Os 10 melhores filmes de 2014, por Tiago Resende

O balanço cinematográfico que faço de 2014, de uma forma geral, é que foi razoável. Na minha opinião, não houve muitos filmes que demonstrassem grande interesse e foram poucos os que me motivaram a ir à sala de cinema vê-los. Por outro lado, muitos dos filmes que me motivavam não foram vistos, ou por falta de tempo, ou por questões financeiras. No entanto, apesar de achar que este ano não teve uma das melhores colheitas cinematográficas, 2014 valeu pelo menos pelos dez filmes que apresento em baixo, ou nem que seja apenas pelas obras primas “Cavalo Dinheiro” e “Ida”. Ao contrário do que aconteceu com a lista de 2013, a deste ano inclui filmes portugueses. Dois. São eles “Cavalo Dinheiro”, de Pedro Costa, e “O Mar e a Mãe”, de Gonçalo Tocha. A História vista por vários olhares, por várias interpretações, é um dos aspectos que une alguns destes filmes do Top 10. Seja a revolução dos cravos, a 2ª Guerra Mundial ou a escravatura nos EUA. Assim como a família, a amizade e a identidade, são outros dos temas que se destacam. Ficaram por ver, infelizmente, filmes como “Mamã” de Xavier Dolan, “Ciúme” de Philippe Garrel, “E Agora? Lembra-me” de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, “A Praça” de Sergei Loznitsa, “Pontes de Sarajevo”, entre outros. Curiosidades à parte, cinco filmes deste Top 10 são de origem dos EUA e os restantes cinco são Europeus.

Esta é a minha lista (escolha pessoal) dos 10 melhores filmes de 2014, filmes que me tocaram, sensibilizaram e emocionaram de alguma forma (filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2014).

"Cavalo Dinheiro" (2014)_1

1º – Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa (Portugal)

Oito anos depois de “Juventude em Marcha”, Pedro Costa regressa à personagem Ventura, regressa ao formato da longa-metragem e regressa ao universo das Fontainhas (“Ossos”, “No quarto de Vanda” e “Juventude em marcha”). “Cavalo Dinheiro” não é um filme fácil de se ver, esta que é talvez a sua obra mais política de sempre. Um murro no estômago, uma lição de história. Ventura está hospitalizado e vive assombrado, entre o passado e o presente. Em “Cavalo Dinheiro” Ventura confronta-se com os fantasmas da nossa história, da revolução do 25 de abril de 1974. Pedro Costa questiona-nos se a Revolução foi um sonho ou um pesadelo. Depois da revolução só se falou de vencedores e vencidos. e os outros? Ficou tudo por se cumprir. Querem nos enganar, mas Pedro Costa revela-nos, através das memórias daqueles homens que vieram de Cabo Verde, à procura de um sonho, a dura realidade, a dura verdade. Ventura vive num sonho, fala com fantasmas, vive preso ao passado e a uma vida que nunca se concretizou. No final Costa diz-nos que ainda existe alguma esperança. Costa compara esse sonho ao do sonho americano, os sonhos que não foram cumpridos, através de uma série de fotografias de Jacob Riis, de imagens de pobres em Nova Iorque. Ventura é magnifico, é comovente, é verdadeiro. A luz, os enquadramentos, a direcção de atores, é tudo manipulado ao mililitro. As pessoas interpretam personagens que são elas próprias. Todo o filme nos prepara para a cena do elevador, o clímax do filme, o confronto entre Ventura e o soldado do MFA, num cenário assombrado. A cena do elevador explica-nos tudo, diz-nos tudo de forma neutra e crua. Com este filme o cinema de Costa afasta-se do cinema da trilogia das Fontinhas. Há uma evolução lógica. Não importa se para melhor ou pior, é diferente, é natural. “Cavalo Dinheiro” deu a Pedro Costa o Leopardo de Melhor Realizador e o prémio da Federação Internacional de Cineclubes, na 67ª edição do Festival de Cinema de Locarno, tendo percorrido dezenas de festivais internacionais de cinema. A mais recente obra de Costa, que estreou no final deste ano em Portugal, acabou por ser um alívio num ano em que a colheita cinematográfica não foi tão rica como gostaria. Pelo menos é um dos poucos filmes, se não mesmo o único, que nos faz pensar, seja sobre o próprio cinema, seja sobre a nossa história e o papel da revolução dos cravos. Esta é uma das grandes obras primas do cinema português, sendo por isso a minha escolha para ocupar o primeiro lugar do meu Top 10 dos melhores filmes de 2014.

