Os 5 filmes que inspiraram Justine Triet

A realizadora e argumentista francesa revelou à A.frame quais são os cinco filmes que mais a inspiram
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Foto: Frederic J. Brown / AFP

Enquanto estudava pintura na École nationale supérieure des beaux-arts de Paris, Justine Triet descobriu sua paixão pelo vídeo e pela edição. Após concluir seus estudos, ela realizou seus primeiros documentários em vídeo, capturando momentos durante manifestações estudantis e explorando uma favela em São Paulo.

Em 2011, a curta-metragem “Two Ships” recebeu vários prémios, sobretudo no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Logo depois, Triet estreou o seu primeiro longa-metragem, “The Age of Panic” (2013), que desafia a fronteira entre ficção e realidade ao retratar diversas cenas no dia da eleição de François Hollande como presidente em 2012.

Estilo

O estilo de Triet tornou-se visível em obras como “Victoria” (2016) e “Sibyl” (2019), onde a cineasta francesa revela o seu domínio em retratar mulheres complexas à beira do colapso, combinando tragédia com humor.

Nestas obras, colaborou com Virginie Efira, proporcionando-lhe um dos papéis mais marcantes de sua carreira até hoje.

Anatomia de uma Queda

Em 2023, a francesa alcançou destaque internacional com o seu thriller judicial “Anatomia de uma Queda”.

Co-escrito por Triet e pelo seu marido, Arthur Harari, e protagonizado por Sandra Hüller, Milo Machado-Graner e Swann Arlaud, o thriller conta a história de Sandra (Sandra Hüller), uma escritora alemã que vive isolada nas montanhas com o marido Samuel (Samuel Theis), um músico e professor universitário, e o filho invisual de 11 anos, Daniel.

Um dia, o seu marido é encontrado morto e Sandra passa a ser a viúva acusada, levada a julgamento.

O filme disseca ao pormenor a relação do casal, a sua vida privada é levada a público no tribunal e na imprensa, tentando perceber se Sandra está inocente ou não.

“Tenho um grande apetite por algo chamado faits divers, que são como notícias diversas ou histórias de crimes não resolvidos”, explica ela. “Mesmo nesses casos, tendo a me sentir atraída pelos mais banais, porque acho que, fundamentalmente, estou interessada em explorar questões sobre o terreno interno humano, a alma e as complexidades de estarmos juntos”, comenta Triet ao A.frame.

Prémios

Em seu país, foi o grande vencedor da 49.ª edição dos Césares, conquistando um total de seis prémios, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Atriz (Sandra Hüller).

Além disso, Triet tornou-se a terceira mulher a vencer a Palma de Ouro em Cannes.

O filme fez história ao ser o primeiro a vencer nas categorias de Melhor Argumento e Melhor Filme Internacional nos Globos de Ouro. Também conquistou cinco prémios da Academia de Cinema Europeu, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Atriz, Melhor Argumento e Melhor Edição.

Óscares

Após vencer vários prémios, “Anatomia de uma Queda” chegou à 96.ª edição dos Óscares, onde recebeu cinco nomeações, incluindo Melhor Filme. Triet foi nomeada para Melhor Realização e Melhor Argumento Original, vencendo esta última categoria em parceria com Arthur Harari.

Na época, em entrevista concedida a Beatrice Verhoeven, da The Hollywood Reporter, Triet não escondeu sua emoção ao saber das nomeações para o prémio.

Todavia, a francesa também lamentou a ausência de outras mulheres na premiação, um facto que, mais uma vez, chama a atenção para a disparidade de género na indústria cinematográfica.

“Eu chorei… A primeira indicação foi para o argumento e fiquei muito feliz. Mas foi depois de ver o nome do meu editor que chorei, porque foi muito surpreendente. Não imaginava que Laurent Sénéchal pudesse estar envolvido neste jogo… E, claro, para Melhor Realização. Fiquei surpresa porque não há mais mulheres ao meu lado. Então, é claro, sinto-me muito sortuda e orgulhosa por todas essas coisas.”

Sobre isso, lembro que com esta produção Triet tornou-se a oitava mulher a ser indicada ao prémio de Melhor Realização. Ao lado de nomes de peso como Yorgos Lanthimos, Christopher Nolan, Jonathan Glazer e Martin Scorsese, ela assinalou o regresso das mulheres à disputa após um ano de ausência, desde a vitória de Jane Campion por “O Poder do Cão”.

Vale também lembrar que, até hoje, apenas três mulheres receberam o prémio de Melhor Realização, enquanto os restantes 93 foram entregues a homens.

