«Os Oito Odiados» – Do ódio que transborda das palavras

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É muito difícil fazer esta crítica ao último filme [(“Os Oito Odiados” (2015)] de Quentin Tarantino de forma distanciada e desapaixonada, uma vez que o filme me arrebatou na mesma medida musicalmente progressiva com que a trama do filme evolui. Dentro de mim, esta música ainda ressoa. Tudo ainda fervilha e vibra.

Lembro-me de ter uma sensação muito parecida no final de “Cães Danados” (1992), de Tarantino, ou do “Doze Homens em Fúria” (1957), de Sidney Lumet. Ambos possuem um estilo teatral muito vincado, onde os diálogos concentram a tensão de toda a narrativa; em ambos existe um poder emotivo e psicológico que é levado aos limites através do poder das palavras (que amiúde subestimamos e banalizamos). Mas como disse – tão simplesmente – Samuel Beckett: “As palavras são tudo o que temos”, em “Os oito odiados”, esta moldura simbólica que enquadra o nosso mundo vai-se mostrando enquanto máscara, cuja função é barrar uma torrente de ódio que vive na constante iminência do seu transbordamento.

Neste filme, que mais se aparenta a um bloco repleto de pólvora, quem acende o rastilho é Ennio Morricone com a música “L’Ultima Diligenza di Red Rock”. A gravidade e lentidão das primeiras notas, e a forma como se alternam entre as tonalidades graves e agudas, criam a fosforescência invisível desse rastilho musical que se vai queimando progressivamente. Nessa queima lenta, conseguimos imaginar todos os cowboys com as suas mãos abertas, suspensas, junto aos coldres, absolutamente prontas a premir o gatilho ao mínimo movimento mais ofensivo: “(…) Move-te um pouco repentinamente, ou um pouco estranho, e recebes uma bala. Não é um aviso, não é uma pergunta, uma bala.”, diz Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), a certa altura do filme. Com o poder quase mágico desta introdução, o suspense está garantido da forma mais sublime. A poderosa música de Ennio é a bomba que Tarantino planta debaixo da mesa, em contagem decrescente, cujo tique-taque nunca deixa de nos fazer vibrar a pele.

Enquanto este rastilho sonoro vai fazendo o seu caminho, um travelling bastante lento vai revelando uma imagem do Crucificado coberto de neve, através de um afastamento progressivo da câmara. A neve que se acumulou na cabeça de Cristo parece dar forma a um gorro pontiagudo cuja remissão simbólica mais imediata é para a seita Ku Klux Klan. O plano é extremamente bem conseguido ao conseguir casar a função simbólica da imagem com a força sensível da atmosfera criada por uma harmoniosa conjugação dos elementos estéticos: a lentidão e o peso da música-rastilho de Morricone, que se adequa perfeitamente à lentidão do travelling que vai fixando uma ideia de sofrimento e de violência através da revelação lenta da imagem de Cristo, até a câmara se afastar e fixar o plano para mostrar uma diligência em movimento, envolvida por uma paisagem de neve.

Nunca vi um Tarantino com uma linguagem tão aprimorada, com tanta sensibilidade e subtileza até entregar ao espectador a explosão polpuda a que os habituou. O que parece ter desagradado os seus espectadores mais fiéis foi a demora na entrega da polpa, ora, aquilo que mais me agradou foi, precisamente, tudo o que passa nessa demora. Nada parece ser deixado ao acaso. A mise-en-scéne é trabalhada com precisão e detalhe, onde as personagens são já força estetizante, através de um guarda-roupa que se adequa perfeitamente aos cenários que as envolvem e a cada gesto e movimento. Tarantino criou estas personagens com o máximo cuidado e primor, atribuindo a cada uma delas um arquétipo social, onde violência, racismo, xenofobia, preconceito, coabitam num cocktail de ódio que fervilha até provocar uma erupção capaz de derreter toda a neve circundante. Na forma como este ódio flui e viaja de uma personagem para outra, somos levados a pensar que o argumento é de um perfeccionismo que roça a paranoia, de uma forma absolutamente positiva, por ser capaz de evitar qualquer clichê confortável. Podemos afirmar que Tarantino, de certa forma, repete o estilo de “Cães Danados” (1992), aperfeiçoando-o. Com a intensificação estética do estilo e uma maior influência teatral, ele consegue dar a cada personagem uma conotação política e social que parece violentar o espectador tanto quanto a violência que flui dentro da tela: há uma arma constantemente apontada a nós.