"Ida" (2013)_4

2º – Ida, de Paweł Pawlikowski (Polónia)

“Ida” do polaco Pawel Pawlikowski revelou ser uma das grandes surpresas cinematográficas de 2014. Um filme sobre a memória e uma profunda reflexão sobre a religião, a família, o passado e o presente. A história, passada em 1960 na Polónia que acompanha Ida, uma jovem de 18 anos que em vésperas de ser ordenada freira vai à procura de uma tia que desconhecia (Wanda), descobrindo que ser órfã de pais judeus (assassinados por uma família católica durante a 2ª guerra mundial), é contada com grande brilhantismo cinematográfico. A narrativa e a abordagem do realizador são de uma grande simplicidade, dando todo o sentido ao belo preto e branco (com o tom cinza a dominar) e ao formato de tela 1.33. Num registo bastante formal, o plano fixo é recorrente, assim como vermos o rosto das personagens cortado ou no canto inferior do plano. Este é um filme que nos fala sobre a procura de identidade, quer de Ida, quer do seu país, a Polónia. Para Ida, a saída daquele convento, onde viveu toda a sua vida, é a descoberta de um mundo novo, de uma nova realidade. O tema é forte, delicado e sombrio, num filme onde existe uma constante relação entre judeus e católicos e entre comunistas e fascistas, no entanto é um filme sem ideologias. É neutro, sem grandes moralismos. A viagem que estas duas mulheres fazem pela Polónia comunista de 62 tem como objectivo procurarem respostas, de descobrirem a verdade do seu passado, mas à medida que o filme se vai desenrolando, ambas começam a por em causa o presente. Questionam-se se a vida que levam faz sentido, dado as experiências que viveram recentemente. Um excelente trabalho de fotografia, magníficos cenários e magnifica interpretação do par sombrio de mulheres, Agata Trzebuchowska (Ida) e Agata Kulesza (Wanda). Este é um belo drama que nos transmite tranquilidade, quer pela narrativa, quer pela linguagem cinematográfica, que não é tão comum nos dias de hoje. É um filme que merece sem dúvida ser visto.

"12 anos de Escravidão" (2013)_7

3º – 12 Anos Escravo, de Steve McQueen (EUA)

Foi um dos primeiros filmes a estrear em Portugal, logo em janeiro, tendo-se revelado logo um dos melhores filmes do ano. Este foi o terceiro filme do artista plástico britânico Steve McQueen, que depois de ter explorado a fome, em “Fome” (2008) e o sexo em “Vergonha” (2011), ele explorou a escravidão e o racismo em “12 Anos Escravo”. Este é um filme sério e politicamente correcto sobre um dos temas mais delicados dos EUA, a escravatura, que em 2013 teve dois distintos retratos sobre esta temática, “Lincoln” e “Django Libertado”. No entanto, Steve McQueen aborda esta questão de uma forma nua e crua. Nesta história fascinante e real é-nos dado o lado dos negros. O lado de quem sofreu, e escreveu um livro sobre essas terríveis memórias enquanto escravo. O lado de um realizador que também é negro e, portanto, melhor do que ninguém entende a injustiça e sofrimento por que Solomon passou. Magnifica realização de McQueen que nos transporta para uma realidade muito dramática, com imagens fortíssimas. Recorrendo a uma fotografia de época, os verdes, castanhos e brancos são os tons predominantes naquelas plantações de algodão do sul dos EUA. Vencedor de três Óscares da Academia (Melhor Filme, Melhor Atriz Secundária (Lupita Nyong’o) e Melhor Argumento Adaptado), “12 Anos Escravo” é talvez o filme mais sério e verdadeiro sobre o racismo nos EUA, do século XIX. É sem dúvida um dos melhores filmes do ano.

