A mais recente longa-metragem do realizador José Filipe Costa, “Prazer, Camaradas!”, vai ter a sua estreia mundial na no Festival de Locarno, que se realiza entre 7 e 17 de agosto.

Produzido pela Uma Pedra no Sapato, “Prazer, Camaradas!” desenrola-se depois do 25 de abril de 1974, numa época em que muitos estrangeiros vinham para Portugal ajudar no trabalho agrícola, dar consultas médicas e aulas de planeamento familiar. O realizador serviu-se de um jogo teatral com recurso à dramatização, para fazer um retrato das mentalidades que vigoravam nos meios mais rurais, onde começaram a emergir cooperativas depois da revolução.

“Querem saber quem somos? Como tratamos as nossas mulheres e crianças? Como convivemos e amamos? Venham daí! Vamos estranhar-nos, vamos desentender-nos de certeza, que tudo faz parte desta revolução-festa!”

“O filme nasceu de um conjunto de relatos orais, textos literários e diários sobre a experiência de estrangeiros e portugueses revolucionários que vieram para o centro de Portugal apoiar as cooperativas nos trabalhos agrícolas, nas clínicas, creches e na alfabetização.!

Neste filme o realizador propõe “aos atores um faz de conta: que dissessem ter dezoito, vinte ou trinta e tal anos. E que dramatizassem em vez de reconstituírem os relatos do passado. Reconstituição e dramatização são operações fílmicas bastante diferentes: na dramatização lançam-se dados para serem vividos no aqui e agora da filmagem. Os atores não decoram um texto previamente dado, para ser memorizado e dito e não vão rebuscar recordações, como na reconstituição, para representá-las tal e qual como era no passado. Claro que recorrem a gestos e palavras que fazem parte do reportório da sua memória de vida, mas trazem-nas para um convívio lúdico, interativo e reflexivo, frente à câmara. Ou seja, vivem estes “quadros dramáticos” como situações lúdicas cinematográficas, trazendo festivamente para diante de nós histórias que nem são de ontem, nem de hoje, mas de um tempo suspenso, como se convidassem o espectador para um jogo, em que passado e presente nunca estão delimitados, mas são mesclados.”

José Filipe Costa, assinou, entre outras, obras como Entre Muros” (2002), “O Caso J” (2017) e “Linha Vermelha” (2011). Este último revisitava o documentário Torre Bela do alemão Thomas Harlan sobre a ocupação de uma propriedade privada por uma cooperativa no Ribatejo, depois do 25 de abril.