Todos nós procuramos aqueles intervalos que nos tiram da alma o peso das rotinas e em que nos é permitido respirar um ar diferente, que nos expande e nos devolve a nós mesmos aquilo que realmente somos.

Paterson (Adam Driver) é um motorista de autocarros que vive mais dos (e nos) intervalos do seu trabalho, pois apesar da sua vida rotineira, demasiado orgânica, consegue ir ao encontro daquilo que em si mesmo está pronto a destruir o seu corpo de sobrevivência, que é quotidianamente adestrado pelo hábito. O seu dia-a-dia é simples e tranquilo, aparentemente mecânico e banal: acorda sem o auxílio do despertador, dá um beijo de despedida na namorada, toma o seu pequeno almoço e faz uma pequena caminhada até à central de autocarros onde trabalha; porém, essa rotina é interrompida por coisas tão simples como uma caixa de fósforos ou a chuva que bate no para-brisas do autocarro que conduz.

É a inesgotável potência do olhar que está em evidência em todo o filme e que o emancipa do hábito. O olhar atento de Paterson penetra em todos os locais e nas mais pequenas coisas. O autocarro que guia torna-se um centro de novas experiências, não lhe passando despercebidas as interessantes conversas que vai ouvindo à sua volta, são elas que o animam entre aquele enfadonho e repetido “para e arranca” – mas não o subestimemos, porque sabemos que até desta coisa chata ele seria capaz de fazer o mais belo dos poemas!

Jarmusch adopta um tom bastante calmo para o seu filme, para que tudo possa estar em sintonia com o espírito poético de Paterson. A música está muito presente ao longo do filme, passando para nós essa paz que intensifica o poder contemplativo, tanto em Paterson como em nós. O décor dos cenários do filme são da responsabilidade de Laura (Golshifteh Farahani), o que mostra um ponto muito original no filme, pois quem constrói a imagem é o próprio personagem que, com isso, mostra o seu poder criativo; mesmo estando em casa, Laura não deixa cair os seus sonhos por terra e trabalha todos os dias para que eles se tornem algo concreto.

Este filme é brilhante na forma como consegue enaltecer a passividade que age em tudo que existe. Nada ganha forma a não ser pelo nosso poder de parar um pouco e tentar olhar para as coisas até elas fazerem parte de nós. O problema é a pressa, a falta de lentidão para experimentarmos as coisas e lhe tomarmos o seu sabor. Paterson é esse ser que ainda ama a lentidão e que mergulha para dentro das coisas para nos oferecer, em palavras, a beleza que tudo pode conter.

Realização: Jim Jarmusch
Argumento: Jim Jarmusch
Elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, Nellie
EUA/França/Alemanha/2016 – Drama/Comédia
Sinopse
: Paterson trabalha como motorista de autocarro na cidade de Paterson, em Nova Jérsia (EUA). A sua rotina diária é sempre igual: acorda exactamente à mesma hora, vai trabalhar, regressa para os braços de Laura, a namorada, passeia Marvin, o cão, bebe uma única cerveja no bar de um amigo e escreve poesia, não necessariamente por esta ordem. A sua vida é tranquila e a sua existência discreta. Paterson está apaixonado por Laura e ela por ele. Ele apoia os sonhos e projectos mais arrojados da namorada; ela incentiva-o e inspira-o na escrita dos seus poemas. É assim todos os dias.

«Paterson» - O intenso sabor da lentidão
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