"Boyhood: Momentos de Uma Vida" (2014)_12

4º – Boyhood: Momentos de Uma Vida, de Richard Linklater (EUA)

Era um dos filmes mais esperados do ano e confirmou-se que “Boyhood” é um dos melhores filmes de 2014. Durante três horas, o realizador Richard Linklater, mostra-nos doze anos de vida deste elenco fantástico. Mostra-nos como a vida é. São imagens quase reais que acompanham em tempo real a vida de Mason (Ellar Coltrane) desde a sua infância  (dos 6 anos) até à sua adolescência (aos 18 anos). É um daqueles filmes que vai certamente marcar muita gente, por abordar questões tão universais e como a própria vida, e a forma como crescemos e como a vivemos. É  impossível o público não se identificar com nenhuma das personagens ou com os momentos da vida ficcionados aqui apresentados. Delicada realização e excelentes interpretações deste que é um dos mais interessantes e peculiares filmes do ano. Um filme único e obrigatório!

"Mr. Turner" (2014)_1

5º – Mr.Turner, de Mike Leigh (Reino Unido)

A meio da lista tinha que constar uma das mais agradáveis surpresas do ano, “Mr.Turner”, do cineasta britânico Mike Leigh, que nos brindou com um filme biográfico fora do normal sobre o irreverente e vanguardista pintor J.M.W.Turner. Com um visual belo, um argumento arrojado, com um toque de humor, mas com um lado trágico, e com uma interpretação soberba de Timothy Spall. O ator consegue de forma assombrosa passar essa personalidade do pintor. O Turner de Timothy Spall possui uns tiques que nos ajudam a compreender melhor o homem e a sua obra. Neste filme realista conhecemos um pouco melhor o homem solitário que foi, o seu método de trabalho, o seu modo de vida e a sua obra. Mais do que tentar contar-nos a vida deste homem, de um artista, o filme ajuda-nos a compreender melhor a origem, o propósito, das suas pinturas, o que estas representam. “Mr.Turner” é portanto um agradável e interessante filme que merece ser visto.

“Como Treinares o Teu Dragão 2” (2014)_3

6º – Como Treinares o Teu Dragão 2, de Dean Deblois (EUA)

Em sexto lugar destaco esta animação sobre a bela e improvável história de amizade entre um rapaz e um dragão. O primeiro filme desta saga da Dreamworks, “Como Treinares o Teu Dragão” (2010), é a obra prima do estúdio, o filme mais dramático e o mais bem conseguido. Com este segundo filme, o nível de qualidade da narrativa e da técnica de animação mantém-se. Este filme tem de tudo, desde batalhas épicas, aventura, drama e bom sentido de humor. Com uma forte e evidente mensagem de amizade, tolerância e paz este filme consegue ser igual ou melhor que o primeiro. O que acabou por ser uma grande surpresa. A Dreamworks conseguiu um feito único na história do estúdio, realizar uma sequela igual ou melhor que o primeiro filme. O ano de 2014 não nos trouxe grandes filmes de animação, a não ser esta que merece assim um lugar de destaque nesta lista dos melhores filmes do ano. “Como Treinares o Teu Dragão 2” é a melhor animação do ano e fica agora elevada a fasquia para o terceiro filme, que deverá estrear em 2016. Ver este filme é uma excelente forma de comemorar os 25 anos do estúdio Dreamworks. “Como Treinares o Teu Dragão 2” continua a encantar-nos e a emocionar-nos.

