Ainda na ressaca dos 250.000 espetadores que foram ver o “Variações” de João Maia, da soberba receção ao “Herdade” de Tiago Guedes em Veneza, e do Leopardo de Ouro em Locarno para Pedro Costa com “Vitalina Varela”, talvez a mais surpreendente das obras nacionais neste ano de ouro do cinema português, é aquela lançada mais longe dos holofotes dos média nacionais. A primeira longa-metragem de Gonçalo Waddington, “Patrick”, é um filme a roçar o brilhante mas condenado a ser pouco consensual. Logo na primeira exibição de imprensa aqui no Festival de San Sebastian gerou tímidos aplausos e um ou outro, igualmente tímido, apupo, mas seguramente não deixou ninguém indiferente, dominando frequentemente as discussões por entre os corredores do Kursal desde então. O caso não é para menos.

O filme tem como protagonista um jovem que se identifica como Patrick (Hugo Fernandes), uma figura misteriosa e estranha, de poucas palavras, mas invulgarmente sedutor. Vive em Paris com o seu parceiro, com quem claramente mantém uma relação ambigua e distante, tal como com tudo o que o rodeia. Assombrado por uma instabilidade emocional latente, durante uma festa Patrick descontrola-se e ataca uma jovem rapariga, sendo só dominado pela chegada da policia. É nesse momento que descobrimos que Patrick é na realidade Mário, um cidadão português que desaparecerá vários anos antes, ainda enquanto criança, na região da Sertã. Quando se torna obvio que Mário tem tanto de vítima como de criminoso, a policia francesa permite que regresse a Portugal, na esperança que o mistério do seu desaparecimento, e existência desde então, se clarifique de uma vez por todas.

Mário deambula por entre memórias ofuscadas pelo trauma e os destroços do que um dia foi o seu lar. A mãe (Teresa Sobral) é uma sombra do que foi no passado, destruída pelos anos de incerteza do paradeiro do seu filho, e o Pai (Adriano Carvalho) é uma figura ausente, igualmente incapaz de lidar com tamanha tragédia. A salvação apresenta-se na forma da sua prima e amiga de infância (Alba Baptista), que regressa à Sertã para auxiliar Mário, com quem progressivamente consegue construir uma proximidade que permite uma certa abertura. Mas obviamente que as marcas do que aconteceu são demasiado profundas e todo este processo, embebido em tragédia, está até certo ponto condenado à partida.

Gonçalo Waddington lança-se na cena internacional com uma obra extremamente confiante e ousada, um filme verdadeiramente impar no contexto português, e uma experiência marcante e assombrosa.

O processo desenvolvido para este filme é notável em vários aspetos, começando desde longo pelo trabalho de fotografia de Vasco Viana, que mais uma vez se revela como a grande estrela escondida do novo cinema português, oferecendo um tom e fluidez ondulante que nos encaminha por esta experiência de uma forma quase sensorial. A técnica não é de todo nova, mas permanece eficaz: planos fechados no inicio, que progressivamente se vão abrindo, permitindo-nos viajar através do estado de espírito do protagonista, ampliando os horizontes do mesmo, à medida que se cria na audiência uma expectativa maior de que a ansiada revelação está para breve.

A temática do abuso infantil será sempre um tema delicado, mas Waddington encontrou o equilíbrio adequado, jogando acima de tudo com a imaginação da audiência e produzindo assim um efeito curioso, e inevitavelmente individual, diferente para todos os espetadores, que funciona sempre em paralelo com o filme. Mas apesar desta temática ser central, não é necessariamente nesse nível que o autor foca a narrativa, preocupando-se mais com o processo de recuperação da identidade do protagonista. Neste capitulo a personagem central está extremamente bem trabalhada. À falta de memórias claras, a língua portuguesa completa os espaços vazios, já que os dois eixos da personagem dividem-se acima de tudo por este fator: Patrick fala francês, de uma forma mais vincada, distante e fechada; Mário tenta esboçar português, tímido, frágil, mas mais acessível, disponível e aberto à sua família e origens. Na realidade é este o conflito que domina o filme, mais vincado nas interações entre o protagonista e a sua prima.

Hugo Fernandes e Alba Baptista revelam enormes dotes, com duas das melhores performances do ano. O primeiro é suficientemente retraído e distante, capaz de exibir um autocontrolo mesmo nos momentos mais agressivos. Por outro lado, Alba Baptista é o grande foco de vida e energia de todo o filme, singularmente cativante, e tal como já tinha feito em “Caminhos Magnétykos” de Edgar Pera, começa a ameaçar tornar-se num serio caso de sucesso na grande tela.

Em geral o resultado é deveras impressionante, mas, infelizmente, “Patrick” que tem muito de brilhante, também tem aspetos dececionantes.

As personagens dos pais de Mário são bastante problemáticas, já que surgem como figuras demasiado unidimensionais, representando uma perspetiva limitada, com um único objetivo. Em particular o pai, que surge em cena de forma tão fugaz que ficamos na duvida se faria alguma diferença se não aparecesse de todo, tão redutor como uma simples menção. Teresa Sobral, mais frequentemente em cena, tem a oportunidade de ir um pouco mais longe, no entanto vive de tal maneira acorrentada a uma postura abstraída e sedada, que nem no momento de explosão e confronto final é capaz de extrair o seu sofrimento interno de outra forma para além de uma lágrima e um encolher de ombros. Soube a pouco no filme tão repleto.

Esta falta de explosão emotiva é talvez o maior problema do filme, que apresenta-se como um crescendo a caminho de um final conflituoso e catártico que nunca chega a romper verdadeiramente. O processo que Patrick necessita atravessar para começar a dialogar estende-se significativamente. Se o clímax fosse mais impactante, o esforço da audiência teria sido mais justificado. Dito isto, há razoes claras para esta opção, que não é de todo descabida. Mas com um enredo, cenário e personagens tão extremamente fortes, “Patrick” tinha tudo para se tornar num momento épico da cinematografia portuguesa, mas prefere reservar-se numa lógica mais introvertida.

Apesar deste dissabor, que reflete mais as nossas expectativas do que o filme propriamente dito, Gonçalo Waddington dá um salto vertiginoso, assumindo-se como uma das vozes mais originais e interessantes do momento. Esta sua primeira grande obra enquadra-se numa, para já curta, serie de filmes que coexistem nas bordas do cinema português. Não faltam paralelos interessantes com “Alva” de Ico Costa, por exemplo, a primeira longa-metragem nacional a atacar o circuito internacional este ano, e que tal como este “Patrick”, também desbravou terrenos diferentes e desafiou os limites do nossos discurso tradicional. Como resultado, ambos são de digestão difícil, e seguramente não para todos os gostos. São no entanto, obras da maior importância para perceber a verdadeira vitalidade do cinema português contemporâneo, um cinema feito sempre contra a corrente. Como tal, se não forem seduzidos pelo mérito individual do filme (e mérito não lhe falta), que se deixem levar pela ideia de que “Patrick” tem de ser visto porque é simplesmente uma obra obrigatória para qualquer cinéfilo, ou qualquer pessoa que queira perceber o que é o cinema português neste momento.

«Patrick» – A contra-corrente no ano de ouro do cinema português
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