lotaria, homens e mulheres sujas, à procura do seu ganha pão. O universo de “Último Animal” não foge aos filmes do género, onde o poder masculino e as suas contrariedades morais fazem parte do plot principal. A cinematografia é também muito suja, a fazer lembrar outras obras marcantes como “Tropa de Elite” ou “Cidade de Deus”, como se a câmara, quase sempre oculta mas em movimento, fosse o polícia à espera de deter os criminosos. Ou mesmo outros filmes e séries do género, desde os filmes de Abel Ferrara ao “CSI” mas com um upgrade digital que nos transporta para uma espécie de Rio de Janeiro dos dias de hoje. Estamos perante o nível mais baixo de uma sociedade. O polícia corrupto, a prostituta que snifa cocaína, o estrangeiro que trai a mulher. Tudo é sujo. Luiz Carlos Merten, um dos mais conhecidos críticos de cinema brasileiro, chamou-lhe “O Poderoso Chefão de Leonel Vieira”. Já o realizador continua a dizer que fazer este filme foi muito difícil porque há muita resistência de ter um olhar estrangeiro sobre a realidade do Brasil. Ou seja, há em “Último Animal” uma clara intenção de fazer um statement, de fazer uma obra cinematográfica, que marque o discurso público e que inflija discussão na sociedade. Percebe-se que Leonel Vieira tenha tentado colocar a carne toda no assador e compreende-se – e, confesso, até se tende a aplaudir – que queira romper o mercado brasileiro.

O problema é estereotipar demasiado e estar preso à estética televisiva. Parece tudo direccionado para um produto e pouco para um filme em si. A fórmula é o que mais interessa. Já a retórica não bate com a prática. Leonel Vieira não precisava de parecer tanto “um estrangeiro” a filmar o Brasil. Perde-se demasiado tempo com personagens pouco sustentadas, como Alex e a mulher (o desempenho da atriz é sofrível) do que com Paulinha, que é, afinal, filha de Ciro, e se torna peça fundamental no desenrolar da acção, apesar de partir sempre num lugar inferior da hierarquia, nunca tem medo de enfrentar este universo masculino. E há resoluções que pouco se entendem, mesmo que a pesquisa para o filme tenha mostrado o contrário: Didi, tipo simpático, amável com a mãe, cheio de princípios, vira novo chefe do morro do dia para a noite depois da morte do irmão pelas mãos da polícia. É certo que podemos virar a boneca quando alguém próximo morre, mas, em ficção, fica coxo se não tiver outros pontos de ebulição à mistura. Joaquim de Almeida fica sempre bem a fazer de vilão, já tem uma carreira que o comprova. “Give me some respect, caralho!” fica para a história de 2023 como uma das linhas de diálogo mais engraçadas do ano. Ainda assim, esperava-se muito mais depois de tanta pompa e circunstância, além da narrativa de corrupção que todos sabemos que gira à volta do Rio de Janeiro. E de tantas outras capitais do mundo. O Brasil tem demasiado mundo para ser, outra vez, reduzido a isto. Não é que o cinema esteja obrigado a espelhar a realidade pura e dura, mas se é para abraçar um género, que seja para fazer algo original. Vale a pena tentar. Não?

"O Último Animal" (2023), de Leonel Vieira
“O Último Animal” – O bicho não pegou
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