O mais recente filme no género do super-herói, “Batman v Super-Homen: O Despertar da Justiça” destaca-se dos outros filmes do mesmo género por seu fracasso enorme. Com um orçamento de 250 milhões de dólares, argumentistas de filmes respeitados (David Goyer e Chris Terrio, responsáveis pelos guiões de “The Dark Knight” e “Argo” respectivamente) e um enorme catálogo de histórias disponíveis envolvendo dois dos mais reconhecidos super-heróis no mundo, “Batman v Super-Homen” devia ter respondido ao assalto da Marvel com um filme exemplar, seguindo os passos da trilogia do Batman de Christopher Nolan, um dos primeiros filmes do século XXI a mostrar que um filme de super-heróis poderia ser não só um filme de sucesso na bilheteira mas também um filme mais sério do que a grande maioria dos filmes de super-herói. “Batman v Super-Homen” torna-se, potencialmente, o fim do DC Comics. Porquê?

Embora o numero de faltas com o filme poderia levar dias a explicar, há erros óbvios que poderiam serem evitados facilmente. O problema mais sério resta na falta de direção. Enquanto a trilogia do Christopher Nolan lida com personagens claramente e obviamente ficcionais, com histórias mais em comum com um filme do 007 do que um drama influenciado pela vida real, os filmes destacam-se pelo tratamento de conceitos reais. Sentimos a dor de um jovem Bruce Wayne ao ver o homicídio dos seus pais e queremos que ele encontra sua vingança, entendemos que a figura de Harvey Dent como um defensor apaixonante da lei tem que ser mantido puro para poder combater a violência em Gotham e que um vigilante como Batman não pode ser além da lei. Os filmes são sérios, com grande simbolismo, filmados sem dependência a efeitos especiais elaborados e com personagens com quem identificamos e preocupamos. Cada momento nos filmes é intrínseco à estória.

“Batman v Super-Homen” falha em todos os sentidos, ambos como um filme de entretenimento do mesmo estilo dos filmes da Marvel e como um filme lidando com assuntos sérios como os do Nolan. O filme não se sabe o que quer ser, ou um filme de entretenimento leve ou um filme sério. Precisamente o filme falha por essa razão. O espetáculo visual, repleto de cenas de acção com prédios tombando-se, explosões nucleares e mais, siga a tendência de quase todos os filmes de super-heróis, onde o visual impressionante é utilizado para disfarçar uma história fraca e sem desenvolvimento (ao olhar aos filmes da Marvel, nota-se que a maior parte dos filmes são dedicados a cenas de acção e que cada personagem apresenta só uma pequena parte das vidas deles, o suficiente para poder investir-nos emocionalmente neles). “Batman v Super-Homen” tenta utilizar o lado visual e apresentar uma história séria com ideias sérias, mas a dependência visual faz com que as personagens sofram pela falta de desenvolvimento e investimento suficiente, claramente.

O filme não só tem o tom errado, mas também a atitude errada. Na sua tentativa de combater o monstro cinematográfico da Marvel, “Batman v Super-Homen” tem muitos papéis para preencher. Seguindo o tom quase-sério do “Man of Steel”, o filme tenta introduzir mais super-heróis do universo do DC Comics sem a mesma introdução como os filmes da Marvel. A razão por isso é simples: enquanto a Marvel levou mais tempo em lançar dois filmes por ano, introduzindo as personagens principais que seriam unidos no “Vingadores”, DC não queria perder tempo (ler: não queria perder dinheiro) no investimento de filmes mais pequenos mas que iriam ajudar quando seria a hora de unir todos os super-heróis. O que temos é um filme que quase desesperadamente tenta mostrar-nos que eles têm mais personagens do que só o Batman e o Super-Homen. Enquanto todas as cenas dos filmes do Christopher Nolan são necessárias para a história progredir, em “Batman v Super-Homen” temos uma cena onde a Wonder Woman (Gal Gadot) abre vários arquivos com um pequeno vídeo do Flash, Aquaman e Cyborg, criando um drama e uma tensão que acaba apagando-se por falta de direção. A Wonder Woman abre o arquivo: e daí? Não há outra razão para incluir essa cena se não mostrar que a DC tem outros super-heróis. O filme parece que quer fazer dinheiro (como todo filme tem que) mas faz-se de uma maneira óbvia e repugnante, comprometendo a história e as personagens por espetáculos visuais (que, mesmo assim, não se destacam de qualquer outro filme de super-herói ou mesmo de qualquer filme do Zack Snyder).

