Os 10 melhores filmes de 2012, por Eduardo Magueta

2012 foi marcado como um bom ano para o Cinema. Excelentes filmes saíram nas nossas salas, recordes de bilheteira foram quebrados, houve surpresas, desilusões, Arte e Super-Heróis…como eu disse, foi um bom ano. E agora chega a parte mais gira em que te temos que fazer a contagem final e eleger os nossos filmes favoritos, naquele que é um Top 10 que, eu pessoalmente, tento preencher com filmes que acho que têm qualquer coisa de especial tanto a nível técnico como artístico mas que têm também um grande carisma, sejam divertidos de ver e rever e nos causem satisfação quando os créditos finais começam a rolar. Pode não ser uma lista unanime, mas o que se segue é a minha opinião. Vamos então a esse Top 10 (filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2012):

 

"Martha Marcy May Marlene" (2012)_1

10º – Martha Marcy May Marlene (Martha Marcy May Marlene) de Sean Durkin (EUA)

Este filme acima de tudo mostra duas coisas:

1 – O Cinema Indie americano está em grande forma

2 – Existe não só uma outra irmã Olsen, como esta parece ter ainda mais talento que as suas irmãs gémeas.

O realizador estreante Sean Durkin juntou-se ao cinematógrafo Jody Lee Lipes e criou um dos filmes com melhor narrativa e melhor fotografia do ano, sem qualquer dúvida. Sem querer revelar muito a quem ainda não viu o filme (e acreditem que este é daqueles que quanto menos se souber antes de ver, melhor é a experiência) posso apenas revelar que a forma como uma narrativa que teria tudo para ser uma caricatura semelhante a tantas outras que caíram nas salas de cinema nos últimos anos acabou por ser uma narrativa incrivelmente perturbadora no sentido em que tanto nos faz sentir uma enorme tensão como apego pelas personagens e pelos locais onde se passa o filme, levando-nos por caminhos estranhos e confundindo-nos à medida que o filme se vai revelando à nossa frente. “Martha” está em 10º lugar na minha lista mas bem que poderia estar umas posições mais acima.

 

Hugo_6

9º – A Invenção de Hugo (Hugo) de Martin Scorsese (EUA)

Antes sequer de saber alguma coisa sobre a história do filme eu apenas tinha a informação que seria um filme de época, com toques de fantasia, filmado em 3D e realizado por Martin Scorcese. E se havia coisa que faltava no Curriculum do nosso velho amigo (e mestre) Marty era um filme familiar. E que filme que ele fez. Nos Óscares e restantes grandes competições perdeu apenas para “O Artista” (que curiosamente, decidi não colocar na minha lista de melhores filmes do ano) o que pode, apesar de se compreender a soberania do filme francês, causar algum desconforto tal a beleza e naturalidade do filme. A narrativa desenrola-se de forma muito simples e fluída, a interpretação dos actores praticamente não tem falhas, os cenários são fantásticos e a fotografia apresenta um dos melhores usos do 3D no cinema desde o Avatar (e sejamos sinceros, “Hugo” ultrapassa “Avatar” em tudo!). “Hugo” estreou em Portugal já depois de ter sido premiado na cerimónia dos Óscares e depois de muito tempo a ser divulgado pela  imprensa mas mesmo assim acabou por apanhar o público de surpresa com a sua beleza e simplicidade, tendo tudo o que um filme familiar deve ter de início ao fim.

 

"A Casa na Floresta" (2012)_1

8º – A Casa na Floresta (Cabin in the Woods) de Drew Goddard (EUA)

Não tenho muito a dizer para defender esta escolha para além de que, se há coisa que eu acho fundamental num filme é a diversão que nós sentimos ao vê-lho, e “The Cabin in the Woods” é uma verdadeira montanha-russa disfarçada de meta-filme de terror que se alimenta do próprio género onde se inclui para nos fazer rir e talvez mesmo para nos pregar alguns sustos pelo caminho. Para alguém que goste de ver filmes (particularmente filmes de Terror) com certeza que vai encontrar bastantes referências ao longo deste filme, desde piadas a referências visuais ou narrativas. Joss Whedon ajudou na criação e produção deste filme, e foi o seu “pupilo” Drew Goddard que se encarregou da realização, e ambos se garantiram que ninguém saísse da sala insatisfeito.

 

"ParaNorman" (2012)_2

7º – ParaNorman (ParaNorman) de Chris Butler, Sam Fell (EUA)

Este filme está na lista acima de tudo porque me acertou em cheio no coração; eu sabia qual era a temática do filme antes do ver mas no entanto à medida que a história se desenrola (e principalmente durante o primeiro acto) o filme gerou em mim uma total empatia e identificação. Isto tudo depois aliou-se à forma como o filme é feito (animação stop-motion) e filmado, sendo um dos melhores, senão mesmo o melhor filme do ano, batendo o próprio Tim Burton no seu próprio jogo das temáticas fantasmagóricas feitas em stop-motion. “Paranorman” apresenta-se em grande nível tanto a nível técnico e artístico como a nível narrativo, não sendo apenas um filme de animação para crianças mas um filme bem construído de inicio ao fim, com excelentes sequências de acção e cuja narrativa aborda questões que estão muito além das questões abordadas geralmente em filmes para crianças (por vezes tornando-se mesmo demasiado adulto).

