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Óscares 2022: “CODA” é o Melhor Filme, “Dune” ganha mais estatuetas e Jane Campion é vencedora

“CODA: No Ritmo do Coração” foi o grande vencedor da 94.ª edição dos Óscares, ao conquistar as categorias de Melhor Filme, Melhor Ator Secundário e Melhor Argumento Adaptado, numa noite que ficou marcada por várias surpresas.

Mas foi “Duna” o filme mais premiado, com 6 Óscares, seguido de ““CODA: No Ritmo do Coração” (3 Óscares) e “Os Olhos de Tammy Faye” (2 Óscares). “O Poder do Cão”, que liderava com 12 nomeações, foi o grande derrotado, tendo vencido apenas uma categoria, a de Melhor Realização. Igualmente com apenas uma estatueta dourada ficaram “Encanto”, “Belfast”, “King Richard” e “West Side Story”.

A cerimónia dos Óscares voltou ao emblemático Dolby Theatre, um ano depois de ter ocupado a Union Station (a grande estação de comboios no centro de Los Angeles), e voltou a ter apresentadores (Wanda Sykes, Amy Schumer e Regina Hall), algo que não acontecia desde 2018. A cerimónia teve, pela primeira vez nas suas edições, tradução para língua gestual, e dois dos filmes nomeados para Melhor Filme incluem no elenco atuações em língua gestual, é o caso de “CODA:No Ritmo do Coração”, de Sian Heder, e “Drive my Car”, de Ryusuke Hamaguchi.

Uma cerimónia que prestou homenagem aos 60 anos do filme da saga “007 James Bond”, aos 50 anos de “O Padrinho” e a outros filmes de culto como “Pulp Fiction”, a 94.ª edição dos Óscares fez-se em ritmo muito acelerado. Nos últimos anos a Academia tem vindo a encurtar a duração da cerimónia dos Óscares, de forma a torná-la  mais atrativa para os espectadores, pelo que este ano parece ter levado o formato curto ao extremo, quase “fast food” do entretenimento de espetáculo televisivo. Os discursos das categorias de Melhor Montagem, Design de Produção, Banda Sonora, Som, Caracterização, Curta-metragem de imagem real, curta documental e curta de animação foram gravados posteriormente e exibidos ao longo da noite. Entre os muitos cortes entre entrega de prémios e publicidade, não sobrou tempo para apreciar a sala despida de máscaras, ou sequer para assimilar os discursos (que tantas vezes marcam simbolicamente o espetáculo), que eram sucessivamente interrompidos cedo demais.

Houve um momento de silêncio com uma mensagem alusiva à invasão russa à Ucrânia, num apelo à união e à ação de todos e todas em apoio à Ucrânia, pelo que o momento de guerra que pauta a atualidade não deixou de ser assinalado pela Academia. De recordar que o boicote cultural à Rússia tem marcado também o panorama cinematográfico, com diversos Festivais, plataformas e Academias de Cinema a cancelarem a presença russa.

Jane Campion fez história, com “O Poder do Cão”, ao ser a terceira mulher a vencer o Óscar de Melhor Realização. A realizadora neozelandesa segue-se assim a Kathryn Bigelow, por “Estado de Guerra” (2008), e a Chloe Zhao, por “Nomadland – Sobreviver na América” (2020).

Ari Wegner e Jane Campion

Como esperado, Ariana DeBose venceu o prémio de Melhor Atriz Secundária por seu papel de Anita em “West Side Story”, de Steven Spielberg, remake do musical que também esteve no grande ecrã em 1961 sob a direção de Robert Wise e Jerome Robbins.

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Ariana DeBose as Anita and David Alvarez as Bernardo in 20th Century Studios’ WEST SIDE STORY. Photo by Niko Tavernise. © 2020 Twentieth Century Fox Film Corporation. All Rights Reserved.

A vitória de DeBose é histórica, pois é a primeira vez que duas atrizes vencem na categoria por um mesmo personagem, já que Rita Moreno também venceu o prémio de Melhor Atriz Secundária em 1961 pelo papel de Anita. Com intérpretes masculinos, isso já aconteceu duas vezes (Marlon Brando e Robert De Niro como Vito Corleone e Heath Ledger e Joaquin Phoenix como o Joker). O prémio também a torna a segunda latina a ganhar o Óscar de interpretação e a primeira mulher negra assumidamente lésbica a ser vencedora na Academia.

