“Ovo” – Sobre os efeitos da domesticação

A realizadora finlandesa Hanna Bergholm estreia-se na longa-metragem com o filme “Ovo” (2022). O filme apresenta uma metáfora visual sobre os efeitos de uma educação rígida e castradora; ou, numa só palavra, este é um filme sobre: domesticação.

Tinja (Siiri Solalinna) é uma pré-adolescente que, tal como o seu pai (Jani Volanen) e irmão (Reino Nordin), cresceu submissa ao poder matriarcal. A mãe de Tinja (Sophia Heikkilä) possui um blogue onde posta vídeos de toda a família sorridente, em aparente harmonia e felicidade; porém, essa harmonia é quebrada quando um corvo invade a sala e, esvoaçando caoticamente pelo espaço, vai partindo vários objectos decorativos valiosos. Na forma prática e inesperada como a mãe de Tinja, sem tirar o sorriso da cara, coloca um fim à invasão do pássaro está o primeiro sintoma da sua soberania doméstica.

Tinja reage ao gesto da mãe com uma expressão de choque. A possível indignação que a sua sensibilidade poderia suscitar é substituída por uma resignação imediata.  Tinja resolve seguir o rastro do pássaro e encontra um ovo, que leva para o seu quarto, onde o deixa chocar até à sua eclosão. Algo que enriquece a experiência do filme é a natureza estranha e ambígua do ser que sai desse ovo.  A leitura do espectador cai numa indeterminação: ao mesmo tempo que começa a apresentar comportamentos bizarros; transparece, também, uma profunda ligação protectora com Tinja.

Tinja é obrigada a esconder o animal da família e a alimentá-lo com os seus vómitos. Quando o animal nasce e se vai metamorfoseando, a metáfora da realizadora ganha um forte poder de significação. O animal que vemos nascer no quarto de Tinja não é mais do que o avesso da sua alma; é uma parte de si que nasce do intenso processo de domesticação do qual é alvo. De um lado, está a menina bem-comportada e sorridente, que a mãe obriga a esgotar-se para ser a melhor ginasta; do outro, começa a nascer uma Tinja selvagem, com os impulsos acumulados e reprimidos que nunca agiu. O quotidiano familiar começa a ser transfigurado com o irromper do estranho alter ego de Tinja. As mínimas irritações, como o ladrar do cão dos vizinhos, assim como o ciúme e a inveja começam a espoletar todos os seus impulsos mais selvagens e a provocar um dano que Tinja já não consegue deter. No final, surge o confronto inevitável entre a mãe e as consequências palpáveis que resultaram da sua educação.

A grande virtude da realização de Bergholm é a simplicidade. Os lentos travellings com que inicia o filme vão introduzindo o quotidiano da família numa atmosfera aparentemente pacata e positiva; até ao momento em que a acalmia é quebrada pela invasão do pássaro. Este momento de ruptura é o primeiro sintoma do cruzamento das duas narrativas que compõem o filme.  Se, por um lado, a base narrativa é introduzida através de um realismo doméstico; a segunda narrativa é introduzida, dentro da primeira, pelo ovo, como elemento ao mesmo tempo simbólico e fantástico: desde a gestação, eclosão até à metamorfose total. Esta lógica de mise en abyme é a estratégia-chave para a maior eficácia da metáfora em mostrar a dualidade de mundos que habitam a personagem de Tinja – e em que as restantes personagens começam a habitar. Essa dualidade interior de Tinja ganha carne e exterioridade até se alastrar numa realidade que começa a impor-se, por si mesma, a todos que a rodeiam; e o melhor símbolo dessa imposição é o plano final do filme.

Bergholm não investe numa complexificação como se pretensiosamente buscasse forçar um maneirismo formal que o filme não necessita; porque uma busca formal pretensiosa transforma-se, facilmente, num rebuscamento. A literalidade da metáfora do filme não é mais do que a capacidade de clarificação da complexidade das questões psicológicas inerentes à sua premissa. E é neste ponto que reside o grande valor do filme, na clareza formal que consegue dar espessura e visibilidade às forças obscuras que habitam o rés-do-chão do pensamento. 

“Ovo” – Sobre os efeitos da domesticação
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