 

"Argo" (2012)_2

6º – Argo (Argo) de Ben Affleck (EUA)

Filmes baseados em histórias verídicas podem ser bastante complicados de “vender”, mas Ben Affleck consegue criar uma narrativa cativante de inicio ao fim numa situação em que qualquer pessoa poderia antever o final do filme ainda antes deste começar. O sentido de humor em “Argo” é um dos seus ponto fortes num filme que tem como premissa contar uma história que apesar de verdadeira consegue ser incrivelmente bizarra, sobre um agente da CIA chamado Tony Mendez (Affleck) que cria um plano para retirar do Irão seis cidadãos americanos refugiados em casa de um diplomata canadiano. E o plano consiste em nada mais nada menos que criar uma falsa produção de Hollywood de modo a que Mendez possa fazer passar os americanos por membros de uma equipa que procura por locais para filmar um filme de Ficção-Científica chamado “Argo”… e como tudo neste plano foi pensado ao pormenor! Desde um argumento falso até adereços, orçamentos, tudo foi feito á boa e velha maneira de uma grande produção americana, pois nas próprias palavras do produtor Lester Siegel: “Se vou fazer um filme falso, então que seja um sucesso falso!”, o que acaba por ser a verdadeira essência deste filme: um pedaço de entretenimento mordaz criado a partir de uma situação caricata. Merece claramente um lugar no Top anual.

 

"A Vida de Pi" (2012)_2

5º – A Vida de Pi (Life of Pi) de Ang Lee (EUA)

Este filme é para mim a grande surpresa do ano. Ang Lee é um excelente realizador com qualidades comprovadas mas mesmo assim não estava à espera de ver o filme que vi no cinema. Apesar de “A Vida de Pi” se perder já perto do final numa busca por significado e lição moral, é a viagem dos dois primeiros actos que nos cativam e nos ficam na memória. É por isso aliás que o filme entra na lista, mesmo não sendo um dos filmes mais completos do ano, não tenho dúvidas que vai ser aquele que mais tempo vai perdurar na memória do público.

 

"O Cavalo de Turim" (2012)_2

4º – O Cavalo de Turim (A torinói ló) de Béla Tarr (Hungria)

Béla Tarr afirma que este é o seu último filme, o que a ser verdade acaba por ser uma excelente forma de se despedir da realização. O filme é sublime na forma como explora os silêncios, a sensação de melancolia, os planos longos e delicados, enfim, um excelente filme de um excelente realizador, uma bela obra alegórica a preto e branco e inspirada em Nietzsche sobre o Fim, o fim das coisas, o fim de uma carreira, o fim da vida, o fim do mundo, da humanidade...”O Cavalo de Turim” é claramente um filme que não se vê mas que se vive, saboreando cada pedaço dele.

 

"Moonrise Kingdom" (2012)_4

3º – Moonrise Kingdom (Moonrise Kingdom) de Wes Anderson (EUA)

Seria difícil para mim ver um filme de Wes Anderson e não o colocar na lista dos melhores filmes do ano. Sempre me proclamei como um seguidor ávido do trabalho deste que é um dos realizadores independentes americanos de maior sucesso e “Moonrise Kingdom” não desilude em nada, tendo o melhor que Anderson nos tem para oferecer, desde um elenco de luxo muito bem trabalhado e liderado pelos estreantes Jared Gilman e Kara Hayward até a fotografia típica do realizador, passando pela banda sonora ecléctica e humor simples e curto, que vai sempre direito ao assunto. No entanto tudo o que consigo pensar ao rever este filme é: O mundo seria bem mais interessante se tivesse sido criado por Wes Anderson.

 

"Holy Motors" (2012)_1

2º – Holy Motors (Holy Motors) de Leos Carax (França)

A minha medalha de prata tem mesmo que ir para este filme. “Holy Motors” é bizarro e absurdo. “Holy Motors” é complicado. “Holy Motors” é delicioso e divertido. “Holy Motors” é uma espécie de “Cosmópolis” em ácidos; mas acima de tudo, “Holy Motors” é uma ode ao cinema. Uma efígie à Sétima Arte como a nossa derradeira fábrica de sonhos. Leos Carax não fazia uma longa metragem à mais de dez anos (sem contar com o seu segmento do filme “Tokyo!”) e “Holy Motors” parece ser um filme com essa consciência, dividindo-se em vinhetas à medida que o actor Denis Lavant se desdobra entre diferentes vidas e nos leva para recantos que nós não nos atreveria-mos visitar sozinhos. Este é o tipo de filme que não é para qualquer espectador (em Cannes foi recebido num misto de vaias e aplausos) mas é sem dúvida um filme único e capaz de gerar comoção entre o público. E é isso que eu peço a um bom filme.

 

Vergonha (2011)_3

1º – Vergonha (Shame) de Steve McQueen (Reino Unido)

Para mim o melhor filme do ano, “Shame” foca-se na degradação emocional de um homem solteiro de meia idade a viver uma vida de luxo em Nova Iorque, uma espécie de Patrick Bateman entorpecido, levado à semi-loucura por um vicio que destruiu toda a sua capacidade para criar laços emocionais com as pessoas á sua volta. Isto tudo claro está filmado ao estilo de McQueen, com uma imagem bastante crua baseada em takes longos,  com poucos diálogos. Michael Fassbender faz um trabalho fantástico como o protagonista, Brandon, e Carey Mulligan cria não só uma excelente personagem (a irmã de Brandon, Sissy) como também uma cena que é para mim das mais poderosas do ano, cantando uma versão lenta de “New York, New York” num bar, destilando toda uma beleza banhada em frustração por liberdade capaz de nos querer fazer gritar.

 

E são então estes os meus filmes preferidos de 2012. Agora só nos resta esperar que 2013 seja tão bom como promete para poder voltar cá daqui a um ano com a mesma satisfação que tenho agora, e sensação de um bom ano de colheita cinematográfica.