Ao longo da temporada de prémios, ela ganhou um Globo de Ouro, um SAG, um BAFTA e um Critics Choice Award. No Óscar, a estreante concorria com: Jessie Buckley de “A Filha Perdida”, Judi Dench de “Belfast”, Kirsten Dunst de “O Poder do Cão” e Aunjanue Ellis de “King Richard: Para Além do Jogo”.

Troy Kotsur fez história ao se tornar o primeiro ator surdo a ganhar o Óscar de atuação. O ator venceu o prémio de Melhor Ator Secundário por “CODA: No ritmo do Coração”. Historicamente falando, também foi a primeira vez que um ator surdo foi nomeado nas categorias de atuação. Em “CODA”, Kotsur atua ao lado de Marlee Matlin, a primeira pessoa surda a levar o prémio nas categorias de atuação – Matlin venceu o Óscar de Melhor Atriz por “Filhos de um Deus menor”, estrelado ao lado de William Hurt.

CODA, Emily Jones, Troy Kotsur e Marlee Matlin 2021. © Apple TV+ / Courtesy Everett Collection

Analisando tecnicamente, Kodi Smit-McPhee perdeu espaço para Kotsur, ele vinha como o favorito da temporada de prémios concedidos pelas associações, sindicatos e organizações internacionais de cinema. Entretanto, nos principais prémios utilizados como termômetros para o Óscar, Kotsur acabou ganhando protagonismo. Antes do Óscar, Kotsur já havia levado o SAG, o BAFTA e o Critics Choice Award – salientamos que ambas as atuações são brilhantes e merecem reconhecimento. 

Kotsur concorria ao lado de Ciarán Hinds de “Belfast”, J.K. Simmons de “Apresentando os Ricardos”, e a dupla Jesse Plemons e Kodi Smit-McPhee de “O Poder do Cão”

“É incrível estar aqui nesta jornada e que o nosso filme tenha chegado até à Casa Branca. Quero falar a todos os teatros para surdos onde tive a oportunidade de desenvolver a minha atuação. Siân Hender você é a melhor comunicadora que conheço”, disse o ator no seu discurso ao falar sobre a realizadora de “CODA”.

“Meu pai era o que melhor se comunicava na nossa família e sofreu um acidente de carro que o deixou paralisado da cintura para baixo. Você será sempre o meu amor. Este prémio é dedicado aos surdos, aos filhos de surdos e às pessoas com deficiência. Eu consegui”, completou.

Um dos momentos mais insólitos desta noite, e que ficará certamente na história da cerimónia dos Óscares, foi quando Will Smith subiu ao palco e deu um estalo na cara do comediante Chris Rock, que estava a apresentar a categoria de Melhor Documentário. Chris Rock fez uma piada sobre o cabelo rapado da mulher de Will Smith, que não o agradou, tendo agredido mesmo o comediante e gritado duas vezes: “Mantém o nome da minha mulher longe da p… da tua boca”.

 

O ator, que recebeu o Óscar de Melhor Ator pela interpretação do pai das irmãs Venus e Serena Williams em “King Richard: Para Além do Jogo”, pediu desculpas à Academia, mas não a Chris Rock, no seu discurso de agradecimento pelo Óscar. “Quero pedir desculpa à Academia. Quero pedir desculpa a todos os meus colegas nomeados. (…) “A arte imita a vida. Eu pareço o pai maluco, assim como Richard Williams. Mas o amor vai levar-te a fazer coisas malucas.”, Will Smith no seu discurso de vitória.

Jessica Chastain venceu a categoria de Melhor Atriz pela sua interpretação no filme “Os Olhos de Tammy Faye“, Michael Showalter e escrito por Abe Sylvia, e foi, provavelmente, o discurso mais político e humanista da cerimónia, pouco destacada por mensagens ou gestos positivamente memoráveis.

Jessica Chastain em “Os Olhos de Tammy Faye”

O filme recebeu também o Óscar de Melhor Maquilhagem e Cabelo, e, portanto, venceu todas as duas nomeações que tinha.

O Melhor Filme Internacional, sem qualquer surpresa, coube a “Drive My Car” de Ryusuke Hamaguchi, completando assim uma série de premiações à longa-metragem que adapta um conto do escritor Murakami.

Apesar de um algum favoritismo por parte do documentário dinamarquês “Flee- a Fuga”, e que irá estrear brevemente nos cinemas nacionais, o vencedor da categoria de Melhor Documentário foi Summer of Soul (…Ou, Quando A Revolução Não Pôde Ser Televisionada), realizado por Questlove.