Um dos pontos bons do filme resume-se ao elenco. Ben Affleck destaca-se bem como Batman, entrando-se facilmente no papel. Henry Cavil como o Homen de Aço desenpenha-se bem mas sem grande novidade. Amy Adams (como a Lois Lane) e Jeremy Irons (desperdiçado como Alfred) não trazem algo novo nos seus papeis mas também não fazem nada de ruim. As outras duas personagens importantes no filme, Lex Luthor (Jesse Eisenberg) e a deputada June Finch (Holly Hunter) são tão confusas que temos que duvidar se eles mesmo tinham lidos o argumento antes de assinalarem o contrato. Hunter faz papel de uma deputada que, no começo, quer passar uma legislação a controlar o Super-Homen no evento que precisá-lhes-ão combatê-lo. Sua posição, sem boa explicação, muda para ter um dialogo sobre a legislação, invertendo a posição forte, quase fanática, que ela tinha no inicio. Luthor, no entanto, quer derrotar o Super-Homen, tentando utilizar um argumento religioso para justificar sua posição (um argumento que não faz sentido, pois Luthor não demonstra qualquer religiosidade nem sequer realmente porque ele vê Super-Homen como um inimigo que tem que ser derrotado). Os filmes de Christopher Nolan e alguns da Marvel demonstraram que os inimigos são tão importantes como, senão mais importantes do que os heróis. Os inimigos do Batman em “O Cavaleiro das Trevas” e “O Cavaleiro das Trevas Renasce”, o Coringa e Bane, são as vezes mais interessantes do que Batman por causa das suas motivações (como Alfred diz em “O Cavaleiro das Trevas”: “Alguns apenas querem ver o mundo queimar”). Luthor não consegue alcançar esse nível de reconhecimento simplesmente por falta de um plano diabólico ou uma personagem interessante. (Aliás, o encarceramento de Luthor efectivamente tira-o como uma personagem viável nos próximos filmes do universo do DC, já que Luthor, que nas Bandas Desenhadas nunca foi revelado como o inimigo de Super-Homen, sempre utilizava sua riquesa para financiar outros a combater Super-Homen. A polícia tirá-lo-ia toda sua fortuna após sua encarceramento, deixando-o inútil).

Para poder lançar seu próprio universo cinematográfico e justificar o orçamento de $250 milhões (quase igual ao primeiro “Homen de Ferro” e o primeiro “Capitão América: O Primeiro Vingador” juntos), “Batman v Super-Homen” precisa ganhar mais de mil milhão de dólares na bilheteira. Na sua segunda semana de estreia, o filme sofreu uma queda em comparecimento nos cinemas, perdendo quase 82% na bilheteira na segunda sexta-feira de estreia do que a primeira (o segundo maior fracasso na bilheteira depois de “Hulk” de 2003, segundo o site Box Office Mojo). Isso certamente deve sinalizar o fim desse universo do DC, neccesitando de um “reboot” como o do Homen-Aranha para poder tentar novamente. A questão que segue é: será que os fãs perderão DC o suficiente para ver o próximo filme com Batman (supostamente escrito e realizado por Ben Affleck) e “Suicide Squad”, que vai incluir Batman, segundo o novo trailer? Se esses falham também, será que a única salvação do DC resta com “Lego Batman”?