Os traços teatrais são vários: a imagem criada pelo uso de uma lente de 70mm permite uma abertura de ângulo de grande amplitude, capaz de dar a ver um máximo do cenário e uma maior copresença de personagens na mesma cena; as personagens vão deambulando livremente pelo cenário e interagindo com os objecto, como o piano,  que parece ter sido feito para ocupar aquele canto da sala à espera que alguém o pudesse tocar, num gesto aparentemente espontâneo; a guitarra que Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) toca, que estava ao lado do piano, e que parece ser tirada de um baú para entrar em cena;  a profundidade de campo na cena em que Daisy toca essa guitarra por vários minutos, que permite mostrar todo o frenesim que se passa com o resto das personagens que interagem com a porta do casebre ou que bebem café. Durante a cena, é o recurso ao rack focus que vai fazendo alternar os espaços de cena que acontecem paralelamente, entre a performance de Damergue e a actividade de fundo das restantes personagens. John Ruth (Kurt Russell) deixa o fundo do cenário para elogiar a música tocada por Domergue, até não achar muita piada à letra da música, que promete morte e vingança a alguém com o nome “John”.

Este Tarantino, mais teatral do que nunca, parece exacerbar as potencialidades do cinema, e com isso, os níveis de realismo da arte. Os tiros, o sangue, as cabeças a saltar, aliados aos traços teatrais, parecem criar uma espécie de hiperrealismo social retractado por uma violência que se traduz em imagens com traços expressionistas. Tarantino consegue aproveitar o melhor dos dois mundos, ao ir buscar ao teatro as qualidades cenográficas cruas para as transformar em forças cinematográficas estetizadas pela presença das cores e dos pequenos feixes de luz distribuídos pelo espaço, que vão desenhando cada plano em profundidade.

É altura de falar um pouco sobre a genialidade com que Tarantino insere a mentira, a ilusão, a dúvida, nos diálogos deste filme. Tarantino, certamente, não é Shakespeare, mas, neste filme, seguiu com grande mestria a sua ontologia onírica, onde a realidade é sempre feita da mesma matéria dos sonhos. Nas artes, a força da mentira é uma verdadeira potência de realização. E como trabalha tão bem Tarantino estas potências do falso… Como esquecermos aquele diálogo entre Major Marquis Warren e o General Sandy Smithers (Bruce Dern), em que a totalidade do ser do General emprenha-se de ódio ao ouvir as palavras sobre as quais ele não consegue saber nada sobre a sua veracidade, e cuja dúvida se torna uma possibilidade de verdade que o dilacera e o enche de raiva? Na boca de Marquis Warren, as palavras não são meras abstracções, são balas que vão penetrando, uma a uma, no peito do General Smithers. O que o faz pegar naquela arma senão a inevitabilidade em acreditar no horror criado pelas imagens que Warren vai criando com as suas descrições macabras sobre o seu filho? E numa visão espinosista sobre o conhecimento, essa cena mostra o quanto a ignorância é uma força que molda uma consciência que vive assolada por fantasmas, e onde a falta de conhecimento objectivo do mundo torna-se numa pura força de crença. A ignorância torna-se numa perigosa ética que penetrou as suas raízes na mais profunda irracionalidade. (E quão bem sabemos hoje o quanto a ausência de verdade nos faz agarrar com mais força ao que é falso?)

Eis que, ao seu 8.º filme, Tarantino nos brinda com aquela que é, para mim, a sua magnum opus. Um realizador que se mostra em toda a sua maturidade, que conseguiu colocar os ingredientes polpudos consubstanciados num estilo onde se pressente um maior grau de detalhe, através de um delicado trabalho de realização e mise-en-scène. A subtileza com que o filme me foi injectado lentamente, criando uma atmosfera que impercetivelmente vai semeando prenúncios por todos os lados, faz-me sentir a presença de duas coisas no mesmo espaço que pareciam se aproximar a cada instante: no ouvido, o som de um rastilho a arder; e no nariz, um forte cheiro a pólvora.

(Esta crítica foi escrita por mim, após o visionamento do filme, em 2015. Só agora resolvi retirá-la da gaveta, limar algumas arestas e publicá-la.)

«Os Oito Odiados» – Do ódio que transborda das palavras
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