"The Grand Budapest Hotel" (2014)_6

7º – Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson (EUA)

“Grand Budapest Hotel”, o novo filme de Wes Anderson, era por ventura um dos filmes mais aguardados do ano. Assim se confirmou. Se em “Moonrise Kingdom” achamos que o seu estilo era frenético, então em “Grand Budapest Hotel” Wes Anderson acelera ainda mais. Vai mais longe. Exagera. Nesta comédia de época Wes Anderson repete temas e recorda os seus filmes passados. Wes satiriza uma classe chique que habitava os luxuosos e magnéticos hotéis da Europa. Também satiriza uma época, entre as duas guerras, que dividiram a Europa. Sempre abordando temas sérios, o humor está presente nas mais diversas formas. A amizade é novamente aqui tratada entre o porteiro e o paquete e o primeiro amor entre o paquete e a padeira. Apesar se sentir que o estilo de Wes começa a sobrepor-se ao conteúdo e de não se notar uma evolução na forma de filmar, apenas um processo repetitivo até à exaustão, o excêntrico realizador americano regressou com mais um belo e inteligente filme, onde requinta o seu estilo inconfundível.

Destaque da Semana: "A Mãe e O Mar"

8º – A Mãe e O Mar, de Gonçalo Tocha (Portugal)

O documentarista português de “É Na Terra Não é Na Lua” (2011) deixou as ilhas dos Açores, para ir para a praia de Vila Chã, em Vila do Conde, filmar “A Mãe e O Mar”. Habituado filmar o mar, Gonçalo Tocha, conta as histórias e as memórias das mulheres pescadeiras daquela região. A sua câmara é poética e o som é maravilhoso, delicioso trabalho de captação e mistura de som. Tecnicamente sente-se uma evolução. Gonçalo Tocha filma a paixão desta gente brava que dedicou a sua vida a uma profissão em vias de extinção. Mesmo que com algumas imperfeições no modo como constrói o filme, é um filme que merece ser visto. O jovem realizador afirma que nos próximos tempos não voltará a fazer mais filmes. Esperemos que mude de ideias, pois este seu último trabalho é um dos mais curiosos filmes portugueses do ano.

"Dois Dias, Uma Noite" (2014)_1

9º – Dois Dias, Uma Noite, de Luc e Jean-Pierre Dardenne (Bélgica)

Honestidade e solidariedade, é do que os irmãos Dardenne falam no seu novo filme, “Dois Dias, Uma Noite”. Os irmãos belgas continuam abordar temas (problemas) sociais, virando-se desta vez para o desemprego. Esta é uma história dramática sobre Sandra (Marion Cotillard) que, apoiada pelo seu marido, tem apenas um fim-de-semana para convencer os seus colegas a desistirem das suas bonificações de modo a que possa manter o seu emprego. Uma linha narrativa muito simples que originou uma excelente interpretação da atriz francesa Marion Cotillard. O filme mantém o estilo dos realizadores belgas, minimalista e sensível, mas distante da intensidade e inocência do anterior filme, “O Miúdo da Bicicleta” (2011). Contudo, a temática deste filme é atual  e por isso pertinente, até porque não existem muitos filmes que se foquem no desemprego atual e como a crise submete a sociedade ao desespero. “Dois Dias, Uma Noite” é por isso um dos melhores filmes europeus de 2014.

Destaque da Semana: "O Lobo de Wall Street"

10º – O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese (EUA)

Para terminar esta lista dos melhores filmes do ano, incluo aquela que na minha opinião foi a melhor comédia do ano, “O Lobo de Wall Street”. Foi um dos filmes mais badalados no inicio do ano. O realizador de filmes sobre mafiosos, Martin Scorsese, conta-nos agora a história de ascensão e queda de um homem de Wall Street que queria cumprir o sonho americano. Com um bom argumento e excelentes diálogos, o mundo aqui representado é real e nem sempre visto no cinema. Um mundo onde o abuso de sexo, drogas e álcool abunda bastante. Os temas aqui bulidos são recentes e continuam a ser atuais. A história desenrola-se a um ritmo selvagem, louco e é nas cenas onde a comédia física esta mais presente que percebemos o génio de Scorsese de DiCaprio. Mas sobretudo do primeiro, que tendo uma vasta bagagem visual de conhecimentos cinematográficos, consegue um quase total domínio das capacidades de criar comédia, de fazer rir o espectador, sem facilitismos. Esta hilariante história, onde vemos DiCaprio num papel invulgar, mas com uma prestação notável, foi uma das melhores surpresas do ano.