No princípio era o videojogo. Depois veio a banda desenhada, as cartas coleccionáveis, a série de televisão, os filmes de animação... Eis que chega o primeiro filme live-action, vinte anos volvidos desde o primeiro filme de animação, “Pokémon – O Filme: Mewtwo Contra Mew” (1998).

A franchise que começou com um jogo de Game Boy em 1996 depressa se tornou um verdadeiro fenómeno global que conquistou miúdos e graúdos. Eu fui um desses miúdos que cresceu com os Pókemons. Aliás, o primeiro filme que vi no cinema foi “Pokémon – O Filme: Mewtwo Contra Mew”. Curiosamente, são muitos os aspectos que unem essa longa-metragem e “Pokémon Detective Pikachu”, a começar pelo enredo. O primeiro aborda o processo de manipulação genética que levou à criação de Mewtwo; por sua vez, a acção de “Detective” decorre vinte anos após esse acontecimento – por certo uma alusão aos vinte anos que separam as datas de estreia dos dois filmes – e explora as consequências que tiveram lugar.

Tendo por base o argumento do videojogo de 2018 intitulado “Detective Pikachu”, o filme acompanha o jovem Tim Goodman, interpretado por Justice Smith (“Mundo Jurássico: Reino Caído”, 2018), que viaja até à metrópole de Ryme para investigar as circunstâncias bizarras da morte do seu pai. Para isso conta com a ajuda de Lucy, uma aspirante a jornalista interpretada por Kathryn Newton (“Big Little Lies”, 2017), e do Pikachu que era parceiro do seu pai. Ryan Reynolds dá a voz a este cómico Pikachu, que dita o tom ligeiro do filme e muito evoca o humor de Deadpool (mas em versão PG-13), personagem interpretada por Reynolds em dois filmes e pela qual é mais conhecido. O elenco é rematado por Bill Nighy (“O Amor Acontece”, 2003) e Ken Watanabe (“O Último Samurai”, 2003).

A cidade de Ryme tem a particularidade de ser a única na qual Pokémons não se encontram confinados a Pokébolas, nem são usados em batalhas entre treinadores. São antes membros integrantes da sociedade, vivendo lado a lado com os humanos. Um exemplo desta coabitação é o emprego de Squirtles como bombeiros, o que é uma referência à série de televisão (na qual um grupo de Squirtles arruaceiros deixa-se de vadiagem e forma uma esquadra de bombeiros).

“Detective” recorre a momentos como este para apelar à nostalgia e, diga-se de passagem, fá-lo com sucesso. Desde alusões aos videojogos (há uma cena em que o trânsito da cidade está cortado, pois um Snorlax adormeceu no meio da estrada) como à série de animação (a dada altura Pikachu canta a música do genérico), o filme pisca o olho aos fãs mais dedicados. São pormenores que denotam vasto conhecimento do material de origem por parte dos criadores do filme – factor essencial para o êxito de uma adaptação.

A tarefa de transpor para a tela uma marca tão consagrada e estimada como os Pokémons é de facto mais complexa do que aparenta. “Detective” resulta precisamente por conseguir materializar tão bem o mundo Pokémon. Breves imagens de Tauros a pastar, de Pidgeys e Pidgeots a sobrevoar uma quinta, de Magikarps a chapinhar, entre muitas outras contribuem para criar um universo de fantasia credível. É também digna de louvor a alta qualidade dos efeitos especiais, que trazem à vida estes e demais Pokémons com um nível de detalhe e precisão admirável. Quem não quer um Bulbasaur depois de ter visto o filme? Contudo, é uma sensação agridoce ver tanta habilidade a nível técnico ser empregue num número tão reduzido de Pokémons. Para uma franchise que inclui já 809 criaturas diferentes, sabe a pouco a diminuta quantidade que nos é apresentada no ecrã.