Dune”, realizado por Denis Villeneuve, conquistou as categorias mais técnicas e já esperadas de Melhor Edição, Melhor Som, Melhor Design de Produção, e também, a categoria de Melhor Fotografia que disputava ao lado de “O Poder do Cão”, “Nightmare Alley-o Beco das Almas Perdidas”, “A Tragédia de Macbeth” e “West Side Story”.

Na categoria animação, a Disney estava em vantagem numérica com: “Luca” e “Encanto”, da subsidiária Pixar e com sua produção própria “Raya e o Último Dragão”, competindo contra o dinamarquês “Flee” e o representante da Netflix ,“Os Mitchell Contra as Máquinas”. Sem surpresa, o vencedor foi o êxito infantil “Encanto”, da Pixar.

“Belfast”, realizado e argumentado por Kenneth Branagh, ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original. Em seu argumento, o propósito da história é traduzir experiências individuais em experiências universais, tanto que os pensamentos e sentimentos dele são usados para envolver o público. Os dramas pessoais se tornam ponto-chaves, não a guerra. Diferente dos filmes que frisam em detalhar o conflito civil, o argumento de Branagh mostra com mais detalhes o lado das famílias que ficaram para trás. Falar de guerra é um assunto pesado, porém todo o clima é amenizado pela figura do menino Buddy. Nessa perspectiva, o filme trata de maneira belíssima e extremamente delicada, não de uma guerra, mas sim do relacionamento de uma família e do amor imenso que esse menino sente por seus pais. 

Branagh no set de Belfast

Siân Heder conquistou a estatueta de Melhor Argumento Adaptado por seu remake “CODA”. Curiosamente, o longa virou o favorito da temporada. Entretanto, ressalvamos que, o trabalho envolvido na reformulação de uma comédia dramática francesa para um cenário estadunidense simplesmente não pode se comparar com a inteligência e vitalidade da dissecação de Rebecca Hall de um romance de 1929 em  “Passing” (que nem sequer foi indicado); com a compreensão incisiva e a ambiguidade de personagem de Jane Campion em O Poder do Cão”, extraindo perspectivas extremamente modernas sobre masculinidade e repressão sexual de um livro publicado em 1967, ou com o diretor Ryûsuke Hamaguchi e o habilidoso entrelaçamento de temas do co-roteirista Takamasa Oe ao investigar os mistérios da arte e da conexão humana como catarses emocionais.

Emilia Jones e Troy em “Coda” de Sian

Contudo, Heder tornou-se a primeira argumentista a vencer a estatueta de Melhor Argumento Adaptado em 16 anos. A última argumentista a conquistar o prémio havia sido Diana Ossana por “O Segredo de Brokeback Mountain”, em 2006 – coescrito com Larry McMurtry. A realizadora, atriz e argumentista superou nomes como Jane Campion, Ryûsuke Hamaguchi, Jon Spaihts e Maggie Gyllenhaal – essa foi a primeira vez desde 1992 em que três mulheres foram indicadas para a categoria.

(Re)leia a crítica ao filme vencedor dos Óscares 2022: «No Ritmo do Coração – Gestos com Sentido».

Confira a lista de Vencedores.

Melhor Filme
CODA

Melhor Realização
Jane Campion, por The Power of the Dog

Melhor Ator
Will Smith, em King Richard

Melhor Atriz
Jessica Chastain, em The Eyes of Tammy Faye

Melhor Ator Secundário
Troy Kotsur, em CODA

Melhor Atriz Secundária
Ariana DeBose, em West Side Story

Melhor Argumento Original
Belfast, por Kenneth Branagh

Melhor Argumento Adaptado
CODA, por Siân Heder

Melhor Filme de Animação
Encanto

Melhor Filme Internacional
Drive My Car (Japão)

Melhor Documentário
Summer of Soul (…Or, When The Revolution Could Not Be Televised)

Melhor Fotografia
Dune, por Greig Fraser

Melhor Guarda-Roupa
Cruella

Melhor Montagem
Dune

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Eyes of Tammy Faye

Melhor Banda Sonora Original
Dune, por Hans Zimmer

Melhor Canção Original
“No Time to Die” (“No Time to Die”), Billie Eilish, Finneas O’Connell

Melhor Design de Produção
Dune

Melhor Som
Dune

Melhores Efeitos Visuais
Dune

Melhor Curta de Animação
The Windshield Wiper 

Melhor Curta Live-Action
The Long Goodbye

Melhor Curta Documental
The Queen of Basketball

Texto escrito por Maria Inês Gomes, Tiago Resende e Vanderlei Tenório

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