Quentin Tarantino apresenta o seu oitavo filme de forma ostensiva, como se vê no genérico que abre “Os Oito Odiados” – o oitavo filme de Tarantino. O realizador e argumentista afirmou publicamente que irá realizar apenas dez filmes e que depois se irá aposentar do cinema, dedicando-se, talvez, ao teatro e à televisão.

Depois de ter morto nazis em “Sacanas Sem Lei” (2009) e de ter debatido a escravatura e o racismo em “Django Libertado” (2012), Tarantino apresenta-nos um jogo com oito jogadores ressentidos e magoados com o passado e que terão de se resolver num único cenário, encurralados por uma tempestade de neve. A narrativa decorre alguns anos depois do final da Guerra Civil Americana, quando um caçador de prémios procura abrigo para si e para o seu prisioneiro numa estalagem isolada entre as montanhas cobertas de neve e vê-se confrontado com um grupo de criminosos que tiveram a mesma ideia que ele. Os oito viajantes começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros e, obrigados então a conviver, são levados a um confronto inevitável.

Tarantino volta aproximar-se do Teatro, talvez mais do que nunca. Fê-lo também em “Cães Danados” (1992). Aliás, é assumido por ele que quer ver os seus filmes a serem adaptados para peças de teatro. Os espaços são fechados, quase claustrofóbicos, onde oito personagens trocam palavras umas com as outras. O título do filme remete-nos para um clássico deste género “Os Sete Magníficos”, mas ao contrário destes sete pistoleiros que se juntam para salvar uma aldeia mexicana, no filme de Tarantino temos oito personagens detestáveis que não são nada de confiança.

O realizador volta a pegar em temas recorrentes do western, como a vingança, a traição, a mentira, e na questão do racismo, tema explorado sobretudo em “Django Libertado”. O realizador mantém o seu estilo muito próprio, ‘pop e cool’, para contar uma história que fala sobre a América e dos seus problemas do pós-guerra civil, as diferenças entre os negros e brancos, os mexicanos, as mulheres, os nortistas e os sulistas. A construção do argumento, dividido por capítulos, e a forma como trabalha os longos diálogos de cada personagem e as suas histórias, em tom sarcástico, continua afirmar-se como algo que o distingue dos restantes realizadores americanos. Enquanto que em “Django Libertado” eram claros os estereótipos do western spaghetti, em “Os Oito Odiados” há uma maior aproximação do western clássico americano, mas num misto de spaghetti e de terror.

Um dos aspectos que merece destaque nesta obra é a sua cinematografia. Tarantino quis captar a magia dos antigos Westerns e para isso pediu ao director de fotografia Robert Richardson que usasse película no formato de 70mm para filmar as paisagens frias e montanhosas. O uso de película é logo notado nos primeiros planos da paisagem fria e coberta de neve. Nota-se logo a diferença e esta foi sempre uma das bandeiras de Tarantino desde o início do projecto. Uma mais valia que só pode ser apreciada numa sala de cinema. Neste filme há dois cenários que se distinguem pelo uso de duas cores, o exterior com a tempestade de neve (a cor branca) e o interior da estalagem coberta de sangue (a cor vermelha). A banda sonora do conceituado compositor Ennio Morricone é outro dos pontos altos deste filme, que ajudou a criar uma atmosfera de maior tensão e de terror à narrativa.

O filme conta também com um elenco recheado de bons atores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen e Bruce Dern. Samuel Jackson torna a destacar-se como um dos melhores da sua geração.

“Os Oito Odiados” é um western sangrento, violento, que presenteia o público com outro banho de sangue. É mais um grande filme de Quentin Tarantino, recheado de pormenores e de elementos que nos remetem para outros filmes, bem ao estilo do cineasta.

Realização: Quentin Tarantino

Argumento: Quentin Tarantino

Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demian Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern

EUA/2015 – Western

Sinopse: Entre seis e oito anos após o fim da Guerra Civil, uma carruagem avaria no meio da paisagem invernal de Wyoming. O caçador de recompensas John Ruth e a fugitiva Daisy Domergue vão para Red Rock, onde Ruth a entregará à justiça. Mas durante o percurso, eles encontram o Major Marquis Warren, um ex-soldado que se transformou num terrível mercenário, e Chris Mannix, um renegado sulista que quer ser o novo xerife da cidade. Ao se perderem na tempestade, o grupo procura refúgio numa estalagem administrada por Minnie. Lá, são recebidos por Bob, que gere o estabelecimento enquanto Minnie visita a mãe, Oswaldo Mobray, o carrasco de Red Rock, o cowboy Joe Gage e o Confederado General Sandy Smithers.

«Os Oito Odiados» - Uma América ressentida coberta de sangue
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