É por estas e por outras que “Detective” é provavelmente a melhor adaptação ao cinema de um videojogo – o que, na verdade, não é dizer muito. Relembremo-nos de títulos como “Combate Mortal” (1995), a tríade sobre Lara Croft (2001 e 2003 com Angelina Jolie, 2018 com Alicia Vikander), a saga “Resident Evil” (2002-2016), “Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo” (2010 com Jake Gyllenhaal), e “Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos” (2016). Exacto, os resultados não têm sido excepcionais, pelo que a distinção de melhor adaptação não é difícil de alcançar.

Esta passagem para o grande ecrã em muito se assemelha ao que a Marvel Studios e a Disney fizeram com os super-heróis do Marvel Cinematic Universe – não haja já conversas em torno de um possível Pokémon Cinematic Universe. Caso a ideia se concretize, a esperança é que a Pokémon Company siga a recente aposta da Marvel em cineastas auteurs e em talento atrás da câmara. A estratégia deu frutos com “Black Panther (2018), dirigido pelo realizador indie Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Paragem, 2013). Nomeado para sete Óscares incluindo o de Melhor Filme, arrecadou três: Banda Sonora, Guarda-Roupa e Direcção de Arte – um feito inédito para um filme de super-heróis.

O grande defeito de “Detective” é justamente que não ambiciona ser cinema. Contenta-se com ser um entretenimento, no qual o único cuidado é com os efeitos visuais e a diversão. Não se lhe pede que examine grandes dilemas existenciais ou que seja um “filme sério” – nem se está a afirmar que essas sejam as características de um bom filme. Pede-se apenas que o filme aspire a mais do que noventa minutos de divertimento. Quem disse que um filme animado não pode ser cinema de autor?

O que acaba mais sacrificado nesta longa-metragem é o roteiro. Os argumentistas pretendiam facilitar o mais possível a compreensão do enredo para os espectadores mais jovens, sem abdicar das típicas voltas e reviravoltas para cativar os mais adultos. O resultado de quererem agradar gregos e troianos é um argumento tão desequilibrado que consegue a proeza de ser simultaneamente demasiado infantil para adultos, porém demasiado rebuscado para crianças.

Os piores momentos são de longe as longas cenas de exposição. Ao longo do filme, qualquer evento, qualquer pequeníssima peça do puzzle que seja desvendada é seguida de uma explicação exaustiva, para garantir que as crianças estão a acompanhar a sequência dos acontecimentos. O exemplo mais flagrante é a cena em que Tim e Lucy exploram um laboratório recentemente assolado e assistem a uma gravação de vigilância – milagrosamente intacta – que lhes explica com detalhe irrisório todo o mistério.

Acresce que o argumento levanta inadvertidamente questões éticas que não está de todo preocupado em explorar – Deus nos livre que um filme com Pokémons nos faça pensar! A título de exemplo, o gritante tema da escravatura: se os Pokémons são autónomos e livres apenas na cidade de Ryme, então são subjugados no resto do mundo? O filme escolhe ignorar as implicações de capturar, aprisionar e forçar Pokémons à luta. Talvez seja um tópico a abordar num volume futuro? Talvez num “Pokémon Detective Pikachu: Civil War”? Fica a sugestão.

Faltou um bocadinho assim para “Pokémon Detective Pikachu” ser o feito que podia ser. A excelência dos efeitos visuais e o encanto das criaturas não deixam ninguém indiferente, mas contrastam com um roteiro descuidado e por vezes absurdo que testa a paciência do espectador. Falta apostar em cineastas e argumentistas, figurar um maior número de Pokémons, e apelar ao coração mas também ao cérebro. A qualidade da animação mostrou potencial para continuar o universo, que era o que se pedia para um primeiro filme. Aguardamos o segundo capítulo (proponho “Pokémon Detective Mew-Two”) e quem sabe se um dia não assistiremos a um épico final (“Pokémon: Endgame”?). Seja como for, como tu não há igual, Pokémon!

«Pokémon Detetive Pikachu» – Live action resulta mais para miúdos do que para graúdos
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