Pós-óscares

Depois de conquistar o Óscar de Melhor Argumento Original, Triet começou a receber várias propostas de importantes nomes de Hollywood, incluindo Steven Spielberg.

Antes das propostas, em fevereiro, durante uma entrevista com Nicolas Schaller da revista francesa L’Obs, ela confirmou ter sido convidada para realizar uma adaptação da história em banda desenhada de Daniel Clowes, “Monica”, com Cate Blanchett no papel principal.

No entanto, ainda não se sabe qual foi a sua decisão relativamente à realização do projecto.

Estados Unidos

Também no início de fevereiro, Elsa Keslassy, da Variety, revelou que Triet agora é representada por um agente americano, o que sugere, em termos práticos, a possibilidade de facilitar futuros projetos e colaborações nos Estados Unidos.

Segundo Keslassy, a francesa assinou contrato com a Creative Artists Agency (CAA), uma das agências mais requisitadas do setor.

A agência CAA gerencia as carreiras de Tom Cruise, Meryl Streep, George Clooney, entre outros.

França

Apesar de todas as propostas, Triet planeia inicialmente permanecer no seu país, conforme indica a produtora Marie-Ange Luciani, que deseja que o seu próximo filme seja realizado em França.

Luciani acredita que Triet aproveitará essas oportunidades para trabalhar com um elenco internacional, da mesma forma que fez em “Anatomia de uma Queda”.

Ela projeta que Triet e Arthur Harari talvez ampliem ainda mais seus horizontes. Todavia, não acredita que Triet fará uma digressão pelos Estados Unidos imediatamente. Ela conhece bem o seu lugar e, neste momento, a produtora não teme que ela vá embora.

Dito isso, hoje apresentamos uma lista que Triet compartilhou com a A.frame dos cinco filmes que mais a inspiram, destacando aquele que a introduziu à sua musa, a atriz alemã Sandra Hüller, e suas reflexões sobre essas obras.


Confira o top 5 de Triet e suas impressões

1) “A Mãe e a Puta” (1973), de Jean Eustache

“Lembro-me exatamente de onde estava quando vi o filme e não fui a mesma pessoa depois. Eu estava totalmente acordada. Tipo, ‘Eu quero fazer isso’. Porque para mim era um novo mundo, uma nova forma de falar, uma nova forma de fazer as coisas, uma nova forma de passar o tempo na vida. E depois disso, falei como uma prostituta. Eu estava obcecada por ela. Eu tive a mesma expressão. Foi literalmente como se tivesse sido impresso em mim mesmo”.

2) “Cenas de um Casamento” (1973), de Ingmar Bergman

“É complicado. Não tenho certeza se entendi tudo da primeira vez, e talvez se visse agora, pensaria que há tantas coisas tão antiquadas sobre a posição das mulheres e dos homens. Mas o que mais me atraiu ou me impressionou foi a constante inversão de papéis que ocorre, onde no início podemos sentir que as coisas são unilaterais – onde talvez ela seja uma mulher enganada, uma mulher que foi traída e completamente subjugada, seu feitiço – e então a dinâmica disso está sendo constantemente reorganizada. A outra coisa deste filme, que me marcou, é a linguagem à medida que essas discussões evoluem em intensidade”.

3) “Laços de Ternura” (1983), James L. Brooks

“Eu vi aquele filme, não sei, umas 50 vezes, talvez. Eu conheço cada linha. Sou uma grande fã de James L. Brooks. Já vi todos os filmes dele e gosto muito da maneira como ele inventou a comédia dramática – essa mistura entre drama e comédia. Para mim, cada linha de diálogo em seus filmes é muito inteligente. A cena com Shirley MacLaine e Jack Nicholson é muito inteligente. Eu gosto de tantas, muitas coisas dentro desse filme”.

4) “Shampoo” (1975), de Hal Ashby

“Esse filme é uma perfeição para mim. Porque sou obcecada por cabelo e é tudo sobre cabelo, e gosto que ele coloque o cabelo e as histórias de vida no mesmo nível. Está perfeito. Eu adoraria fazer um remake desse filme um dia”.

5) “Toni Erdmann” (2016), de Maren Ade

“Fiquei muito emocionada com o filme e gostei muito da maneira como Maren Ade dirigiu todos os atores. Ela faz muito mais tomadas do que eu, então estou muito impressionada. Como realizadora, ela é tão brilhante e inteligente para mim. Ela é perfeita. Estou muito animada para ver o próximo filme dela”.

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